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O FÓSFORO

Relia, ontem, o velho Machado, sempre com o mesmo prazer, quando adverti que também eu tenho o meu conto de escola para contar. Naturalmente não levo a pretensão de dizê-lo tão bem, nem mesmo de dizê-lo pior; seria comparar a estrela ao fósforo, e aos incomparáveis não se deve molestar. De minha parte, sou educado e respeitador, e prefiro deixar em paz a estrela inatingível, contentando-me em admirar-lhe fulguração e cor.
Nem a escola, de fato, chegava a tanto; não passava de humilde jardim de infância, desses do tempo antigo. Ia-se de calções bufantes, azuis, e de camisetas brancas de malha, com números vermelhos bordados ao peito. Uma sacola de pano a tiracolo, também vermelha, escondia a merenda parca, pão e banana. O que era igual às de hoje, era o entusiasmo do menino, que desfilava com pompa seus orgulhosos quatro anos. O caminho de casa a escola era o ato mais importante do dia. Trajando o uniforme vistoso, julgava atrair os olhares de admiração e os ouvidos inventavam sentido no murmúrio dos passantes.
— Que beleza de menino!
— Parece um homenzinho!
Empertigava-me mais e inchava de importância. Ironia! Por que toda criança quer ser homem, para passar depois o resto da vida arrependido, tentando voltar à criança que não foi? Creio estarem errados os filósofos, pois não é a consciência da morte que determina o drama existencial da espécie humana. É, sim, a eterna nostalgia da meninice. Busca-se inutilmente voltar atrás, trocar saber por ignorância e experiência por inocência. Às vezes o homem logra se iludir, sorvendo com deleite o menino que se esconde no seu crânio, para, ao cabo, ficar-lhe o travo amargo da saudade. Cretinos, os Adões e Prometeus, que nos legaram o fogo sagrado da árvore da ciência!
Mas, falha ou descuido, cá estou num desvio metafísico. É preciso ser mais objetivo, voltemos à história.
Não me recorda bem se o jardim era feio ou bonito, sei que era grande, ensolarado. Possuia um gramado imenso, que confrontava com a rua, junto a um alambrado alto. Nas horas de recreio nós o povoávamos inteiro, pés correndo, bocas a gritarem e corpos rolando na grama macia. Uma-na-mula, cabra-cega, pique. Depois, suados e relaxados, voltávamos à sala de aula, livres do excesso de energia que antes comichava nos braços e mais ainda nas pernas.
O sossego da alma casava bem com a aula de desenho: uma casa em primeiro plano, soltando fumaça na chaminé; no quintal cercado de ripas, a árvore frondosa; ao fundo, uma cordilheira, com meio sol engastado nos sulcos, mas que nem por isso perdia a força formidável: dali mesmo lançava raios que subiam como serpentes ao céu. O lápis gemia sob a mão pesada, machucando fundo o papel, mas como estava ficando bonito! Se eu morasse ali, trepava na árvore e me lambuzava de tanto chupar manga. Depois jogava os caroços na cabeça de quem passasse por baixo. E se fosse o homem da bosta de cavalo? Bom, então seria melhor não jogar. A memória reconstitui a cena do outro dia, que vem carregada dum medinho que dá um frio na barriga. Um medinho fininho, até gostoso, não o medão do outro dia. Mas também que idéia! A bosta de cavalo quentinha, cheirosa, dentro da mão. Redondinha. De repente, alguém grita o desafio:
— Vamos ver quem acerta dentro dos carros? – E o bando se apronta para a façanha.
— Vupt! – passa o primeiro e a gente erra. – Vupt! – o segundo, e nada. – Vupt! – o terceiro.
— Acertei! Acertei! – A alegria é doida e pulo feito bode brabo.
Mas o carro diminui a marcha e para. A porta abre e o homem sai, terno branco, mancha verde. Gesticula, grita e corre para o nosso lado. Perna-pra-que-te-quero! A gente azula. Corre, corre, sem nem olhar para trás. O coração bate forte, parece que quer pular do peito. Para que que a gente foi inventar essa brincadeira? E se ele me pega? Que surra vou levar! Manhê!... Pior! Se a mãe fica sabendo, aí a surra vai ser maior ainda. Toca correr, correr... Olho para trás e não vejo mais homem nem meninos. Ufa!... Que homem ruim! Esse mundo está cheio de gente malvada. Bem tem razão a mãe quando fala...
