Caminho
sob as sombras do arvoredo do Piqueri, com a camiseta da Ilha do Mel, velha
companheira azul desbotada que não consegue mais disfarçar os puídos de excesso
de uso, tão igual a mim. Amigos comentam, por que não troca, mal sabem eles a
razão escondida, mais que isso, a desrazão; soubessem, zombariam. Não saberão.
Não por mim, ao menos não pela boca, que controlo, mas e os olhos? Esses olhos
ensandecidos podem ser traiçoeiros; vivo em febre e o calor pode por eles
transbordar. Olhos não têm porta ou torneira que os feche, quanta vez se
debulham em lágrimas na contramão da vontade do dono. É de sua natureza a
traição. Mas por que me preocupo tanto? Que me traiam! Que revelem ao mundo
este amor outonal, merecedor de castigo, contrário que é à normalidade humana. Somente
à juventude é permitido o amor e que aproveitem bem dele os jovens, mas que se
acautelem: ao virar a esquina o peso dos anos lhes cairá às costas. É justo que
lhes seja interdito levar estes amores até o próximo quarteirão? Por que
pergunto? O mundo é injusto, estou cansado de sabê-lo.
Não
há amores sem lembrança. Era um dia de sol e sob o arvoredo ela corria ao meu
encontro, e isto bastou para que as pernas, as minhas, por suposto,
fraquejassem, mas as dela, não, passaram por mim, fortes, carregando a dona
para longe, mas, velozes que fossem, não me impediram de vislumbrar um sorriso
fugaz naquele rosto angelical.
Antes
que me interpelem, esclareço que o adjetivo está bem aplicado ao rosto da moça,
uma vez que, naquele instante, já estava eu perdidamente enamorado dela. Uma
característica única, porém, deve ser lembrada para uso de futuros estudos
sobre o amor à primeira vista: é que, no meu caso, entrou-me ele, literalmente,
pelas pernas.
Quem
era aquele anjo? De onde surgira? Teria mesmo sorrido? E o sorriso era para
mim? Ou seria tudo uma ilusão do meu cérebro desconexo? Como saber?
Tantas
perguntas! O estudioso sabe bem que elas sempre acompanham a explosão do amor;
não seria diferente desta vez.
Oh,
como exaltei a existência do círculo e de suas filhas não tão perfeitas, as
elipses, modelos de todos os caminhos de ida e volta! Eu a andar, a moça a
correr, era certo um novo encontro na próxima volta, tão certo quanto um
corolário euclidiano. As batidas do coração, qual um tiquetaque suíço, marcavam
a passagem dos segundos, enquanto uma agonia fria se avolumava no plexo e
descia ao estômago. E o novo encontro aconteceu, e ela novamente sorriu, e o
sorriso foi para mim, não me venham os céticos de sempre suspeitar dessa verdade
e roubar-me o sorriso, pois ele, escusado dizer, tão lindo, veio acompanhado de
um cumprimento de cabeça, e não havia mais ninguém ao meu lado a quem pudesse o
gesto se dirigir. Não, não venham agora falar que era para o esquilo que descia
da árvore; respeito o ceticismo, mas abomino o deboche.
Esperei
nova volta disposto, agora, a abordar a moça, o que só não se deu porque fui por
ela abordado. Perguntou-me se conhecia a Ilha do Mel, gravada na camiseta,
explicou ser de lá, nascera e crescera naquelas praias. Enquanto falava, eu, atarantado,
coração descompassado, só conseguia produzir um aceno de cabeça e um som
engrolado; devo ter passado uma impressão de deficiência mental. Um tanto
constrangida, ela cumprimentou e foi embora, seguiu seu caminho, agora para
fora do parque. Quando dou por mim e saio do estado catatônico, ela já tinha
sumido.
Desde
então volto todo dia ao Piqueri na esperança de encontrá-la e uso sempre a
mesma camiseta, para facilitar o reconhecimento, da parte dela, é óbvio, porque,
por mim, trago sua imagem galvanizada no meu corpo inteiro, impressa no
cérebro, no coração, na pele pelo linotipo dos sonhos noturnos, quando consigo
dormir.
A
camiseta desbotou e ameaça desmanchar, mas já encomendei outra igual e devo
recebê-la semana que vem. Guardarei a velha no fundo da gaveta, recordação do
que não foi, mas poderia ter sido. Quem sabe ainda será. A Terra dá voltas ao
redor do Sol, eu dou voltas no Piqueri, talvez um dia uma conjunção favorável
de corpos celestes traga a moça de volta para mim.
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