O pai e a mãe tiveram de viajar de repente, problema de saúde na parentela, e deixaram casa e crianças aos cuidados de tio Bastião e de tia Mariela. O tio era um negão de um metro e noventa, magro e forte que nem um touro; valente e temido entre os homens, era um doce com as mulheres e um menino entre meninos. A carapinha já começava a branquear.
— Por causa do sereno das serestas — dizia.
A tia era baixa e roliça, napolitana da gema, vivia de bem com a vida e cantava mais que passarinho:
— Mamma son’ tanto felice...
O casal podia não dar boa estampa: ele espigado, ela atarracada; ele preto, ela branca; mas eram unha e carne, combinavam mais que goiabada com queijo — o riso aberto do Bastião, que parecia mais branco pelo contraste com a pele negra, não era mais claro que o olhar manso dos olhos alumiados da tia Mariela, da cor das águas da baía de Nápoles, nem mais risonho que eles. Como estavam sempre juntos, o tio e a tia, os sorrisos da boca de um e dos olhos da outra viviam a se encontrar e a se completar, e como eram imensos, transbordavam e se espraiavam ao redor, inundando de alegria a parcela do mundo que tinha a sorte de estar por perto.
As crianças, que eram duas — eu e o Xuim —, adorávamos aqueles tios e jogávamos toda tarde, na mesa da sala, infindáveis partidas de escopa de quinze. Somente no baralho se conseguia separar aqueles dois, porque cada um deles fazia par com um de nós, para assim ficar as parcerias mais parelhas. Não tanto por mim, que já era quase grande, com onze anos, mas o Xuim ainda era criança, só com sete. Estávamos na fase da descoberta do mundo e imaginávamos que isso pudesse ser feito rápido, o que justificava a pressa de experimentar novidades. Mais tarde aprendemos que essa tal fase não pode terminar nunca enquanto se vive porque, longe de ser fase, ela é a própria vida.
Era moda então entre a garotada colecionar carteiras vazias de cigarros, como se fossem figurinhas, e o Xuim e eu tínhamos a nossa coleção bem sortida. Recolhíamos pelas ruas as carteiras mais limpas e com mão espalmada as alisávamos sobre as coxas, antes de guardá-las em pacotes amarrados com barbante. Tínhamos todas as marcas: Aspásia, Belmont, Petit Londrinos, Negritos — estes, os únicos cigarros pretos, cobertos com papel de alcaçuz, que deixavam um gosto adocicado nos lábios, conforme viemos a saber anos depois, ao nos tornar fumantes. Teríamos sabido bem antes, não fosse a intervenção providencial do tio Bastião.
Deu-se o caso exatamente na época daquela viagem dos nossos pais.
Vínhamos havia algum tempo pensando em fumar, influenciados pelo manuseio diário das carteiras vazias, fosse pela riqueza das estampas, pela beleza das letras ou pelo cheiro peculiar de cada uma das marcas. Às vezes a gente era capaz de fechar os olhos e reconhecer a carteira só pelo cheiro. É justo portanto que surgisse a vontade de experimentar, mas éramos tolhidos pela severa vigilância de casa e pela experiência de traquinagem ainda incipiente.
Com a viagem dos pais, sentimos a oportunidade de realizar a aventura desejada. Dinheiro não era empecilho, já estava economizado havia tempo. Era só esperar um momento de descuido dos tios, o que era quase uma covardia, tão confiantes eles eram. Não haveria problema também para comprar o maço de cigarros, pois que eu já fazia isso habitualmente, a mando do pai.
E foi assim que, com a cara mais inocente deste mundo, fui ao bar da esquina naquela tarde:
— Um maço de Beverly, lisos!
Até que tinha vontade que em vez de lisos fossem os cigarros com ponta, mas mudar o pedido poderia levantar suspeita; o pai sempre fumara lisos.
Para o leitor mais novinho, é preciso uma explicação, se não nada vai entender. É que naquele tempo não existia ainda cigarro com filtro e a opção era tê-los de papel todo branco ou com uma ponteira mais escura, a imitar cortiça. Alguns diziam que a ponteira evitava que o cigarro colasse nos lábios, mas acho que o pai nunca acreditou nisso ou simplesmente não se importava. Sempre fumou lisos.
