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NÓ-NAS-TRIPAS

           
Não é ruim a vida de aposentado, desde que se aplique um pouco de método na maneira de enfrentar o tempo. O problema do estreante é a falta de previsão: de um momento para o outro ele tem o tempo inteiro na mão e não sabe o que fazer dele. Acostumado que sempre esteve a sorvê-lo em doses homeopáticas, bebendo-o em pequenos goles, de repente acorda imerso em grande caudal e, se não estiver preparado, acaba por naufragar. Acredito que é o que acontece com a maioria; são os que trocam o trabalho pelo pijama, e só pensam em puxar uma soneca. A parada brusca e a ausência de objetivos emperram a máquina, e logo, o pijama de pano, de pouco uso, é trocado pelo de madeira. Contudo, se houver um plano, a vida pode ser muito boa. É o meu caso, o do Zé Duarte, o do Tranquilino das Neves, e foi, também, o do finado João Bosco. Aliás, o nosso plano, em muitos pontos coincidia: de manhazinha, longas caminhadas, para manter a forma; depois do almoço, o bilhar; à tardinha, mesa de cerveja; depois do jantar, novelas ou livros, cada um na sua. Como o Bosco não gostava nem de livros nem de novelas, ia ele, sozinho, caminhar na noite, por caminhos escuros e veredas, quanto mais escuro, melhor; gostava de estrelas e da Via Láctea. No que restava da manhã, depois das caminhadas, muita variação: o Zé Duarte, no galinheiro ou às voltas com os passarinhos; o Tranquilino, mexendo na horta e no jardim; o Bosco, cuidando dos preparos de pescador – linhadas, anzóis e iscas. De comum, um só costume: o levantar cedo.
O que resta de minhas manhãs, passo-as lendo e escrevendo. Não por pruridos literários, que na minha idade são imperdoáveis, mas para manter ocupação e, um pouco, por hábito. Depois de quase quarenta anos redigindo relatórios e cartas, escrever passou a ser uma segunda natureza. E a falta de compromisso me dá uma sensação de liberdade que nunca tinha experimentado. Indefinível, mas gostosa. Sou, por assim dizer, um aprendiz de cronista; registro pequenas coisas: conversas com amigos, fatos do dia, comentários e maledicências do escasso povo de Boa Esperança, alimento principal de que se nutre. E o que não falta são comentários. Ainda agora, não se fala de outra coisa senão do fantasma de João Bosco. Ele, que em vida passou despercebido, agora ficou famoso. Não são poucos os que me vêm perguntar como ele era, na tentativa de um retrato; mas no máximo levam apenas um esboço. A figura completa é sempre feita de milhares de pequenos momentos, indefiníveis e desimportantes em si mesmos, e que só se unem em harmonia com o cimento do convívio. Talvez contar seus últimos dias sirva para melhorar o esboço.
            Bosco já vinha emagrecendo havia algum tempo quando o carregaram para São Paulo. A viagem lhe foi um tormento, com o trânsito congestionado na estrada e sol forte batendo-lhe na cara. Ao chegar, desceu do carro com cuidado de pé direito, para dar sorte; era a terceira vez que pisava aquele chão, e de novo a sensação do concreto frio lhe atravessou o sapato e atingiu a planta do pé. A primeira vez fora no casamento da filha, que quis seu braço no caminho do altar; a outra, no nascimento do neto, quando a mulher embestou de auxiliar a filha durante o resguardo.
            Bosco não gostava da Capital, nem do apartamento no décimo quinto andar; não suportava grandes alturas. Mal entrara, arriscou de longe um olhar pela janela e se sentiu vacilar, atraído pelo vazio. Lembrou-se do passarinho, que vira certa feita saltitando pioso em direção à cobra, também ele atraído e, com esforço, desviou os olhos para a parede. Como podia toda essa gente, em tantos prédios, se acostumar com a vertigem e viver como se no chão?
