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A FESTA

                Era uma vez um rei que acordou sombrio numa bela manhã luminosa. Seu péssimo humor provinha de uma noite mal dormida, castigo merecido pela carraspana da véspera, quando ficara até tarde especulando sobre o sentido da vida com Sócrates, Descartes e Confúcio. Seu erro fora acompanhar o grego nas libações aos deuses; deu no que deu, pois o homem tinha a garganta curtida de cicuta.
            Era o rei um velhote baixo e gordo, de barbicha branca, respeitado em todo o Reino do Faz-de-Conta e mesmo além fronteiras, pois já fora famoso, havia muitos anos, quando histórias suas eram publicadas em tiras de quadrinhos nos principais jornais. Com voz arrastada, que traía um misto de irritação e enfado, chamou seu ajudante-de-ordens:
            — Pinduca!
            — Hã?
            (Ao contrário do que pode parecer, o ajudante-de-ordens não faltava ao respeito com seu rei. É que ele era mudo desde criancinha — e também pelado na cabeça. Dois mistérios!)
            — Pinduca, cerre as cortinas, que essa claridade me ofende os olhos reais!
            — Hã — fez o carequinha, apressando-se a cumprir o ordenado.
            — Para melhorar meu real ânimo, promova uma festa à tardinha!
            — Hã?
            — Sei lá... Pense em alguma coisa. Fale com o Platão, que é criativo. Talvez um concurso, um desfile... Isso, um desfile de ideias, uma competição das mais belas palavras de todos os idiomas...
            — Humm!
            Posto a par do desejo real, Platão, que não era bobo, mandou logo espanejar toda a população do seu mundo-das-ideias, para tirar a poeira dos anos, providência útil pois muitas das ideias se encontravam emaranhadas em teias-de-aranha. Que se preparassem todas para o desfile, com sua melhor roupagem! Apenas dez de cada idioma se apresentariam, mas ele não sabia ainda quais; chamaria especialistas para escolher. Convocados, começaram eles a chegar: Petrarca veio com Dante; Shakespeare, sozinho; Pessoa e Drummond também compareceram em par (na verdade formavam um quinteto, pois encarapitados no português vinham seus heterônimos). Estes foram os primeiros a chegar, mas não tardou o salão estava repleto de notáveis: Cervantes, Calderón, Lao-Tse, Flaubert, Camões, Nishima, Dostoievski, Proust, Machado, Lobato, Omar Khaiam, enfim, uma multidão de barbas, cavanhaques, calvas e cabeleiras. Destoando no hirsuto universo, apenas uma mulher a se destacar, com seu porte altivo e graça feminil — Gabriela Mistral.
            Feitas as escolhas, as dez mais belas palavras de cada língua vestiram-se de gala e se dirigiram em procissão ao palácio do rei. Cumprindo o seu decreto, o desfile principiou quando o campanário da capela real pôs-se a bimbalhar por ângelus. O povo todo mais as ideias não escolhidas apinhavam o paço real. Platão assessorava o rei fornecendo explicações, quando solicitado. Os raios do sol poente haviam cedido sua luz dourada para a iluminação elétrica, que a Lua se encarregou de mesclar com pinceladas de prata. Pássaros comandados por Mestre Sabiá trinavam a abertura da Flauta Mágica, sob a aprovação sorridente do mancebo Mozart.
            A apresentação, que se dava sobre uma passarela forrada de pétalas de rosa, desde seu começo arrancou aplausos da plateia. As ideias, ricamente trajadas, a bem dizer mal pisavam no chão, leves e esvoaçantes, a poder de uso abusivo de pó-de-pirlimpimpim, fornecido a mancheias pelo contra-regra Lobato.
            Um relato pormenorizado de toda a festa poderá ser encontrado no endereço www.mundodofazdeconta.gov. Para efeito deste simples registro, que é o nosso, é bastante salientar algumas das palavras que mais conquistaram o público. Saionará, por exemplo, com seu quimono azul e passinhos curtos de gueixa; Liberté, com seu peito nu de seios duros, fronte altaneira e olhar distante; Añoranza, de vestido andaluz e visão turbada por uma lágrima; Noite, envolta em manto de estrelas; Butterfly, de asas diáfanas multicor; a velha Saudade, com seu hábito de monja carmelita; Pirilampo, de intermitente luminescência; Pizzicatto, de pés ligeiros e pulinhos frenéticos. Mas ninguém despertou mais comoção do que Colibri, com seu corpinho minúsculo, a graça do vôo errático e a delicadeza dos beijos que ia depositando nas flores à margem do caminho. À sua passagem, o público não se continha; entusiasmado, aplaudia de mãos e pés, estes a bater descompassados no chão surdo, levantando poeira. Das bocas saíam assobios e dos olhos, lágrimas.
            O rei, em sua sapiência muitogenária, compreendeu de imediato o desejo de seu povo e, aconselhado por Maquiavel, proclamou Colibri a entidade vencedora e o português, a mais bela das línguas.
            A festa continuou até de madrugada e não faltaram libações aos deuses.
            De manhãzinha ainda se pôde observar o rei e Sócrates, trôpegos, a se amparar mutuamente pelo Passeio Real.

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