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NO CALDO DA NOITE

(Homenagem a Cyrano de Bergerac)

            Tirou toda a roupa e atirou-a de lado. No céu a luz das estrelas, que salpicavam a escuridão da noite de lua nova, não conseguia clarear o seu corpo atarracado. Por isso continuou ele a se confundir com os dormentes do caminho de ferro. Por mais que olhasse a própria carne, branca de falta de sol, mal distinguia os seus contornos, mergulhado que estava no caldo da noite. Ao longe, na linha do horizonte, uma estrela brilhava mais que as outras, mas ele sabia que aquela não era uma estrela comum, mas a última das estrelas, e que vinha ao seu encontro. O brilho dela, cada vez mais intenso, arrebatava-lhe o olhar fascinado e do seu corpo, antes opaco, pôs-se a arrancar faíscas como um escultor a tirar lascas da pedra-estátua. As pupilas pretas inflamaram-se de fogo novo e seria difícil dizer quanto dele correspondia a reflexo e quanto à fogueira de sua loucura. Ajoelhou-se no meio dos trilhos e, de braços estendidos, pousou a testa entre os dormentes como se fora um muçulmano a orar por Meca. Já podia ouvir a surdina do barulho do trem que se aproximava, com a estrela na testa a iluminar seu corpo com luz branca, como a lhe dar um último banho lustral. A cabeça, afundada entre os dormentes, escondia a cabeleira preta, e a luz incidia apenas na pele pálida do corpo nu, que, como espelho irregular, refletia-a em todas as direções. A irradiação daria à cena a falsa aparência de irrealidade, se espectador houvesse a apreciá-la. Mas não havia; ele estava só, mais só do que quando viera ao mundo, igualmente desnudo é verdade, mas agora sem o cuidado da mãe e da cigana parteira que o aparara entre trapos lavados. Semelhanças e diferenças entre a chegada e a partida! Sonhos sonhados e desfeitos, alegria e esperança, tristeza e desencanto, o começo e o futuro, o passado e o destino, chegara ele com festa, partia agora sozinho.
            O primeiro impacto do trem foi como um trovão em sua cabeça, um barulho que absorveu todos os sons do mundo e fez ressuscitar os murmúrios adormecidos da memória, e como trovão que era, veio acompanhado de uma luz tão intensa que cegou seu olhar lógico e fê-lo ver num relance toda sua vida, curta como ele. Junto com tudo, uma grande surpresa: a surpresa de não sentir nenhuma dor. Então, era assim morrer? Muito mais fácil que viver...
            Ciro era o nome dele. Tinha um metro e oito de altura mas vivia dizendo que era um e dezoito. Quando criança, brincavam com ele: — Que vai ser quando crescer? Todos sabiam que nunca cresceria grande coisa, mas continuavam a perguntar e a rir. Mesmo depois de adulto, perguntavam a mesma coisa, não se cansavam de repetir, e pareciam encontrar o prazer de sempre. No começo devia de ter doído, ele não se lembrava, mas agora não ligava mais; acostumara-se. Sabia, por experiência própria, que é possível se habituar a tudo. Não vivia ele nesse mundão de coisas grandes, tudo feito em escala gigante, para as pessoas ditas normais? Na hora de tomar o ônibus, o primeiro degrau ficava tão distante do solo que ele precisava pular para alcançá-lo; se ia ao cinema, tinha que sentar em posição lateral para ter visão da tela e só via filme enviesado; quando cortava o cabelo, o barbeiro emborcava na cadeira uma gaveta da cômoda, sobre a qual se sentava para ficar com altura conveniente, e