            Sentia as pernas dormentes e o mal-estar na barriga, que não o largava havia algum tempo. Teve vontade de andar, mas já da cozinha o chamavam para o café. Foi, sem fome; já não era o mesmo, como quando se sentava à mesa e ficava quase encoberto pelo prato enorme, que devorava num instante.
            — Bosco! Quantas vezes tenho de dizer? – lamentava a mulher. – Mastigue, homem! Deus deu dentes para usar. Vai lhe fazer mal comer assim; depois não se queixe.
            Na verdade ele nunca se queixava, ela sabia; desistia, então, deixando-o engolir inteiro.
            Agora, a fome morrera, um naco de pão era o suficiente; mastigado e enrolado, demorava a descer. E mulher e filha insistindo: beba o leite, olha a rosca, só mais um pouquinho... Saco! Era um custo aturar.
            — Levantou-se, brusco, e foi para a sala fazer um cigarro. Palha na boca, o rolo de fumo, cheiroso, nos dedos, o canivete afiado cortando fino e mordendo o calo do polegar. Pensamento correndo solto.
            Acalmou-se.
            Ligaram a televisão; a família foi se chegando.
            A sala, com os assentos colocados em semicírculo, dava destaque natural ao grande aparelho, ao lado da janela, meio coberta de pesada cortina. Todos, sentados, tinham à frente as imagens coloridas e cambiantes: o belo rapaz-herói, fumando o cigarro de classe, a salvar a linda moça de seus carcereiros mal encarados e acendendo-lhe – com rico isqueiro – o cigarro de classe, também dela. Depois, o banho refrescante e sensual, na banheira de acrílico transparente; pernas e pedaços de seios emergindo da espuma farta-cremosa-perfumada do sabonete das estrelas.
            — Vida de empréstimo! – filosofou Bosco, terminando de enrolar e pondo fogo no palheiro. Puxou uma tragada forte. Cigarro de macho. Ainda com vontade de andar, quedou-se, porém, sentado para não incomodar ninguém. Nada de papo, para não perturbar a atenção quase mística de cada um. Outra baforada; a fumaça tênue, subindo lenta, parecia refletir a luminescência da televisão, com a mesma religiosidade de todos os olhos. Ah, como era diferente sua casa! Mobília simples – cadeiras de pau e palhinha ao redor da mesa –, nada de macio e de conforto, mas onde um cristão olhava para a cara do outro, conversando mais com coração do que boca, olhos se mirando.
            Deu outra puxada no cigarro. O neto se levantou e correu a janela; uma lufada de ar frio penetrou a sala.
            — Feche essa janela, menino!
            — É para sair o cheiro do mata-rato do vô.
            — Psiu! Silêncio! Olha a novela!
            Bosco foi terminar o cigarro na cozinha para não atrapalhar a novela.
De manhã, acordou cedinho. Vestindo silêncio, fez café para boca de pito e saiu. As ruas estavam quase desertas e o escuro do céu, a sofrer o ataque do dia, começava a desmaiar. Dirigiu os passos para o nascente, sem pressa, como se fosse a habitual encontro de velho amigo que o esperasse. Sabia, porém, que só muito tarde veria o amigo sol: a névoa densa era prenúncio de dia quente.
Andou muito, tomando tento do caminho para voltar certo. Aos poucos as ruas iam se enchendo; o trânsito engrossava. De repente, desembocou em uma grande avenida; era como um rio ondulante de máquinas vagarosas, prenhes de espremidas pessoas. De quando em quando uma delas parava e vomitava parte de seu conteúdo, magote de homens e mulheres que, caindo ao chão, se animavam de movimentos automáticos, em todas as direções, rostos ainda sonolentos. O barulho de buzinas e motores agredia os ouvidos; o ar, pesado de fumaça, ardia nas narinas.
Entrou em um bar e pediu uma pinga, para espantar a friagem. À sua volta, gente apressada, estranha. Chegavam, eram servidos, saíam mudos. Nem um alô, um sorriso; nada como no boteco do Tião, onde costumava ficar horas com os amigos, passando em revista casos e fatos, vivendo de orelha e boca um pouco da vida de todo o mundo. Reconheceu no cartaz o cigarro de classe que vira na televisão. Ou por curiosidade ou por vergonha de sua palha, comprou um maço; experimentou: não tinha gosto, não sentia o bicho no peito.
