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CONVERSA DE VELÓRIO

                                   (Ensaio de humor pornô)
— Nunca vi um velório tão esquisito!
— E alguém já viu uma coisa desta? Cruz credo!
— Ainda bem que não tem criança por aqui.
— É mesmo. Ia ser uma vergonha!
— Mas será que não dava para ajeitar melhor o defunto, dar uma disfarçada?
— Sabe, dona Josefa, fiz essa mesma pergunta à mulher dele — agora viúva —, e ela, a Joana, garantiu que fizeram de tudo, mas não teve jeito. O remédio foi cobrir o corpo inteiro com essas rosas vermelhas, mas não adiantou muito, não.
— E para piorar, dona Iolanda, o defunto ainda fica com esse sorriso de felicidade na cara! Onde já se viu? Parece deboche!
— Mas, também, pudera! Morreu no bem-bom!
— Como é que foi mesmo isso, dona Iolanda? É verdade que eles estavam...?
— Estavam! E parece que iam pelo melhor da festa, a julgar pelo tamanho... do pilar...
— Mas, com a morte, não devia de ter murchado?
— Eu também achei que sim, dona Josefa, e até comentei com a Joana, mas ela falou que o médico, o Dr. Bastos, deu lá uma explicação da coisa. Ele disse que é raro de acontecer, mas que, na hora do enfarte, houve uma tal de combinação de fatores que aumentou a quantidade de sangue dentro... dentro do negócio lá do morto. Em vez de murchar... o dito cujo... ficou ainda maior e mais... mais duro.
— Olha, dona Josefa... Não que eu tenha muita experiência no assunto... A senhora me conhece, sabe que sou uma mulher direita, casada, mãe de família. Mas, benza Deus, nunca vi um... monumento... desse tamanho!
— Virgem Maria! Nem tão empinado!
— Quem diria, hem dona Josefa, que o defunto, magrinho daquele jeito, tivesse um pé-de-mesa desse?
— E que a Joana era tão bem servida!
— Bem, a gente podia até ter adivinhado: a cara dela sempre foi de satisfeita, regalada.
— Ao contrário da Clotilde, coitada — ali do outro lado, sentada na penúltima cadeira. Não acha, dona Iolanda, que a Clotilde está sempre em falta, com cara de fome?
— Também, com aquele marido que Deus lhe deu! Está sempre bêbado, o traste! Vai ver que quando chega em casa de noite cai na cama e dorme, e a coitada fica com a vontade recolhida. Eu, se fosse ela, já tinha botado um par de chifres na testa do safado!
— Mas olha só a cara dela, dona Iolanda! Disfarça e dá uma olhada: veja só com que cara de gulosa ela olha para... o estandarte... do defunto!
— Mas não é só ela, dona Josefa! Olha as três Marias, do Juvenal: são mocinhas, bonitinhas, cheias de namorados, mas não desgrudam os olhos do defunto. Parece que estão hipnotizadas!
— E a Raquel, então, dona Iolanda?
— Aonde... aonde?
— Ali perto da porta, de pé!
— Ah, já vi, dona Josefa.
— Pois olha só a cara de esfomeada dela! Se der chance, é capaz de sentar em cima do caixão.
— Mas todo mundo sabe, dona Josefa, que ela é uma, como se diz mesmo... ah! uma ninfomaníaca, dessas que não podem ver homem. Imagina então a coitada vendo um... mastro... como esse do defunto — armado e grande desse jeito!
— É verdade. É tentação demais para ela!
— Olha quem chegou agora, dona Josefa!
— Ah, o bichinha do Aluísio!
— Não bastava a Raquel, com aquele olhar faminto, agora tem o Aluísio também!
— Veja, dona Iolanda, a bichinha chega até a tremer, só de olhar o portento do defunto. É como se estivesse em transe. Agora se achega ao caixão e... Não acredito no que estou vendo!
— Santa Maria, que coragem, dona Josefa! Se me contassem, não acreditava!
— Que bichinha safado! Finge que está rezando, mas olha onde ele põe a mão!
— E como revira os olhos! Vai desmaiar!
— Olha só quem foi ajudar: a Raquel!
— E aproveitou, a safada, para dar uma seguradinha, ela também, no cajado do defunto!
— Ih, dona Iolanda, agora todo mundo resolveu tirar uma casquinha! Com a desculpa de socorrer a bichinha, a mulherada toda, uma depois da outra, vai pondo a mão no... cabo da boa esperança.
— Deus me perdoe, dona Josefa, sou uma mulher honesta, não quero que pense mal de mim, mas sabe que até eu estou com uma vontadinha de tirar a temperatura do morto? Veja bem: é só por curiosidade...
— Pois dona Iolanda, até que eu também gostava de testar aquele calibre...
— Por que a gente não sai para tomar um cafezinho na cantina e, na volta, dá uma passadinha pelo caixão?
* * *

