Pular para o conteúdo principal

PRETA PRETINHA

            O nome é Doroti, mas nem mesmo ela se lembra disto. Todo o mundo a conhece por Preta ou Pretinha, ou os dois juntos: Preta Pretinha. Nasceu no Espírito Santo e mora em Morro de São Paulo, na ilha de Tinharé, na Bahia. Faz biquínis de crochê, que vende para turistas. Mora com um filho de 18 anos e uma filha, de 15; os outros quatro continuam com o pai, no Espírito Santo. Casou contra vontade, aos 13 anos, com Carlucho, de quem não gostava — ameaçou até suicídio, não adiantou. Detestou o casamento. Ser mulher então era isto: ser usada a todo instante, parir um filho atrás do outro? Já estava grávida do segundo quando começou a tomar gosto por homem, mas foi um sentimento misturado com nojo. O marido era um jegue, queria a toda hora. O bruto não tinha um carinho, uma delicadeza, usava Pretinha como se fosse um urinol. Esvaziava nela a carga que lhe pesava no escroto, virava do lado e roncava.
            Um dia ela se encheu.
            Largou tudo, marido e os dois filhos (o segundo já nascera), e foi para o Rio de Janeiro. Lá ficou por uns tempos, mas não deu certo e acabou voltando — o gênio forte de Preta não combinava com a vontade das patroas.
            Com paciência e muitos conselhos, terminou quase por se afeiçoar ao marido, de quem teve os outros quatro filhos, sem prejuízo de constantes brigas. O cretino não podia ver um rabo de saia. Chegou a deitar com mulher no quintal de casa, embaixo da bananeira. Era mecânico e vivia com as mãos sujas de graxa, mas a mulherada não ligava para isso, afinal era um jegue. Por castigo teve derrame e passou a arrastar a perna, mas não criou vergonha na cara, continuou mulherengo.
Pretinha cansou e, pela segunda vez, abandonou tudo e mudou para o Morro. Lá arrumou outro homem, o Alcides, bem mais moço, trabalhador, embora chegado a uma cachacinha nas horas vagas. Muito ciumento, mas respeitador — nunca levantou a mão para bater nela, quem sabe até por medo de represália. Quando os dois brigam, ela vira para o lado, na cama, e o Alcides passa a noite sem mulher.
Pretinha adora contar histórias e encompridar o papo com as freguesas. A coisa que mais gosta na vida é tomar cerveja. Outro dia foi visitar uma amiga, a Celeste, na Segunda Praia. Casa de pobre, não tinha nada. Celeste mandou um menino comprar duas cervejas. — O Alcides não gosta que Pretinha beba, esquece da vida; mas só duas garrafas não ia fazer mal. — Sentaram-se e começaram a pôr a conversa em dia; em pouco, o menino foi comprar mais. Papo vai, papo vem, a tarde se distraiu e foi escorregando na conversa fiada, devagarinho, sem perceber, até que de repente caiu atrás do Farol; no lado oposto, a noite — que é curiosa e também adora ouvir conversa alheia — começou a subir pela escada de nuvens grávidas, que prenunciavam chuva grossa. Foi se achegando, de início lentamente, dissimulada, mas logo confiada, a galope, até que, descarada, se apossou de toda a ilha. Quando deram pela coisa, passava das dez. O Alcides ficara sem janta.
Quando a companheira voltou para casa, Alcides armou cara feia. Pior: só fez aumentar o jejum, além de comida ficou no jejum de mulher — naquela noite Pretinha virou-lhe as costas.
O primeiro filho a vir morar com ela foi o Paulino, na época ainda moleque. Cresceu na ilha, encarapitado nos arrecifes e a jogar capoeira na praia com os outros meninos. Acabou por virar um rapagão, os músculos de ferro mal escondidos debaixo da pele negra curtida de sol. As mulheres brigavam por ele, que não enjeitava nenhuma; a todas derrubava na areia, embaixo da Lua. Entre elas, na brincadeira, corria o apelido: Paulino Pau-Grande. Estava ele com dezoito anos quando derrubou Mercedes, uma gringa argentina que tinha ido passar férias no Morro. Loura, magra, bem mais velha que ele, era médica em Buenos Aires. Náufraga no paraíso, carente de macho, agarrou-se ao corpo sadio do seu Adônis negro com fogosa paixão. Devia voltar em quinze dias, acabou ficando mais de três meses. Cobria Paulino de presentes e dinheiro, queria levá-lo com ela, montar para ele comércio na Argentina. Casa, comida e roupa lavada, era só agarrar a sorte grande. Mas o Paulino, mulherengo como o pai, o que fez mesmo foi agarrar escondido uma nativa gostosinha que lhe arrastou o beiço. Pena que não foi tão escondido assim, a Mercedes desconfiou e surpreendeu os dois em flagrante delito. Passou-lhe uma descompostura e — mulher direita e honesta que era — foi ainda explicar para Pretinha porque abandonava o filho. Partiu no primeiro avião. À noite, Preta ouviu o moleque soluçando pelos cantos. Nunca soube se era do amor desfeito ou do futuro perdido.