Apesar de acostumado a fazer a compra quase todos os dias, naquela memorável tarde o pedido saiu grasnado, em tom de falsete. O nervoso me engrupia a garganta. Tivesse então capacidade de analise — coisa que só vim a adquirir muitos anos mais tarde, e ainda assim com sofrível precariedade — teria distinguido que já era e seria para sempre um fracasso como delinqüente. Mas seja porque o uso do cachimbo faz a boca torta ou porque ninguém presta mesmo atenção a uma criança, o português não ligou a mínima para os meus rubores, e — talvez por ansiar pelos rubores de sua cachopa ou por causa tão somente da simples tortice de sua boca —, ele, que não fumava cachimbo, forneceu-me mecanicamente os cigarros.
Escapuli-me a tremer como vara verde e escondi o móvel do crime ao pé da roseira que havia no jardinzinho defronte de casa. Pelo fim da tarde, enquanto os tios estavam distraídos com a novela da Rádio São Paulo, eu e o Xuim fomos para o fundo do quintal e acendemos os nossos cigarros. Traiu-nos porém o lusco-fusco daquela hora, pois a tia Mariela percebeu pela janela o avivar das brasas em cada tragada que dávamos, despreocupadamente seguros com a proteção da noite, que chegava menina.
— Muito bonito, hem! Seus moleques!
O brado da tia soou forte como se cantasse uma estrofe napolitana e botou-nos os cabelos eriçados e as orelhas em pé, o que facilitou-lhe a pegar-nos por elas, uma em cada mão, e a levar-nos para dentro da casa, quase suspensos do chão.
— Olha, Bastião, o que estes moleques estavam fazendo no quintal! Fumando!
O tio arregalou os olhos e dois anéis brancos tingiram sua cara preta; mas o espanto durou só um segundo e logo foi substituído por um sorriso alvar, que de tão branco parecia iluminar a sala inteira como se aprisionado houvesse os últimos albores do dia.
— Deixa, Maria... Deixa os meninos; já estão dois homenzinhos...
Fez-nos sentar à mesa, a seu lado.
— Agora vão fumar comigo, como gente grande!
Tirou do bolso um charuto inteiro, com o canivete cortou-o ao meio e nos deu a cada um uma metade.
— Vamos lá, meninos! A fazer fumaça!
Inicialmente surpresos, mas logo com vaidade de gente graúda, pusemo-nos a sugar os charutos. Aquilo sim é que era fumar! O grosso calibre enchia-nos a boca e a fumaça densa escorria garganta abaixo como se estivéssemos a fumar uma dúzia de cigarros de uma só vez. Os olhos do tio Bastião brilhavam, mas seria talvez por reflexo dos nossos que, estes sim, deviam faiscar de tanta felicidade. Sua boca também sorria, mas quem sabe só para acompanhar as nossas, arreganhadas de orelha a orelha, esticadas de tanto orgulho.
Fumamos um bocado. A sala encheu-se de fumaça. De repente a cara do Xuim ficou branca, quase tão branca como o sorriso do tio Bastião; ele largou o charuto no cinzeiro e correu para o banheiro. Que será que tinha dado nele? Daí a pouco senti eu uma virada na barriga como se fosse um tranco e um aguaceiro azedo na boca. Saí também correndo para o banheiro. Lá botei os bofes para fora, ao lado do Xuim, que já fizera o mesmo.
Bem mais tarde, na hora da janta, nenhum de nós dois quis comer nada, embora a tia Mariela houvesse feito um frango de panela que a gente adorava. Os tios jantaram com o apetite dos justos e, depois do café, o tio Bastião acendeu um charuto. Deu uma longa baforada e soltou a fumaça na direção da lâmpada do teto. De repente pareceu lembrar-se de alguma coisa e estalou os dedos:
— E aí, meninos, vai mais um charuto?
Sem responder, saímos a correr, o Xuim e eu, para o banheiro.
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