Lá pelos anos 50 o Largo do Paissandu era bem diferente. São Paulo inteira era bem diferente: não tinha a multidão que agora se acotovela pelas ruas. A população deveria estar por um quarto, se tanto; e era gente mais bonita, bem vestida, de sapatos engraxados e cara escanhoada. As barbas estavam em desuso desde os anos 20, mas bigode, não, ainda se usava. Não os bigodões de época, mexicanos, mas os de estilo francês, aparados, desenhados. Não se portava mais chapéu, todavia o povo parecia ainda conservá-los na cabeça, tão circunspecto era no andar. As ruas eram limpas e não fediam a urina. O “largo” não passava de uma pequena praça, como costuma acontecer com os logradouros que têm esta denominação, a exemplo do Largo do Boticário, no Rio, e de outros similares pelo país e pelo mundo. Mas passaria por mais amplo pois não contava então com os vendedores ambulantes, classe que iria surgir pelo fim do século, quando também retornaria o uso da barba, sendo certo porém que os dois eventos usufruem da mesma contemporaneidade mas não guardam entre si correlação significante. Inexistia também a atual banca de revistas que, junto com os ambulantes — agora sim, há razão de suspeita —, parece que foram especialmente criados para dificultar-nos a busca do tempo e dos caminhos perdidos. Sobrava-lhes assim, aos passantes, mais espaço para andar, ainda que o dividissem com os pombos da época, nem mais nem menos numerosos que seus descendentes de hoje e que já possuíam os mesmos hábitos de vida, sem que isso implique a não evolução da espécie, porque todos sabem que a contagem de tempo, em tais casos, se dá por parâmetros geológicos e não por meia dúzia de décadas.
Na esquina da Rua Antônio de Godoi, no lugar em que agora funciona aquele estacionamento desbotado, acabara de ser inaugurado o cinema mais luxuoso da cidade, o Cine Ouro, que rivalizava em requinte com o Lido, do outro lado da praça, na Avenida São João. Este tinha audição de piano, antes do filme, o outro, uma mini orquestra. Não se entrava neles sem paletó e gravata. No centro do largo já dormitava silenciosa a mesma igrejinha, que, por dormitar, não se dava conta de que a estátua da Mãe Preta, a seu lado, não se cansava de sempre e sempre embalar o filho branco do sinhô. Fundida em metal escuro, a negra sacudida, de carnes fartas, oferecia eternamente o volumoso úbere ao menino bem nutrido. Como não sofriam pichações, que ainda não se inventara, desfrutavam ambos, monumento e igreja, de melhor aspecto. É verdade que os pombos, como os de hoje, estavam acostumados a empoleirar-se desrespeitosamente sobre a cabeça da mucama e a soltar-lhe dejetos. Esse comportamento ignóbil, seja dito, não é privilégio nacional; ocorre no mundo todo, mesmo em países desenvolvidos, e julga-se compor a sina de toda estátua, ainda quando figure ela personagem de mais valia do que uma simples escrava negra. Uma vantagem, porém, existia naqueles tempos: a Prefeitura mandava lavar o monumento ao menos uma vez por mês. Não era raro, por isso, surpreender o espetáculo do sol a dardejar raios na superfície do metal limpo, que devolvia-os refletidos nas mais improváveis direções.
Como na época nariz algum era molestado pelos cheiros nefandos que impregnam nossas metrópoles, e que são a mais típica herança pós-moderna, o ar, leve, permitia que, pela tardinha, mulheres viessem espairecer no calçadão da praça, trazendo a passear as crianças que moravam nos prédios de apartamentos próximos, pois que naquele tempo famílias ainda habitavam o centro da cidade.
Na esquina da Rua do Boticário, aquela viela que se situa bem no meio da pracinha, e onde hoje se instala uma loja de telefone celular, funcionava então o Bar do Zé, vizinho modesto do já famoso Ponto Chic, restaurante que resiste galhardamente até aos dias de hoje e que se vangloria não só de ter inventado o sanduíche bauru, como de tê-lo ainda o melhor da cidade. O Bar do Zé, que já não existe mais, era pequeno, mas asseado, com freguesia fiel. Três ou quatro mesinhas, meia dúzia de cadeiras, e o resto era um balcão de mármore branco, mantido impecável pela mulher do Zé, dona Guilhermina. Quituteira de mão cheia, quando não estava a fritar seus irresistíveis bolinhos de bacalhau, vivia a esfregá-lo com um pano branco; e tanto esfregava que parecia que mais que limpar, queria-o polir.
