Fora
mulher, não diria para não trair idade, mas sendo homem e escravo da verdade,
não posso me furtar à confissão de que o caso se deu na década de 60. No
entanto, para que não tenham de mim, falsamente, a imagem de um velho
caquético, é de justiça esclarecer que era eu, à época, muito jovem, casadinho
de novo e ainda preocupado em agradar a patroinha. Assim, quedava-me todo
ouvidos para as histórias de pescaria do meu sogro, um alemão sacudido. O
interesse fingido não tardou a despertar na teutônica cabeça a ideia de me
obsequiar com um convite para tão excelsas aventuras. Sabido ser impossível
brotar na cachola de um pescador a suspeita de que alguma criatura possa dela
não gostar, foram impotentes os subterfúgios que tentei usar para fugir da
pescaria, que foi peremptoriamente marcada para o domingo seguinte.
Às quatro da madrugada tive que ser sacudido pela mulher
para acordar. Apesar do fevereiro tropical, o céu ainda estava escuro quando
saí de casa, talvez porque o sol também precisasse de um sacolejão. Fomos no
fusca, meu primeiro carro e amor, comprado de segunda mão e motivo de perpétuo
ciúme da patroa que, chegada de novo, queria o coração só para ela. As tralhas
e os camarões de isca foram postos no porta-malas e as varas de bambu carregadas
na cabina, com as pontas para fora da janela. O caminho para a represa foi
tranquilo, a cidade ainda não acordara. Os poucos veículos na rua eram todos
fuscas, com pontas de varas a sair pelas janelas. Se um alienígena
desembarcasse naquele instante em São Paulo, suporia ser a cidade habitada
exclusivamente por pescadores.
Ao chegar à represa, um barco já nos esperava, a nós e a
todos os ocupantes dos outros fuscas. Uma vez lotado, partiu para os desvãos do
lago a desovar magotes de pescadores. Completada a semeadura humana, retornou
ao seu ancoradouro com a promessa de nos resgatar à tardinha.
Passamos o dia todo a pescar, eu a dar banho nos camarões
e o sogro a puxar tilápias e carás. Creio que aquele foi o domingo mais longo
do calendário gregoriano. O barco só nos veio buscar quando já era noite. O
céu, sem lua, estava mais negro que a asa da graúna, todo cravejado de
diamantes; eram tantas as estrelas que se tornava difícil distinguir naquela
profusão faiscante o desenho das constelações. Pude reconhecer as mais
familiares: o gigante Orião, de cabeça para baixo, com o cinturão das Três
Marias; o Cão Maior, com a despudorada cintilação de Sírius; pouco mais baixo,
na direção do poente, o feroz Touro. Este, com os chifres em riste, na ponta de
um deles, a vermelha Aldebarã, parecia carregar contra o Sol, escondido atrás
da montanha e, em sua fúria, levantava aos pés um triângulo de poeira
luminescente, as Plêiades.
Na segunda-feira começou o fusca a ter um cheiro
estranho; na terça, o cheiro virou fedor e na quarta, fedor insuportável.
Buscas se efetuaram, sem resultado; novas buscas, com retirada de bancos e
tapetes. Nada. Até que, de repente, ao se mover o estepe, descobriu-se no fundo
do compartimento meia dúzia de pútridos camarões, que haviam caído atrás do
pneu.
O fusca continuou fedendo por uns quinze dias. Mas no
balanço final o saldo da pescaria valera a pena: jamais tornei a ver em minha
vida um céu como o daquele domingo.
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