Saiu.
A poucos metros, estendido na calçada, um homem estrebuchava. Chegou perto e viu que era um rapazinho, talvez da mesma idade do neto, Ao lado, cadernos e livros amarrados em duas cintas de couro, O corpo inteiro se agitava, como se transpassado por descargas elétricas; o rosto, pálido, e espuma na boca. Era o ataque.
João Bosco ajoelha-se e com cuidado acomoda a cabeça do garoto entre as pernas, evitando que se fira na aspereza do passeio. As pessoas desviam, passando ao largo, com olhares curiosos. Algumas diminuem o passo, outras param, comiseradas. Bosco tira o lenço do bolso e limpa a espuma do rosto do menino, guardando-o a seguir.
            — Tio, você não tem medo? – pergunta um rapazola.
            — Não tem perigo, filho, não é contagioso.
            — Tem certeza? Como é que sabe?
            — Ora, é só um ataque, passa logo. Está vendo? Já vai acabar.
De fato, as convulsões se espaçavam e enfraqueciam, e terminaram por cessar completamente. O corpo, largado e flácido, estava inerte, a cabeça pendente, a boca caída.
            — Morreu?
            — Não, filho, é assim mesmo. Agora ele fica quieto, daqui a pouco estará bom. Me dê uma ajuda aqui.
            — O que você vai fazer?
            — Tirá-lo deste sol. Vamos carregá-lo para o bar; pegue pelas pernas.      — Eh! Que negócio é esse? – gritou o homem, detrás do balcão, quando entraram com a carga imóvel.
            — O moço teve um ataque — explicou Bosco. — Vai descansar um pouco.
            — Isto aqui não é hospital!
            — Vá à merda! – vociferou Bosco, ajeitando o rapaz numa cadeira.
            Alguém depositou o pacote de livros sobre a mesa. O garoto abriu os olhos.
            — Quem... quem é o senhor? – balbuciou.
            — Bosco.
            — Por quê?
            — Porque minha mãe era devota do santo.
            — Não! – gemeu o rapaz. — Por que está me ajudando?
            — Ora, você estava na calçada, podia ter se machucado.
            — Obrigado – agradeceu ele e, depois de pequena pausa: — Nunca tinha acontecido antes.
            — O quê? – estranhou Bosco. — É a primeira vez que você tem ataque?
            — Não, já tive muitas. É a primeira vez que alguém me ajuda. — Pareceu se preocupar: — Que horas são? Puxa! Vou chegar atrasado na escola.
            — Espere! Tome um pouco d'água.
            O rapaz bebeu e se levantou.
            — Você já está bom mesmo?
            — Beleza! O senhor foi muito legal. Tchau!
            Pouco antes do almoço Bosco estava de volta a casa. Sentou-se perto da mulher, que via televisão, e fez um palheiro. Deixou-se estar, manso, saboreando o bom gosto do fumo goiano; ainda trazia as narinas saturadas do ar da rua. No televisor, uma mulher de meia idade, exageradamente maquilada, falava de receitas de doces, xampus de cachorro e cuidados de beleza. Bocejou. Nos últimos tempos era freqüente ser atacado de estranha sonolência, mesmo de dia. Não opôs resistência e logo adormeceu, sonhando com o garoto a estrebuchar na calçada, com espuma na boca, que era lambida por um cão asseado, de pelo tratado com xampu, e que, na cena seguinte, se aconchegava no regaço da mulher quarentona, que o beijava no focinho repetidas vezes; a espuma se misturava com o batom e manchava seu rosto impecável.
                Acordado para o almoço, mal comeu. Nunca fora muito sensível, mas a maionese o repugnou naquele dia.