Trabalhavam somente os dois no bar. Eram imigrantes portugueses e tinham vindo já casados da terrinha, sem filhos. Dona Guilhermina carregava lá algum problema de esterilidade, mas se o ventre lhe negava os frutos, benditos eram os frutos de suas mãos de fada — acepipes cheios de graça, dignos de freqüentar mesas reais: sardelas, queijos, torresmos, azeitonas recheadas, e os insuperáveis, inigualáveis e famosíssimos bolinhos de bacalhau. Vinha gente até das Perdizes procurando os tais bolinhos. Eram sequinhos, fibrosos, de massa leve. Não havia quem os não comesse pelo menos três.
O Zé era um portuga sacudido, com vestígios de mouro, de braço peludo, pele trigueira, bigode basto e preto, torcido para cima. A mandíbula quadrada e possante poderia lhe dar uma expressão feroz, não fosse desarmada por um sorriso de menino que teimava em se lhe estampar no rosto. O sotaque era carregado, de trás-os-montes. Conhecia todos os fregueses pelo nome, mas não fazia fiado a ninguém, talvez por recôndita sabedoria fenícia, que os ibéricos costumam ter e que se atribui à sua herança genética peculiar. Sendo a península um cadinho de fusão de raças, é possível que a perspicácia comercial tenha sido sublimada nos embates de seus tálamos, à maneira dos alquimistas, que misturam, fervem e apuram seus precipitados. O resultado é sempre algo de novo — como uma nova raça — mas que conserva qualidades dos elementos originais. Fruto dessa alquimia étnica, dizia o nosso Zé que emprestar dinheiro e vender fiado eram o caminho mais curto para perder o amigo e sumir o freguês. Todos o tratavam por Zé e assim continuaram mesmo depois de saber que o nome dele não era Zé, mas sim Joaquim.
A descoberta fora fortuita, dera-se por acidente: um parente que aparecera um dia no bar a procurar pelo primo Joaquim. É certo que já havia um indício anterior, que poderia ter despertado alguma desconfiança: dona Guilhermina sempre chamava o Zé por Quim. Mas a maneira como as mulheres chamam seus maridos, e estes a elas, é um mistério impenetrável, que não está ao alcance nem de filósofos nem de teólogos. Qualquer coisinha pode ser motivo para um tratamento especial, e isso fica apenas no conhecimento deles. É pois impossível saber por que os cônjuges se tuteiam desta ou daquela forma e isto abona uma desculpa à freguesia do bar, que de nada suspeitara. Pois já não havia o precedente do tio Tunico chamar a tia Nina de Quim? Por que não poderia a dona Guilhermina tratar o Zé também de Quim?
Mas o Zé teve que se explicar.
Dera-se o caso pouco depois da chegada do casal ao Brasil; moravam ainda em Santos. Como sempre sucede em cidades portuárias — quem sabe se por influência do iodo que o ar carrega consigo, e que talvez excite a tireóide — o povo de Santos é desinibido e confiado, não por maldade, mas por ser aberto e franco. Gosta de um chiste e de uma provocação. Não é que, vencido o período das boas-vindas e quebrado o gelo inicial, foram logo chasqueando o Joaquim: — “Mas, ó portuga, lá na terrinha só tem dois nomes? Quando não é Manoel é Joaquim, quando não é Joaquim é Manoel?” Cutucavam que cutucavam o pobre. Era uma chatice. De início, em razão do sangue, que lhe era quente, e com a ajuda do clima de calor, que o aferventava rápido, andara a derrubar alguns pelintras e moer-lhes os ossos, mas entendera depois que não podia estar a socar a clientela. O melhor seria mudar de nome e de lugar e assim fez ele. Veio para São Paulo e para si escolheu José, nome que sempre gostara, bonito, do pai de Jesus, santo da devoção, mas não contava com a preguiça do brasileiro, que logo o estava a abreviar para Zé. A mulher mesmo, que por sua insistência começara a chamá-lo de José, e que durante algum tempo foi a única a fazê-lo, com o passar dos dias foi também sendo vencida pelo cansaço e a preguiça e acabou ela mesma por tratá-lo de Zé. Daí a voltar para o velho Quim foi só um passo e um descuido.