as pernas a balançar no ar; para o tamanho delas, as ruas eram largas demais e atravessá-las, uma aventura. Mas o pior de tudo eram as mulheres. Elas não o levavam a sério, olhavam-no como se mirassem um brinquedo, um boneco animado. Tinham palavras amáveis, até de carinho, mas que jamais eram dirigidas ao homem que ele era. Tratavam-no como se fora uma criança, um bichinho de estimação, um ser andrógino. Também neste ponto, ele mal lembrava quando havia deixado de doer, mas ainda não se habituara de todo. É certo que aquele antigo desejo carnal desaparecera, mas não antes de provocar renhidas batalhas morais — quantas vezes rendera-se ao onanismo! Chegara a colecionar escondido revistas eróticas. Desculpava-se consigo mesmo dizendo ser apenas interesse estético, gosto do nu artístico, mas a mentira derretia quando ele entrava com elas ao banheiro. Vivia a despir com os olhos as mulheres da rua e deu de segui-las, assim desnudadas, acompanhando os movimentos do andar, o menear de ancas, o balouçar de seios, na tentativa de surpreender um gesto mais ousado, um passo mais aberto, a revelar, quiçá, tesouros ocultos. Depois, levava essas imagens para casa e juntava-as às das revistas, enriquecendo a imaginação. Às vezes pensava em procurar uma mulher que fosse anã como ele, com quem pudesse deitar de verdade e sentir tudo aquilo que fantasiava, mas as anãs não o atraíam — Deus seja louvado! Sentia por elas repulsa. É plausível que tenha sido este sentimento que o fizesse desconfiar que ele, por sua vez, devia também ser motivo de repulsa para as mulheres em geral. Sendo tímido por temperamento, essa presunção fê-lo encolher-se ainda mais em si mesmo. Procurou refúgio nos livros: desde que não podia ter uma vida real, tê-la-ia de mentira — ou como costumava dizer a si mesmo, de empréstimo. Começou com o que lhe caía nas mãos, geralmente literatura barata, alguma coisa de auto ajuda, mas aos poucos foi discernindo, e logo estava a escolher Lobato, Machado, Dostoievski. Não demorou e resvalava pelos desvãos da filosofia. Ali, junto a Platão e Epicuro, aprendeu que a verdadeira felicidade reside no desenvolvimento do espírito e que os apelos da carne são o grande obstáculo a ser vencido pelo homem realmente sábio. Como era de natureza ingênua e crédula, deixou-se levar por essas idéias  e se pôs a reprimir os apelos vigorosos da libido saudável. Não conhecia ainda a teoria de Freud; soubesse-a, é provável que não haveria agido assim. De qualquer forma, as limitações do físico minguado, ajudadas pelo esforço consciente e tenaz, acabaram por redundar naquilo que o sábio de Viena — se disso fosse informado — orgulhosamente teria apresentado ao mundo como um acabado exemplo de sublimação. Por este mecanismo, deu-se fim à coleção de revistas, reduziu-se o tempo de uso do banheiro e cessaram as perambulações erráticas pela cidade em pós de nádegas e quadris. As mulheres sofreram um processo de idealização, onde a carnadura foi eterizada, gestos e sinais eróticos, traduzidos como movimentos sacrossantos e até eventual desnudamento de partes pudentas entendido como inocente e despojada postura. Pôde assim o renovado anão Ciro, liberto dos agrilhões da carne, dedicar todo seu esforço ao malabarismo e trejeitos de sua personagem de palhaço de picadeiro, a qual — seja dita a verdade — andara, nos últimos tempos, se ressentindo da irrupção libidinosa há pouco descrita.