Lindaura, a filha, vive no Morro já para mais de quatro anos. Quando a mãe foi buscá-la no Espírito Santo, era ainda menina; hoje botou carnes e, atrevida, empurra pelas ladeiras do Morro os seios empinados, que balouçam na mesma malemolência das ancas preguiçosas. O andar pachorrento vai deixando um rastro viscoso onde se prendem e se perdem os olhares gulosos da masculinidade nativa e forasteira. Uns e outros quebram o pescoço quando ela passa. Já deu trabalho a menina, mas Pretinha a pôs nos eixos.
Deu-se o caso no segundo carnaval que a menina passou na ilha. Já então começava a desabrochar nela a fêmea exuberante que viria a ser depois. Pretinha a incumbira de ficar na Segunda Praia, onde o agito era sempre maior, abancada ao lado de uma caixa de isopor, vendendo cerveja. — No carnaval a féria era sempre boa. — Prevenira-a a não se dar ao desfrute com os turistas e avisou que faria fiscalização para ver o cumprimento dos conformes. Ela que se livrasse de aprontar desobediência — o pau ia comer!
Lá pelas tantas da noite a festa ia animada e o batuque fazia o sangue ferver nas veias. Lindaura gingava ao lado do isopor, sofreando dentro de si a força atávica das gerações africanas, que pareciam acordar da noite dos tempos e se viam prisioneiras dentro daquele corpo maravilhosamente flexível e inexplicavelmente paralisado. O ritmo dos atabaques penetrava na alma e fazia vibrar o diapasão da raça. Para piorar tudo, ainda tinha os olhos claros daquele moço loiro, que com insistência a convidavam para o rala-bucho — duas lamparinas acesas na noite, a crepitar de desejo. O alemão, enfeitiçado, foi se achegando, num bamboleio duro, enquanto o gingado mole de Lindaura se acelerava: as ancas passaram a saracotear como chocalho de cascavel e os seios, a balançar num vaivém frenético. Uma umidade principiou a escorrer do alto da coxa e fez recender no ar um cheiro de fêmea no cio. Lindaura ensaiou um rodopio em volta do moço bonito, à maneira das aleluias em torno das lâmpadas: se achegava e se afastava, e a cada chegança mais perto ficavam os ventres acesos, até que, num crescendo de tempos infinitos, vieram a conjugar, os dois, os verbos roçar, encostar, apertar, esfregar.
Foi nesse enlevo orgiástico que os surpreendeu Pretinha.
— Rameira! Filha-da-puta! — esbravejou, crescendo para cima de Lindaura. Deu-lhe um sopapo na cara que fez a menina rodopiar fora do ritmo e cair sentada na areia. O moço gringo quis tomar satisfações e avançou. Melhor que não. Tomou um murro no meio das ventas e estatelou-se também no chão. Pretinha agarrou a filha pelos cabelos.
            Já para casa, sua galinha!
            Aos trancos, aos bofetes, foi conduzindo a cria, que desabava entontecida a cada novo golpe, até que desapareceram as duas, tragadas na sombra de um coqueiro anão.
            Na praia iluminada o corpo magro do moço loiro dormia o sono dos justos.
            Depois daquela noite Lindaura virou um modelo de virtude. Obediente, nunca mais abandonou a caixa de cerveja. Em casa, faz de um tudo, lava, passa, cozinha; aprendeu a fazer cocadas e empadas e agora, além de cerveja, vende também tira-gosto e sobremesa. Santa não é, que dá suas escapadas, mas só depois do serviço. Pretinha sempre põe em sua bolsa um par de camisinhas, apesar de saber que a Igreja proíbe.
            Preta é católica, mas não carola; vai à missa de vez em quando na Matriz de Nossa Senhora da Luz, de quem é devota, mas freqüenta também o terreiro de Pai Jacó. Tem seus acordos com os santos e transita livremente entre os orixás. Faz promessas e faz despachos.