Descoberto o segredo do Zé, mas passado o tempo da arreliação, que durou duas ou três semanas, as brincadeiras foram perdendo a graça e um outro assunto — o novo centroavante do Corinthians, um tal de Baltasar — veio a ocupar as conversas. A freguesia do bar, com menos iodo na garganta que os santistas, já esquecida do caso, voltou ao antigo hábito: era Zé para cá, Zé para lá, e o Joaquim voltou à tranqüilidade de ser Zé. Ora, pois.
Reconquistada a paz, voltou a ser o bar o ponto privilegiado que sempre fora de observação de tudo o que acontecia no Largo do Paissandu. Para o bem e para o mal, nada escapava à freguesia assídua. Na verdade mal algum havia, apenas uma normal e santa curiosidade. Que mal poderia haver em acompanhar o flerte tímido do rapazinho que trabalhava na Light e que toda tarde vinha cortejar a babá do casal de gêmeos? Mesmo o falso mendigo, que se fingia de cego ao pé da Mãe Preta, não havia mal nenhum no sorriso cúmplice de quem o observava no final do expediente, quando contabilizava a féria do dia e o fazia com os olhinhos gulosos de bem ver o brilho dos patacões que ia embolsando na algibeira. Mal algum ao se cronometrar o passeio matutino do velho coronel, pelo qual se podia acertar o relógio. Ao soar a última badalada das nove no Mosteiro de São Bento (que naquela época ouvia-se do Largo do Paissandu) dobrava o velho a esquina da Rua Conselheiro Crispiniano, atravessava a São João e dava três voltas na praça, empertigado, composto, o último a conservar o uso do chapéu, contido como se fora um barão do café. Contudo, se alguém viesse com ele a cruzar notaria seus olhos baços, não só pela catarata que os tomava, mas porque não olhavam para fora, não pertenciam mais a este mundo. Olhos de velho, que eram, miravam para dentro, para o passado, para batalhas ganhas ou perdidas (que importava agora?), para glorias fanadas, para tempos idos. Os olhos, o coronel os levava apenas para arejar, por isso guiava-se com a bengala. Mal também não havia em quem presenciasse, mesmo que com fôlego suspenso, o ritual estranho da Senhora dos Pombos, a figura mais misteriosa que jamais pisara aquela praça. Se mal houvesse, estaria com ela, no coração empedernido, e não na inocente atenção da freguesia.
Quem deu a ela o nome foi o Zé e, por ser apropriado, o nome pegou. Não era assídua como o velho coronel, aparecia lá uma vez ou outra. Mas, igual a ele, procedia sempre com a mesma rotina. Talvez seja até uma injustiça com o velho coronel, coitado, compará-lo àquela bruxa, ele que nunca fez mal a ninguém. O que se quer dizer é que havia similitude, não nas ações que um e outro praticavam, mas no modo sempre repetido de sua realização. É evidente que, enquanto o comportamento do coronel era inofensivo e até dava dó, o mesmo não se podia dizer da parte da Senhora dos Pombos que, bizarríssimo, causava espécie.
Entrava ela no largo pela Antônio de Godoi, com o andar estugado de um soldado germânico, espantando os pombos enquanto passava. Ao alcançar o meio da praça, ali se detinha. Imóvel, com a fronte para o alto como se mirasse uma estrela vespertina, parecia invocar e assumir o seu verdadeiro destino, ela própria uma estátua de Brecheret. Cheia de carnes e roliça, igual às musas do artista, irradiava vigor. O rosto, queimado de sol, escondia o branco da pele nórdica, apenas traído pela vermelhidão do nariz; os olhos, claros como se não tivessem cor, incorporavam de empréstimo o azul celeste neles refletido; os cabelos, que outrora poderiam ter sido loiros — se algum dia fora ela moça —, escondiam-se quase todos sob um chapéu preto de abas, enterrado até às orelhas; alguns poucos escapavam em desalinho e seu cinzento opaco delatava a inglória passagem de muitos anos. Usava saia comprida, de algodão cru, que lhe vinha até aos tornozelos e escondia quase com perfeição as possantes panturrilhas, só reveladas pela largueza dos passos marciais. Nos pés, sandálias grosseiras de couro trançado e solado de pneu denunciavam as poucas posses do colosso que as calçava. Completava o figurino um camisão, de mangas e golas longas, que estaria mais para casaco, não fosse sua cor branco-encardido.