            É chegado o tempo de gastar um pouco de tinta no esboço da figurinha de Ciro. Nem tanta será preciso, dado que o resultado será obrigatoriamente uma miniatura. Já foi dito de sua medida vertical — pouco menos de um metro e dez; resta dizer que para tão parca altura, apreciável quantidade de material houvera gasto a natureza, como aliás sói acontecer nos casos da espécie: geralmente são massudos os anões. Ciro não era exceção, era curto e grosso, tinha braços e pernas musculosos e tronco roliço, os membros um tanto curtos para a proporção do corpo. Este, se tomado isolado, quase poderia se confundir com o de um homem normal, não fosse pela ligeira cacunda. Acima do tronco, quase colocada diretamente sobre ele, pois que era desprezível a presença do pescoço, por pouco inexistente, enterrava-se uma cabeçorra, na qual dividiam espaço e massa, de um lado, o crânio ossudo, coberto de espessa cabeleira negra, a engolfar presumíveis orelhas, e do outro, um prodigioso nariz. Que nariz! Comprido? Sim, mas não só comprido. Largo também, e arqueado, com grossas narinas, que poderiam aspirar todo o Bóreas, se por acaso consentisse ele de soprar em nossas paragens. Intermediando as duas massas, a do crânio e a do nariz, situava-se, como uma linha de fronteira, a superfície da face, de cujas profundezas emergia a luz de dois olhos minúsculos, luz freqüentemente interrompida pelo parpadear das pálpebras, quando não era eclipsada pelo movimento de taturana das grossas sobrancelhas. A boca, carnuda e sensual, parecia trair todo o processo de espiritualização que se produzira em Ciro, como se a ele resistisse, teimando em se fixar como legado concupiscente de uma luxúria não de todo vencida. A indumentária de palhaço era, como devia ser, de cores berrantes: o casaco, cortado como um fraque, vermelho e encimado de larga golilha branca, à maneira de um nobre da corte filipina; as calças, azuis, desciam folgadas para se apertarem junto aos tornozelos, com o fim de realçar o tamanho das botinas, alongadas e brilhantemente douradas; na lapela do casaco, estava plantada uma enorme margarida, de onde surgiam inesperados jatos d’água — delírio maior da criançada, somente suplantado pelos esguichos dos fundilhos das calças. A figura, como um todo, era roliça, e Ciro aproveitava disso para entrar no picadeiro de forma espetacular: o outro palhaço aparecia carregando uma caixa que, de repente, derrubava ao chão; de dentro saía Ciro, a rolar como uma bola. O efeito surpresa era sempre recebido com muitas palmas. Contribuía para o sucesso do número o contraste das duas figuras: enquanto Ciro era troncudo e nanico, seu companheiro — o Magrelo — era fino e comprido. Magrelo era apelido, nome de guerra, nem ficaria bem chamar um palhaço de Cristiano, o nome verdadeiro. O próprio Ciro, pouca gente sabia que tinha outro nome que não o de Tonhão, que formava a dupla mais festejada dos picadeiros: Tonhão e Magrelo. Só o chamavam de Ciro, reservadamente, o próprio Magrelo e a amazona Roxane, que artisticamente afrancesara o nome singelo de Rosana.
            Roxane tinha um número sublime de cavalos, uma parelha de purossangues lusitanos; o macho, preto, a fêmea toda branca — Azeviche e Estrela. Entravam os três no picadeiro feérico em formação de pirâmide e a galope, os animais lado a lado e a amazona a cavalgá-los ereta, um pé em cada dorso. Os corcéis, vigorosos, adornados, pareciam espargir em sua passagem, por efeito centrífugo, uma energia desprendida do movimento ritmado dos músculos pujantes, energia que pairava por um instante sobre as cabeças do público hipnotizado, antes de cair sobre ele e apossar-se de seus membros dormentes. Invadia-os, aquecia-os, eletrizava-os, preparando-os para o paroxismo da ovação, quando se alevantavam como uma esteira, assim como ondas do mar quando singradas por valorosos batéis. Esta primeira impressão era visceral e explosiva, como que nascida das cavernas profundas do inconsciente coletivo. Por um momento, suplantava qualquer outra percepção. Mas, assim como surgira, abrupta, em breve tempo refluía, permitindo que outras sensações aflorassem aos nervos excitados, acalmando-os. Eram estas, sensações de beleza, de espiritualidade, irradiadas pela deusa que, aparentemente sem esforço, comandava a fogosa parelha. Tinha ela o pleno domínio dos animais, embora segurasse as rédeas como quem segura um ramalhete de flores. Sua figurinha, esbelta, seios arfantes de menina moça, conduzia-se com natural flexibilidade, dobrando e distendendo os joelhos em perfeita sincronia de movimentos com o dorso de cada animal; o braço livre, estendido, oscilava graciosamente para assegurar o equilíbrio; os cabelos, negros e luzidios, eram arrepanhados na altura da nuca, à moda de uma dançarina de tango e se completavam com um diadema, com forma de rendado de noiva, que lhe ornava a fronte alva. Debaixo de sobrancelhas firmes, mas não grossas, rebrilhava o olhar da moça, duas jabuticabas lustrosas, de cuja atração dificilmente escapavam os olhos do público. Quando o conseguiam, era para resvalarem na estreita pista descendente do nariz e cair indefesos na fresta dos lábios entreabertos. Sim, de espiritualidade, era a impressão causada pela amazona, mas de uma espiritualidade temperada com uma pitada sensual, pelo menos durante o desenrolar do espetáculo, pois que, ao seu término, o sorriso inocente, largo e feliz, que brotava do rosto de anjo, fazia com que cada um que nutrira até havia pouco algum sentimento lascivo, dele tivesse remorso e vergonha.