— Impressionante, hem dona Josefa?
— Parece uma barra de ferro!
— Mas não é, mesmo? Olha que apertei duas vezes, primeiro devagarinho, depois, com força. Parece feito de peroba!
— Aliás, de tanto apertar, as flores já estão machucadas...
— Mas a peroba continua rija!
— Reparou, dona Iolanda, que a Raquel e o Aluísio — que por sinal se recuperou rapidinho do desmaio — não saem do lado do caixão?
— E essas mulheres estranhas, que entram na sala, se aproximam do caixão, dão uma apalpada... no promontório do defunto, e depois vão embora, quem são elas, dona Josefa? Eu, não conheço nenhuma.
— Ô, dona Iolanda, a senhora não percebeu, ainda? São as mulheres dos outros velórios. A notícia se espalhou por todas as salas, e elas vêm conferir.
— Ah, então é por isso que está todo esse vozerio pelos corredores!
— Eh, dona Iolanda, vai dizer que não notou, quando fomos à cantina, a animação do povo?
— É verdade! As mulheres cheias de risinhos, excitadas, e os homens a tentar esconder seu despeito, carregando no deboche.
— Mas uma coisa não entendi até agora, dona Iolanda. Quando foram vestir o defunto, como é que puseram as calças nele... naquele estado de sentinela?
— Ah, fiz essa mesma pergunta para a Joana, e a resposta é bem simples: deixaram a braguilha aberta.
— Quer dizer, dona Iolanda, que debaixo das flores... o galho... está no original, sem nenhum revestimento?
— Não, dona Josefa. Puseram uma toalha por cima.
— Ah, bom!
— Olha, o padre chegou para encomendar o corpo. Será que contaram para ele?
— Veja, dona Iolanda, pela cara dele, acho que não contaram direito.
— Xi, ele está indo embora! Acho que não vai ter reza nenhuma.
— Mas a Joana correu atrás dele. Estão lá discutindo o caso...
— Eh, dona Josefa, parece que chegaram a um acordo. A Joana está de volta... mas o que é que ela vai fazer?
— Pediu para pôr a tampa no caixão... E o padre está voltando...
— Ah, então é isso, dona Josefa, o padre vai fazer a encomenda com o caixão fechado.
— Deus seja louvado!
* * *
— Puxa vida, dona Josefa, pensei que não fosse acabar nunca este enterro!
— Viu quanta gente acompanhou o caixão até a cova?
— Quase tudo mulher!
— Parecia até o enterro do Rodolfo Valentino. Pelo menos é o que minha mãe dizia, dona Iolanda, que no enterro do Valentino ficou assim de mulher, tudo chorando desconsolada.
— Pois duvido que o Valentino foi para o outro mundo armado com uma carabina igual à do nosso defunto!
— Ah, isso é bem verdade, dona Iolanda!
— A senhora viu a dificuldade que foi descer o caixão à cova? Como a tampa balançava?
— É, mesmo. Por que será que foi, hem dona Iolanda?
— Ô, dona Josefa, mas então a senhora não percebeu que os homens não conseguiram fechar o caixão direito, por causa do... obelisco do defunto? Não deu para apertar os parafusos e a tampa ficou solta.
— Ah, foi, é?
— Foi.

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