            Uma vez a amiga Celeste veio pedir ajuda para um trabalho de amor. Estava enrabichada pelo Tião, que não queria nada com ela. Pretinha sentenciou:
            — Carece amarrar o recalcitrante!
            Combinaram o que seria necessário. O trabalho devia ser feito em noite sem Lua, dentro de duas semanas.
            No dia seguinte sumiu uma cueca do Tião que secava no varal.
            Celeste comprou quatro velas vermelhas e uma garrafa de pinga; também reservou uma galinha preta com dona Josefa.
            Na noite de Lua Nova foram as duas pela escuridão até uma encruzilhada no caminho da Fonte do Céu. Levavam a galinha, viva, e os apetrechos encomendados. Pretinha, com um golpe de faca, degolou a ave e aparou o sangue em um copo, depois riscou um círculo no chão e dentro dele colocou a bichinha, ainda estrebuchante. Espargiu o sangue pelos quatro pontos cardeais, formando os extremos de uma imaginária cruz, aonde acendeu as velas. Ao lado da galinha, o copo sujo de sangue foi emborcado sobre a cueca, adrede amarrada em nó. Abriu-se o litro de pinga e ambas a mulheres dele tomaram três goles cada uma, cuidando de derramar no solo, antes, a parte que de direito aos santos cabe. Depositaram a seguir a garrafa, com o conteúdo restante. De um embornal, Pretinha sacou pétalas de rosa vermelha que esparramou dentro do círculo, enquanto dizia uma fórmula nagô. A seguir retiraram-se, em silêncio.
            Quando chegou a casa, Pretinha estava com fome; os goles da cachaça tinham servido para aumentar o oco da barriga, que não via sustância havia muitas horas; a bem da verdade, desde o ralo café da manhã não vira mais alimento algum. A situação estava braba; mês de maio, Morro vazio, turistas só uns gatos pingados, dinheiro nem para remédio. Procurou nas prateleiras; nada de comer, só um chazinho de camomila. Bom para estômago. Melhor que nada; ferveu água, bebeu o chá e foi se deitar — dormindo esquece a fome.
            Mas não dormiu.
            Virava dum lado, virava do outro, sentia os caroços do travesseiro, que afofava com as mãos. A barriga doía, parecia que o oco havia crescido. O escuro da noite e o oco da barriga, qual dos dois era o maior? Os caroços do travesseiro, por mais que o afofasse, continuavam como antes. Esmurrou-o e era como se socasse a cara do gringo loiro. Por que os gringos são sempre loiros e os nativos são sempre pretos? Por que os loiros sempre comem e os pretos só de vez em quando? Por que nos despachos é sempre preta a galinha sacrificada? Quem mandou nascer preta? Fosse branca ou carijó e teria escapado, mas não, nasceu preta, bem feito, agora está lá na encruzilhada, de pescoço cortado. Judiação. Judiação e desperdício! Que boa canja não daria!
            — Cruz, credo, que sacrilégio!
            Virou do outro lado e apertou os olhos com força.
            Os caroços do travesseiro, malditos caroços! Maldita galinha preta de pescoço cortado, gorda que nem ela só! Toda aquela gordura, boiando na panela, o cheiro de canja a se desprender e a entrar pelo nariz, a encher a cozinha, a fugir pela janela, invadindo o mundo...
            — Ai, que fome!
            Pretinha debatia-se na cama. Tremia, sacolejava, parecia possuída. Dentro dela o bem e o mal disputavam o controle. Era como se o âmago de seu ser — o oco da barriga —tivesse se transformado em palco para uma luta de orixás. Sem que ela tivesse consciência disso, naquele corpo rijo e maltratado mediam força pela trilionésima vez os dois princípios cósmicos. No fragor da luta maniqueísta ela suava e revirava os olhos, e cada vez mais crescia a imagem da galinha gorda. Às vezes se acalmava, mas por breve tempo; logo voltava a se sacudir. Por fim sossegou. A luta acabara: a falange de Exu tinha vencido!
            Preta Pretinha correu à encruzilhada, pegou a galinha e fez a canja. Já era quase dia quando foi se deitar.
            Dormiu que nem um anjo.
            No fim do mês Tião foi morar no barraco da Celeste.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

