Quando se é velho, há que se habituar a conviver com a gota, o artritismo e a filosofia. Além de faltar vigor físico para coisa melhor, a ameaça constante da morte parece estimular o pensamento, que puxa fôlego e mergulha em abismos metafísicos. Quando não toma o caminho mais fácil do misticismo... É a senilidade a grande forja de beatas de mantilha preta, que disputam os bancos de igreja nas missas matinais.
Estando eu, outro dia, a reler algo sobre os pré-socráticos, pilhei-me a fazer pausa na máxima de Protágoras: “O Homem é a medida de todas as coisas”. Lembrou-me fato ocorrido na juventude.
Foi assim.
Estava pelos meus vinte anos, quando voltei pela primeira vez a Campinas. Ia em busca do passado.
Hoje, ao meditar no caso, não posso deixar de estranhar a insólita motivação: na idade em que o normal da espécie pensa, sonha e respira futuro, lá estava eu a encompridar o olhar para o passado. Concluo que já então devia ser defeituoso.
Mas, vamos adiante.
Vivera eu, na meninice, quase um ano em Campinas: entre os quatro e cinco. No entanto, as recordações daquele período eram vivas e nítidas, superando em realidade outras mais recentes. De antes, guardava apenas cenas brumosas, sem sentido, como que trapos de sonhos. Do período posterior, já em São Paulo, coisa pouca sobrou, talvez pela monotonia predominante.
Com Campinas não. Com o perdão da imagem tosca, Campinas era como um cume a se destacar numa planície sem acidentes, a fulgurar com os últimos raios de um sol poente perdido no tempo. Além de pobre, reconheço que a imagem é contraditória, pois campinas são campinas, planície sem montanha. Peço perdão, de novo.
Tenho meditado sobre isso e não encontro explicação. Seria o intervalo de tempo tão nitidamente marcado, assim como curto, responsável pelas cores vivas da lembrança? Às vezes penso em aprofundar o assunto e escrever um ensaio de psicologia sobre percepção emocional e memória. É possível a uma cena impressionar mais do que um ato ou a peça inteira?
Mas cá estou de novo em divagações. Voltemos ao assunto.
Dizia, pois, ter voltado a Campinas. Mas não ia só. Chico, meu bom e sarcástico amigo Chico, ia comigo. Havia-se deixado convencer, depois de muita insistência.
— Está bem, vou com você! Assim, pelo menos, essa conversa acaba, que não agüento mais. – E sorrindo debochado: – Se você precisa de testemunha para sua decepção, quem melhor do que eu?
Sim, quem melhor do que ele? Chico me desconcertava. Debaixo daquela capa de cinismo, era quiçá mais sensível que eu. Quantas vezes o surpreendera sem defesas, a abrir o peito comigo. E nessas horas, seus terrores e anseios vibravam em diapasão com minha alma romântica; uníamo-nos em confidências e viajávamos os mesmos sonhos. Era meu melhor amigo.
Em verdade, o cinismo do Chico era uma reação de anjo caído. Ramo pobre de família ilustre, vivera a infância no Rio de Janeiro, em casa de parentes ricos, com a mãe viúva e dois irmãos menores. Atingida a mocetude dos filhos, a orgulhosa mãe decidiu não mais viver de favores e veio para São Paulo, onde os pôs a trabalhar. A mudança fora brusca; casa com piscina, carros e bailes, foram de chofre substituídos pela rotina maçante de um emprego, pela aventura feroz de conseguir um lugar no estribo apinhado do bonde de cada dia. Seu mundo de fadas havia caído, inconsistente como um castelo de cartas. Uma coisa apenas lhe sobrara, o nome fidalgo. Francisco Alcântara de Paula e Silva. A ele se apegou seu orgulho; não permitia nunca que fossem esquecidas as preposições. Punha nisso o zelo de quem defende a honra de uma irmã donzela. As pessoas, como a vida, são feitas de inverossímeis incongruências.
Ia, pois, o Chico comigo.