Na manhã seguinte foi ao médico, acompanhado da filha. O consultório ficava em um alto edifício, todo envidraçado. O elevador veloz os levou para as alturas, tocando uma música suave, que contrastava com a sensação de frio na barriga. A sala de espera era mobiliada com luxo e os pés afundavam no tapete grosso. A atendente o entrevistou, preenchendo uma ficha: nome, endereço, idade, enquanto a música em surdina pairava no ar, surgida não sabia de onde.
A espera, as revistas, a música; de que adiantavam? O Chicão, crioulo sacudido, forte como moirão de cerca, em seis meses se acabou, mirrado e consumido. De nada serviram as mezinhas e benzeções de Dona Engrácia. Agora, chegara a sua vez. Sempre resistira à idéia de vir ao médico, mas mulher e filha terminaram por vencê-lo. Antes, apenas uma vez consultara com doutor: quando a cobra lhe picara. Tirante as doenças de criança, sarampo, tosse comprida, caxumba e catapora, nunca tivera problema de saúde.
— Senhor Bosco! — chamou a moça, introduzindo-o em outra sala, onde estava o médico. À sua frente lhe sorria um rapaz — quase menino! — de cabelos louros, anelados, metido dentro de roupa branca, impecável e engomada. Um querubim.
            — Bom dia, Sr. Bosco! Como está?
            — Bem, obrigado.
            — Sente-se. Qual o problema?
            — Olha, doutor, acho que não tem jeito não, mas a mulher insistiu tanto que eu vim.
            — Ora, Sr. Bosco, para tudo se dá um jeito, O que é que o senhor tem?
            — Parece que é nó-nas-tripas, doutor.
            — Nó-nas-tripas? — Por um instante o sorriso do médico vacilou. — Vamos ver isso direito. O senhor sente dor?
            — Não doutor, só um mal-estar.
            — E as evacuações?
            — Como, doutor?
            — Os intestinos. Os intestinos — repetiu —, como estão funcionando?
            — Ah! Parece que está tudo entupido. Demora três ou quatro dias; e sai uma obrinha de nada, que nem cabrito.
            — Não tem diarréia?
            — Só de vez em quando. E a bandida é forte, não dá nem para sair de casa.
            — O senhor tem comido bem?
            — Não, doutor, careço de fome.
            — Deite-se aqui, Sr. Bosco.
O médico o examinou e apalpou durante vários minutos. E concluiu: — Sr. Bosco, precisamos radiografar. Não jante hoje. Vou lhe dar um laxante para tomar antes de deitar. Venha amanhã cedo, em jejum.
De noite, enquanto a família comia, Bosco desceu à rua; havia perdido o hábito da fome, mas não o do passeio noturno. O céu estava limpo de nuvens e sem lua. Fazia frio e ele fechou o agasalho no peito. Havia pouca gente na calçada, mas muitos carros correndo na rua. Não entendia como esse povo pudesse preferir assentar-se sobre rodas e sair por aí velozmente, sem oportunidade de ver as coisas, senti-las próximas, demorar-se nos detalhes. Ah, como eram importantes os detalhes! As nádegas da mulher, à sua frente, como os pratos da balança do açougue do Antônio: ora em cima, ora em baixo, nunca se igualando. Por que não conserta, homem? Não carecia, a faca cortava o quilo certo. Os peitos desta outra, que vibravam quando os saltos dos sapatos feriam o chão duro, como se ligados por molas desde os calcanhares; os mamilos salientes, de excitação ou frio. De que valia passar correndo, dentro de um carro?
Olhou para o céu. Céu pobre, quase sem estrelas; mesmo sem luar não era escuro; refletia palidamente a claridade de milhões de lâmpadas da cidade. Distinguiu as Três Marias, tão recatadas e envergonhadas que pareciam freiras; não as mesmas Marias que conhecia, exuberantes e luminosas, qual raparigas de prazer. O Cruzeiro, inclinado e baixo, brilhava timidamente, como que envergonhado de gritar a sua fé. Nem sinal do caminho leitoso que lhe corria aos pés.