AS MAL AMADAS

              Virgínia e Anália são idosas, mas não admitem, juntas têm mais de cento e quarenta anos, mas juram não passar de cem. Anália, por exemplo, é aquela que não quis ir pra Maracangalha com Caymmi. Ainda que antigas, têm hábitos modernos, gostam de andar aos domingos na grande avenida, desde que a prefeitura a reservou para passeio público. Por mero acaso, ou por constar do plano universal, também este narrador resolveu passear na mesma avenida neste domingo.             Verdade que elas têm hábitos modernos, mas não deixaram de conservar alguns antigos, entre os quais um que não é tão inocente: falar mal dos outros. Ah, todos sabemos como esse costume pode fazer mal aos outros, mas como faz bem aos praticantes! É um descarrego, um lava-rápido da alma. Inda mais se quem fala mal são duas senhorinhas de soma centenária. Qual prazer têm elas nessa etapa da vida, qu...

PIMPOLHO

              Já vão lá uns trinta anos que escrevinhei uma historieta sobre minha filha Mariana, a derradeira raspa do tacho, que nasceu quando eu fazia cinquenta anos. Desconfiava então que ela podia ser uma alienígena que vinha com seu povo invadir e conquistar nosso planeta. Pois bem, passou todo esse tempo e a desconfiança persiste. Está ela agora com trinta e oito anos e grávida do primeiro filho, que nascerá em dois meses.             O primeiro raciocínio que fiz, e olha que não sou bom nisso, é que ela não deve ser mesmo uma extraterrestre. Se o objetivo é conquistar a Terra, não faz sentido esperar tantos anos para ter o primeiro filho. O lógico seria tê-lo com dezesseis ou dezoito anos. Dessa maneira o exército invasor seria completado mais depressa. Por outro lado – confirmando que sou falho em deduções – pode ser que no mundo dos etês o desenvolver da vida se...

DESAJUSTADO

              Sonhar é normal, dizem médicos e filósofos, e não fazem mais que repetir o que sempre nos disseram nossas vovós. Há quem sonhe com o futuro, como será, e já então se pode distinguir duas espécies, os otimistas e os pessimistas, ambos normais se não caírem no exagero, que sempre é indício de desarranjo. Outros costumam sonhar com o passado, e creio que são a maioria. Também estes, se escorregarem pela rampa do exagero, serão igualmente desajustados. É o que tem acontecido comigo nos últimos tempos, escorregões, o que me leva à triste conclusão: sou um desajustado. Já vinha desconfiando disto antes mesmo de voltar a ter sonhos. Creio que todos passam por períodos sem sonhos, embora os entendidos afirmem que sonhos sempre os há, o que falha é a memória da pessoa que, despertando, deles não se lembra. Dizem mais, esses especialistas, que os períodos em branco costumam ser passageiros e a gente normal volta dos sonhos ...