Havíamos tomado o trem na Estação da Luz, e a viagem, com o fresco daquela manhã de domingo, parecia excitar o meu amigo. O vento frio lhe açoitava o rosto através da janela aberta, provocando na pele ligeiro rubor. O cabelo esvoaçava e um sorriso, apenas esboçado, completava-lhe a fisionomia.
— Chico, estou estranhando essa animação.
— É que ouvi dizer que as mulheres de Campinas são lindas – gracejou ele, mentindo, pois na verdade não era metido a conquistador, mas não queria ser pego em atitude frágil. Para ele fragilidade se confundia com normalidade.
Deixou-se fustigar pelo vento ainda por algum tempo, mas a violência crescente, resultado da aceleração do trem, acabou por levá-lo a fechar a janela, quebrando o passageiro encanto. Voltou a ser o prosaico Chico.
— Você estava parecendo a estátua da liberdade – brinquei.
— Eh! Lá vem você com esse incurável platonismo. Não existe liberdade, só libertinos. Sabe em quem estava pensando? Na Glorinha.
Devia ser mentira. A Glorinha era uma moça de cabelos longos e idéias curtas, embora avançadas. E nós ambos costumávamos tirar bom proveito disso, através de conveniente estimulação de suas idéias e – esse o objetivo – de seu corpo generoso.
— Chico, você é um cínico incorrigível!
— E você, um romântico irrecuperável.
Mergulhamos na nossa discussão preferida. Embora de rotina, a divergência nos apaixonava; aplicávamos todo engenho para botar por terra a fortaleza inimiga; recorríamos aos argumentos, sem medir exagero.
— Platão não passa de um pederasta idealista, e toda sua filosofia não é senão a apologia de uma elite escravocrata. É um conservador reacionário. Se vivesse hoje, seria Testemunha de Jeová. O mesmo se pode dizer de Sócrates. Que bela dupla formavam!
Eu retrucava, procurando provar a necessidade de valores absolutos, que servissem de paradigma para a compreensão do nosso caótico mundo terreno. Mas o Chico não desistia.
— Pois se o Caos é a verdade essencial! Depois de séculos de desenvolvimento científico, o homem está se despindo, agora, de seu dogmatismo ingênuo e redescobrindo a grandeza dos Sofistas. Veja o caminho aberto pela teoria da relatividade, veja o princípio da indeterminação, de Heisenberg. É a exumação dos Sofistas! E a sua glorificação.
Hoje, ao relembrar o teor daquelas discussões apaixonadas, não posso evitar um sorriso amargo. Como a vida se compraz em nos contradizer! É ela a grande vencedora de todas as teses. O Chico é agora promotor público lá para as bandas de Bauru, com família formada, próspera barriga e até algumas cabeças de gado. Está em paz com o mundo dos homens e com Deus e até vota com o Governo. Chico, você se adoçou. E eu azedei.
À medida que o trem se aproximava de Campinas, meu interesse na discussão ia morrendo. Uma emoção crescia dentro de mim, contraditória; desejo e receio de chegar. Creio que assim é que deve se sentir uma noiva virgem quando se aproxima do leito nupcial, onde a aguarda o quase marido e daqui a pouco amante.
A conversa morreu e fiquei com os meus pensamentos e emoções nada filosóficos. Lembrava-me da praça onde havia morado em menino. Guardava uma imagem da praça ensolarada; no centro, o Mercado das Andorinhas, grande construção retangular, de telhado alto; à sua frente, do outro lado da rua, o bar, com o sobrado em que morávamos. Era para aquele bar que a mãe fazia as bandejas de pé-de-moleque. Que gostosura! Em cada receita que aprontava, dava-nos três pedaços, a mim e aos dois irmãos, que sempre brigávamos pelo maior. Depois, a gente ficava vigiando a bandeja, no bar, torcendo para acabar depressa, para nova encomenda.
Atrás do Mercado, no outro extremo da praça, estendia-se a avenida larga, com a Escola Normal. Costumava passar longo tempo admirando o enorme edifício, cheio de colunas, de onde descia imensa escadaria. Tinha inveja do mano mais velho, que estudava em escola tão bonita.