Agora a professora recolheu os desenhos e é aula de brincadeira. Na distribuição dos jogos, fico com os tijolinhos de construção. São de madeira pintada; amarelas as paredes, as torres com relógio, os telhados vermelhos. Como são lindos os telhadinhos, pequenos triângulos encarnados. Ah, que bom se eu tivesse um só para mim! A professora não está olhando. Jogo um dentro da sacola e continuo a construção, alvoroçado. O tempo custa a passar; quero sair correndo com meu tesouro, mostrá-lo à mãe, dormir com ele debaixo do travesseiro. Minhas mãos se mexem desordenadas, os pés não têm parada.
— Menino! – ralha a professora. – Está com bicho carpinteiro?
Faço esforço enorme e me contenho; com a ajuda dos olhos, prego os pés no chão, e a mão direita segura a esquerda. O corpo inteiro parece formigar e uma mola ameaça distender as coxas.
— Blem! Blem! – o sino anuncia o fim da aula, justo na hora em que a mola dispara. Num instante estou na rua, correndo mais que o vento. De repente, uma lembrança me assusta: e se ele caiu da bolsa? Paro e, aflito, verifico. Lá está o telhadinho no fundo da sacola, rindo para mim. Como ele é bonzinho!
Tomo mais cuidado, chego em casa e entro procurando:
— Manhê! Manhê!
Ela estava na cozinha, junto ao fogão de lenha, soprando. Não levantou a cabeça, apenas desviou o olhar para mim.
— Mãe, olha o que peguei no jardim – e tirei o telhadinho da sacola. – Não é bonito?
Ela interrompeu a sopração e quis saber como eu pegara a madeirinha. Depois de contado, fechou a cara e ordenou que a devolvesse.
— Amanhã mesmo!
— Mas, mãe...
— Amanhã! Ou devolve por bem, ou levo você para a diretoria.
Era definitivo, conhecia muito bem a mãe e sabia que não adiantaria insistir. Saí da cozinha, murcho, e fui para o quarto.
Chorei.
De noite, pus o telhadinho embaixo do travesseiro e dormi alisando-o com os dedos.
Na manhã seguinte, o caminho para a escola foi um suplício. Esgueirava-me rente às fachadas das casas e apertava o passo ao cruzar com alguém. Não evitava, porém que o vento, soprado pela imaginação, trouxesse às minhas orelhas o reproche cruel.
— Ladrão!
Apalpava a sacola e sentia o telhado. Como é que ia devolvê-lo à professora? Com que cara? Percebia pela pontas dos dedos que ele ria de mim. Cachorro! Falso! Antes, ria para mim, agora, ria de mim. Tinha ódio dele e o apertava com força para doer. A escola chegava perto, o alambrado e a grama. Súbito, uma idéia. Olhei em volta e, cauteloso, tirei o malvado da sacola e joguei-o por cima do arame. Corri em seguida para o portão de entrada. Ninguém tinha visto. Pronto, tinha devolvido o telhadinho.
Naquela manhã não fez sol e o verde do gramado desbotou.
Durante o recreio, permaneci arredio. Evitava chegar próximo ao alambrado, e quando me surpreendia olhando a grama, forçava a atenção para os passarinhos pousados nos fios da rede elétrica. Numa dessas vezes em que o olhar escorregara para o chão, julguei ver o telhadinho, mas deve ter sido só impressão.
Mas a criança é antes de tudo um forte, e nos dias que se seguiram a ferida fechou, cicatrizou e curou. O sol voltou a brilhar e a grama coloriu de novo.
Eis aí o meu fósforo, já agora riscado e apagado. A luz não foi tanta, nem tão pouca que não desse para alumiar esta verdade simples: que os mandamentos da lei mosaica, embora gozem do prestígio divino, muita vez precisam de uma ajudazinha humana para se nos gravar no bestunto. Se ao leitor mais pio repugnar a conclusão, resta-lhe sempre a faculdade de pegar destas páginas e lançá-las ao lixo. É o destino dos fósforos riscados.



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