            Quando Roxane irrompia com a parelha de cavalos, já encontrava no picadeiro a dupla de palhaços. Tonhão e Magrelo aguardavam discretos as primeiras revoluções do conjunto e, quando o paroxismo da platéia ameaçava decrescer, punham-se os dois em movimento simultâneo: agarrava cada um uma cauda dos cavalos e deixavam-se arrastar na correria; no momento seguinte estavam ambos a cair e a rolar desgovernados até pousarem com estardalhaço no colo de pessoas da primeira fila. Vencida a estupefação do instante, explodia uma gargalhada geral, seguida de palmas e assovios. Depois, a dupla se punha a macaquear as proezas da amazona em cima dos cavalos, com os resultados de sempre: tombos e risadas.
            Fora do picadeiro, os dois amavam Rosana, cada qual a seu modo: Ciro a amava como se deve amar a um serafim, com sentimento platônico, assexuado; não muito casto, porém, nem etéreo, e pouco sublime; era o amor de Cristiano; ao contrário, era uma paixão carnal que lhe verrumava o fígado e descia incandescente para intumescer e dolorir as gônadas. Era estranha a existência e a força dessa paixão, posto que a figura que a causava era mais etérea que terrenal, espiritual e não mundana, ainda menina-moça a se fazer mulher. Talvez que por isto mesmo despertasse em Cristiano os sentimentos que Ciro reputava de baixos — quem há de entender a natureza humana! Pois não os há, os pedófilos? Talvez tivesse razão Ciro, e Cristiano necessitasse mesmo de uma certa lapidação de caráter. Para o bem ou para o mal, o certo é que a paixão ali se instalara e crescia dia a dia.