Se a tarde fosse calma, sem vento a lhe agitar as vestes, algum passante inadvertido poderia justificadamente confundi-la com algum menir celta, posto ali de propósito para fazer contraponto com a portentosa Mãe Preta. Mas esta impressão duraria apenas um átimo, pois logo a velha iria se mover. Contudo, enquanto não o fazia, era como se um gume houvesse fendido o tempo e do corte escorresse uma porção de eternidade, que se derramava na praça e no mundo, com efeito paralisante. As duas figuras, frente a frente, a dominar o pedaço de paisagem urbana, prosaicas em seu contorno e sublimes em sua força, ignoravam-se simplesmente uma à outra, como para demonstrar o contra-senso de quem procura em tudo algum sentido.
Então a mulher baixava a cabeça e os olhos vazios e o encanto se quebrava. Um arrepio percorria as espinhas, no bar, enquanto a freguesia aguardava o inevitável. De uma sacola, que trazia a tiracolo, ligeiramente estufada, e que parecia funcionar também como farnel, apenas cessado o instante atemporal, a bruxa sacava um punhado de grãos de milho que jogava ao chão, para regalo dos assustados mas sempre famintos pombos. A seguir caminhava resolutamente até ao ponto sul da praça, quase na São João, onde parava e tornava a se imobilizar, com o rosto voltado ao céu. Depois da muda invocação, retirava nova mãozada de milho, que arremessava outra vez aos pombos. Repetia a operação no lado leste, bem ao pé da igreja, em seguida na banda oeste, pertinho do Bar do Zé e, finalmente, no extremo norte, defronte do Cine Ouro, por onde havia entrado na praça. Desta vez, quando as aves menos esperavam (provavelmente por já terem adquirido confiança), a mulher, com um movimento rápido de tigresa, apoderava-se de uma delas e a metia na sacola.
Voltava pelo mesmo caminho, levando consigo o pombo caçado.
A rapidez felina do movimento sempre surpreendia os pombos. Talvez que nem fosse tanto a rapidez a responsável pelo sucesso, mas sim o imprevisto do ato; depois de tê-los alimentado por quatro vezes, qual deles poderia esperar da benfeitora um comportamento assim? A desconfiança natural já tinha sido vencida pela bondade anterior, e a bondade, quando malévola, além de ser uma contradição lógica, é uma poderosa arma. Além disso, as aves, assim como a maioria dos homens, não têm uma memória boa e disso se aproveitava a ladina Senhora dos Pombos. Quantas vezes voltasse à praça, tantas vezes teria o fruto da insídia, posto que não havia um padrão que regulasse a freqüência das incursões e que servisse para fortalecer a lembrança das aves. Eram visitas aleatórias: aconteciam a qualquer dia, útil ou não, santo e profano. A figura e o comportamento da bruxa fugiam a qualquer classificação; nunca ninguém a tinha visto a não ser no Largo do Paissandu, o que não deixava, por si só, de ser estranho. Apenas uma vez apareceu lá no bar um rapaz loirinho que jurava tê-la encontrado no Jardim da Luz, mas o moleque era um mentiroso contumaz. Mais estranho ainda: o que faria a mulher com os pombos arrecadados? Seria para algum ritual macabro de magia negra? Mas, se assim fosse, não deveriam os pombos ser escolhidos sempre do mesmo tipo? Pelo menos esta é a idéia que o normal da humanidade tem destas coisas. Mas não: havia-os brancos, pretos, cinzentos, gordos, magros... A ausência completa de critério tinha o condão de despertar nas testemunhas uma sensação desconfortável, semelhante ao medo. Era como se a harmonia de todo o Universo estivesse ali sendo rompida. Será que os caçava para comer? Mas então por que os levava pequenos e magros, sem sustância? Fosse para isso, desnecessário seria o complicado ritual, mormente a invocação aos céus, ainda que feita com olhos pagãos.
Que mulher era aquela, que vinha de manhã ou de tarde, que não se importava com o tempo que fazia, se frio ou calor, sol ou chuva, que repetia sempre os mesmos movimentos e que sempre partia com um pombo na sacola? Que toda vez usava as mesmas roupas, as mesmas sandálias, o mesmo chapéu; com ninguém falava e a ninguém via; que só tinha olhos para o céu e para os pombos? Que mulher era aquela, que ia e vinha quando bem entendia e que a todos desconcertava? Que continuou a vir por anos e anos e, de repente, sem nenhuma explicação, não voltou mais, sumiu?
Teria se mudado para outro bairro, outra cidade, outro planeta? Estaria enferma? Teria morrido?
Desaparecera simplesmente a Senhora dos Pombos, levando junto seu segredo.
Resta, impregnada no cimento, a lembrança dos seus passos.
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