Não raro a mãe me levava de volta a casa, suspenso da orelha e com xingamentos:
— Peste de moleque! Já não disse para não vir até aqui? Se um carro lhe pega, acaba com essa raça ruim.
Ficava comportadinho por uns tempos, enquanto durava a lembrança da orelha, mas como ela tinha memória fraca, logo voltava a aventurar-me além dos limites proibidos do meu pequeno universo.
De repente o céu escurece. O brilho do sol, coado na calçada, bruxuleia. Um ruflar de asas... trinados. É a chegadas das andorinhas. O corre-corre das pessoas, a procurar abrigo, a fugir dos dejetos que chovem do céu. Gatos gulosos surgem das esquinas e de cada desvão, disputando com os diligentes funcionários da Prefeitura as avezinhas entontecidas que caem ao solo. A molecada dando caça aos bichanos, com paus e pedras – a Prefeitura paga duzentos réis por cada um, vivo ou morto.
Vejo um gato que, com salto acrobático, abocanha uma andorinha ainda no espaço, antes mesmo dela cair no chão, e corre satisfeito para lugar seguro. Vai prestar homenagem, a seu modo, ao símbolo vivo da cidade. Ninguém mais que ele gosta das andorinhas...
Um guarda municipal, fardado de macacão amarelo, socorre outra que lhe caiu aos pés. Asperge salmoura na cabecinha e espalma a mão. A ave se refaz rápido e alça vôo; é só uma tonteira de colisão.
O alvoroço vai cessando à medida que as andorinhas se acomodam dentro do Mercado. O barulho de asas cede, o gorjeio se torna suave.
O sol volta a brilhar.
Essas imagens nostálgicas perpassam minha lembrança enquanto me dirijo à velha praça. O dia é cinzento, vez por outra garoa. Aqui estou de novo, depois de tantos anos. Vejo o Mercado; prédio modesto, quase acanhado, como acanhada também é a pracinha, com o chão de pedras brancas e pretas, formando mosaico de andorinhas estilizadas. Foi o que restou delas.
Há muitas explicações sobre seu desaparecimento, o que vale dizer que não se pode confiar em nenhuma. Eu, por mim, tenho que o progresso as afugentou.
O antigo sobrado onde morei já não existe; em seu lugar, um arranha-céu, revestido de mármore na fachada.
Com algumas dezenas de passos, atravesso a praça e estanco diante da avenida, limite do meu mundo infantil. O tempo não a poupou: é agora uma simples rua. Do lado de lá, a Escola Normal perdeu sua imponência; as colunas não são tão altas e a escadaria parece que encolheu.
Estava aprendendo, pelo modo mais difícil, que o passado não se deixa apanhar. É como a linha do horizonte, ou como o pé do arco-íris: põem-se cada vez mais longe, quando se tenta alcançá-los.
Andamos, eu e o Chico, em silêncio. Bendito Chico, que respeitou o momento, mas não por muito tempo, pois logo perguntou:
— Como é? É só isso que tem para ver?
Embora ele já soubesse, – e quantas vezes não tinha ouvido! – tornei a contar minhas recordações.
— O que me espanta, Chico, é o tamanho pequeno de tudo isto. Tinha a impressão de coisas grandes, altas, muito espaço, e no entanto...
— No entanto são pequenas e feias.
— Feias, não digo. Mas não era isto.
— Era, sim. Você é que era outro. Qual era o seu tamanho? Mais ou menos isto, não? – e botou a mão à altura da cintura.
— É. Acho que sim.
— E você queria que a impressão fosse outra? O tamanho das coisas está diretamente relacionado com o tamanho de nós mesmos. Você já se esqueceu do Protágoras?
— O Homem é a medida de todas as coisas?
— É. Só que precisa completar: o menino também!
Acho que comecei a azedar a partir daquele dia. A poesia só existe no passado ou no futuro. O presente é sempre prosa. Comum e pelada.
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