            A moça também amava os dois, um, como um pai, e o outro, como irmão. Não se dera ainda em seu ser o despertar do amor carnal, se bem que não raro acordasse em sobressalto algumas noites, banhada de suor frio na testa e molhada de humores estranhos no baixo ventre, envergonhada da lembrança fresca das cenas libidinosas que havia pouco lhe povoavam a mente, dentre as quais se destacava, em primeiro e inteiro plano, a figura hercúlea de Atlas, “o homem mais forte do mundo”, o levantador de pesos que a todos desafiava, e que vencia, sozinho, o cabo de guerra contra dez homens da platéia. Os músculos possantes a intumescer a pele morena, o peito cabeludo, as pernas torneadas, tudo via em sonhos e via de maneira completa, todo desnudo, sem o tapa sexo que usava no picadeiro. Acordava sôfrega e vexada e não conseguia dormir outra vez; enrodilhava-se na cama, enfiava a mão entre as pernas e as apertava com força até que os joelhos doessem, e assim via a madrugada deslizar atrás da cortina da janela. Com a chegada do dia, sacudia de si as tentações, como quem agita o capote para se livrar de uma caspa importuna, e passava o resto do tempo sem pensar no caso. Às vezes, sucedia do sonho voltar à noite, mas quase sempre ele só retornava depois de muitos dias; por isso, até esquecia dele. Quem, por ironia, fazia-a lembrar, era Cristiano, quando se insinuava para cima dela com trejeitos e sussurros. Mas, para desgraça do rapaz, a iniciativa era recebida com frieza. Rosana se arrepiava sim, após um toque mais ousado do moço, mas era de asco. A natureza, contudo, parecendo seguir o princípio heraclitiano da luta dos contrários, fazia sobrenadar na consciência da menina a lembrança prazerosa dos movimentos másculos do brutamontes de seus sonhos. Desta forma, sem que disso se apercebessem, a corte de Cristiano servia cada vez mais para separá-lo dela e, o que era pior, funcionava como um fermento que fazia crescer o interesse da garota pelo ferrabrás. Este interesse, por sua vez, de tanto viajar pela cadeia neural, embebida de hormônios típicos da idade, não demorou a se transfigurar em desejo. E cada vez mais intenso. E é assim que uma apatia inicial, à força de ser provocada, segue também o caminho heraclitiano, e vem a se transmudar em seu contrário, a saber, uma paixão, que só não digo avassaladora para não fechar a frase com um clichê de mau gosto.
            De tudo isto lembrou Ciro quando o clarão da primeira pancada espocou-lhe dentro da cabeça. As cenas surgiram nítidas, simultâneas, mas o entendimento as ordenou com lógica. O trem, contudo, continuou a passar-lhe sobre o crânio e o entendimento esgarçou-se-lhe junto com os tecidos, numa prova de que a simultaneidade é um conceito mas não um fato. As cenas rodopiaram, se interpenetraram, baralharam-se numa mixórdia de non sense; aqui, era um Cristiano despeitado, violento, a agredir a suave Rosana; ali, o desafio, a briga, a surra, as juras de vingança; o bruto Atlas a brutalizar a menina; o Ciro enlouquecido a degolar o vilão e a moça a chorar sobre o cadáver, a amaldiçoar a mão que lhe roubara o amante, para sempre perdido; a maldição a cair-lhe na alma, qual ferro fundido, a queimar-lhe as entranhas e as entranhas a ser emplastradas pelas rodas de aço sobre os trilhos de ferro. A loucura, que chegara a um paroxismo, começava a ceder sob o peso da máquina que passava por dentro de seu ser. Em meio ao barulho ensurdecedor de ferro contra ferro, de ossos a estalar, de tripas a se retesar como cordas de um violão mal afinado, uma estranha calma parecia surgir de um buraco cada vez mais negro e cada vez maior; era um céu preto que engolia a luz das estrelas e a luz do trem e acabou por engolir também a luz que restava nos seus olhos miúdos. Fez-se um negro silêncio, enquanto o trem continuava a passar pachorrentamente sobre os pedaços informes daquele que um dia fora Ciro e, nas noites de função, o inimitável Tonhão.
            O trem era uma composição de noventa e oito vagões, o maior trem do mundo, da Vale do Rio Doce, que transportava minério de ferro até ao porto de Tubarão, na capital do Estado. De baixa velocidade, continuou a passar por muito tempo, e foi estendendo Ciro sobre o leito, sem pressa, com a mesma eficiência e cuidado com que um confeiteiro estende a massa de trigo sobre a lajota de mármore. Ao final, poucos pedaços sobraram no leito vazio e alguns cães vadios, que perseguiam uma cadela no cio, esqueceram por um instante o apelo da espécie e banquetearam-se do que restara. Apenas um ou outro dente ficou a brilhar entre os seixos escuros. Uma aragem mais forte veio espalhar os tufos de cabelo. O sangue se entranhou na madeira dos dormentes e perdeu a cor. Mais tarde, quando o sol esquentou, o calor fez evaporar seus últimos vestígios.
                Era verão.

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