Continuou a andar, cismando. A morte não o assustava, já tinha vivido muito; tivera seus bons e maus pedaços, como todo o mundo; mas não podia evitar certa tristeza: debaixo da terra não veria o céu e as amigas estrelas; encaixotado, não faria mais os passeios longos, de que tanto gostava. A não ser... Seu rosto iluminou-se. A não ser que virasse fantasma. Sempre ouvira com certa descrença as histórias de fantasmas. Mas, quem sabe? Aquele amigo espanhol não diz sempre que não crê em bruxas, pero que las hay, hay. Sorriu, com a esperança nascida, e continuou a andar.
            — Precisa operar — falava o doutor querubim, enquanto Bosco olhava surpreso a radiografia. Dissera que aquilo esquisito era sua barriga, por dentro. — Olhe! Aqui, no colo descendente, está o tumor; temos de tirá-lo. — Meio desconcertado, Bosco supunha que o nó devesse ser fino, de tripa apertada, e no entanto... era grosso, enorme, do tamanho de um abacate. — Cortamos aqui... e aqui, suturamos perto do ânus e desviamos esta ponta para o abdome.
Bosco não entendia as palavras estranhas, mas percebeu o sentido daquilo que a ponta da caneta do médico descrevia.
            — O senhor quer dizer que desvia a tripa para a barriga?
            — É.
            — E como é que fica?
            — Ligamos uma sonda e amarramos um saco de borracha. O senhor só terá que ter o cuidado de trocar o saco, quando necessário.
            — Quer dizer que... a merda... vai saindo... e enchendo o saco? — Com raciocínio lento, Bosco ia compreendendo. Era demais! Tudo tinha um limite! Até agora fora muito paciente... Aguentara aquela situação vexatória para fazer as tais radiografias: ficar pelado diante da moça enfermeira, de bunda virada para cima, enquanto ela mesma lhe enfiava o bico do clister. Depois da sujeira toda sair e do fedor, ela ainda lhe metera pelo traseiro a dentro um canudo de seringa com tinta de colorir tripa. E tudo ao som da maldita música, suave, em surdina. Ele, Bosco, depois de velho, havia sido violado... e por uma mulher! Tinha levado dois dias mastigando a vergonha e ainda não a engolira de todo e, agora havia pouco, na sala de espera, fora obrigado a enfrentar de novo a sedutora.
            Não bastasse tudo isso, o doutorzinho lhe propunha — como se fosse a coisa mais natural do mundo! — que vivesse com um saco de bosta dependurado na barriga. Ele, João Bosco, companheirão disputado em roda de prosa, taco na consumição de cerveja, passaria a evitar os amigos. João Fedorento Bosco, evitando e evitado, causador de piedade à distância e de desassossego, se perto. Bosco Bosta. Bosta Bosco. Não! Ainda tinha seu orgulho.
            — Mas, Sr. Bosco, a coisa não é tão ruim como parece! O senhor pode levar uma vida quase normal...
            — Não! — interrompeu Bosco, e fez um comentário sobre as virtudes da pimenta em orifícios alheios. E, encerrando o assunto: — De jeito nenhum!
            Voltou para Boa Esperança sozinho, de ônibus, sem malas, nem quis esperar pelo sábado; o genro o teria levado, com a mulher, de carro; depois a levasse, a ela e às malas, ele iria na frente. Discutira com todos, perdendo a estribeira; cada um insistindo para que adotasse o saco de borracha, menos o neto, honra seja feita, que curtia no quarto seu som da pesada.
            Continuaria a ser só João Bosco, sem adjetivos.
            Morreu seis meses depois; magro, seu caixão não pesou nas mãos dos amigos.
            Não faz muito, começou a se avistar, em noites escuras, um fantasma que faz longas caminhadas, sem pressa, parando de quando em vez para olhar o céu. Há quem jure ter reconhecido o Bosco.  Será que ele conseguiu realizar o desejo de virar fantasma, depois de morto? Será que é ele, seu fantasma, que passeia à noite pelos ermos das fazendas, parando para olhar no céu a Via Láctea? Pensando nisso, chego a ficar contente. Que bobagem! Todo o mundo sabe que não existe fantasma.

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