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A ÚLTIMA CONQUISTA

            O trem para, abre as portas e o homem entra, mas não se dá o trabalho de procurar lugar para sentar. Não há. De pé, empalma a guia de segurança e recebe, com alívio, o choque térmico do metal frio; pior se estivesse quente de outras mãos, pior ainda se úmido do suor delas. Lembra-se, divertido, do sonho de Dolores, que queria a ternura de mãos se encontrando para enfeitar a noite de seu bem. Ele as tem em aversão; prefere até, ao aperto de mãos, o cumprimento de cabeça, que pode vir acompanhado de ligeira inclinação, à maneira japonesa, quando pompa e circunstância o aconselhar. Mas sempre há quem insista em tomar-lhe da mão arredia e nela depositar humores; por isso cultiva o hábito de passar pela pia quando a casa torna. Ainda se fossem mãos de amada... Que raras são, pois na vida real, fora de romances e cinema, são pouquíssimos os amantes, ou por ser mesmo raro o amor ou por ter ele duração efêmera.
            Distraído pelo pensamento vagabundo, não chega a notar a moça sentada à sua frente e é pena, porque é bonita; se seguisse sua própria filosofia, deixaria de lado as idéias errantes para se concentrar na bela figura. Mas, não, pensa agora em outra coisa, em como são injustos os amigos que o rotulam de misantropo. Certo é que tem lá sua dose de cinismo, mas quem já viveu os anos que lhe envergam as costas possui esse direito, por mérito de conquista. Contudo, não é ele que se condói de ver uma criança pedindo esmola no semáforo? Não é ele que lhe dá uma moeda? Não é ele que paga um ou dois pastéis aos meninos, na feira de domingo? Só porque criou aquele aforismo — “é difícil amar o próximo quando ele está muito próximo” — os amigos o aperreiam. A coisa não passou de uma brincadeira, de uma “boutade”, diria, se fosse esnobe, mas tem orgulho de ser simples, por isso não usa o francês.
            Represando ou desviando o ribeirão de ideias, o inconsciente aos poucos abre clareiras no emaranhado dos neurônios, onde colhe sementes de percepção, e assim, lentamente, o homem toma consciência da moça sentada no banco bem à sua frente, literalmente ao pé de si, como descreveria mestre Machado. Ao fazer esta observação, sorri; reconhece o cabotinismo, mas no íntimo sente-se satisfeito com a própria erudição. A moça está distraída, absorta em pensamentos ou – percebe agora pelo fone de ouvido - simplesmente embalada por música qualquer de seu aparelhinho, displicentemente largado no colo, na confluência dos seios. O decote da blusa permite vislumbrar o desenho macio das duas mamas, de volume correto e corretamente dispostas, tanto em latitude como em longitude. Ele estranha por um momento o uso destas expressões geográficas, que lhe parecem frias para descrever o belo par de seios que tem à sua frente e, inopinado, pisca-lhe do fundo da memória o reclame do bonde antigo:
Vê, ilustre passageiro,
O belo tipo faceiro
Que tu tens a teu lado;
Mas no entanto acredite
Quase morreu de bronquite,
Salvou-o o Rum Creosotado.
            Queda-se paralisado, tomado de estupor; como lhe viera à lembrança aquele anúncio, inda mais com erro de tratamento, misturando segunda e terceira pessoas? Põe em dúvida a certeza do recordo: Bilac, o autor presumido, não teria errado; a memória é que produzia o engano. Porém, pior que a incorreção é a possibilidade de qualquer aprendiz de lógica montar um silogismo a partir dos versos e demonstrar ser ele também, além do bonde, um homem antigo.
            Ainda bem que pensa em voz baixa. Tanto que se esforça por manter bem pintados os cabelos e escanhoado o rosto, para disfarçar o trabalho demolidor do tempo! A companheira não aprova, acha que ele tem que assumir a idade, que homem grisalho é até charmoso, mas ela mesmo religiosamente pinta os próprios cabelos – diz que mulher é diferente. De vez em quando sente ele saudade da época em que usava barba; usara-a durante muitos anos, sempre aparada e preta. Os cabelos branquearam primeiro e para não destoarem da barba começou a pintá-los, mas aí foi a barba que branqueou; o remédio foi raspá-la. De início assustou-se com a nova cara, nem parecia ser ele aquela figura no espelho, mas foi convivendo com o estranho todos os dias, dia-a-dia, e acabou por se acostumar.
            E ali está ele agora, ao pé da moça distraída, cabelo pintado, barba feita, tem idade para ser o pai dela. Ignorando a intrusão deste detalhe torna a olhar para o decote, para as pernas. Bem torneadas. Sapatos de qualidade, vestido elegante, vê-se logo que não é uma qualquer. O olhar do exame, um tanto duro, parece provocar na moça alguma sensação tátil, pois ela desperta da ausência e sente-se observada. Instintivamente leva a mão ao decote e puxa o tecido para cima, enquanto olha surpresa para o homem.
            O gesto desperta nele a lembrança de uma palestra que assistira; o conferencista, um parapsicólogo, afirmava que o olhar humano, se intenso, é capaz de agir como uma força física; se alguém, por exemplo, olhar firmemente para a nuca de uma mulher que ande à sua frente, ela perceberá o olhar e voltará a cabeça. Recordou que após a palestra tentara repetir a experiência, sem sucesso. Agora, quando menos esperava, a coisa dava certo. A rigor, agora era diferente, pois não houvera a vontade de provocar a reação; nem mesmo fora tão intenso o olhar – ou teria sido e ele não se apercebera? O fato é que a moça fora acordada de sua letargia e os músculos de sua face parecem hesitar sobre qual expressão assumir. Por um instante ele receia vão se cristalizar em dura carantonha, afinal invadira sem licença a intimidade da jovem; tateara na ponta do olhar a suavidade da pele, escorregara pelas curvas das pernas, acariciara a elevação dos seios. Sente-se um facínora pilhado em flagrante delito; mas ainda assim tem o bom senso de julgar inadequada a palavra facínora, inteiramente fora de uso, possivelmente mais uma peça que lhe prega a memória, buscada de antigos gibis. E como há pouco fizera com o reclame, decide que fique o facínora, não haverá agora que se envergonhar da palavra e sim do ato licencioso que acabara de praticar.
            Encabulado, espera uma expressão dura de repúdio, mas é surpreendido por um sorriso. Não um sorriso aberto, nem mesmo um fechado; na verdade nem sorriso é, apenas a intenção dele, mas para si basta. Como uma Gioconda rediviva, a moça perdoa-lhe o insulto e abre-lhe, com aquele gesto minimalista, um portal de promessas. Logo a ele, tão desavisado, há tanto tempo longe desses jogos de caça!
            Uma quentura sobe-lhe pelo rosto e escapa pelas orelhas; ao mesmo tempo, um frio desce-lhe ao estômago e ali se aloja. Quanto tempo — meu Deus há quanto tempo! — desde quando não via uma mulher como objeto de conquista? Nem nota que já substituíra o tratamento, que moça passara a mulher, que a figurinha que até há pouco poderia ser sua filha, de repente se sensualizara; agora ele a vê como mulher, mais que isso, quem sabe amante. Sente o peso da palavra. Amante! Mais que da palavra, avalia o peso da situação, que lhe faz acordar a imaginação há tanto adormecida. E uma vez desperta, como fênix ressurgida de cinzas esquecidas, alça ela vôo por céus improváveis, céus de eróticas delícias e de prazeres não mais lembrados. Figura-se montando casa para a rapariga como se fora um coronel nordestino; supõe-se chegando à tardinha e sendo recebido à porta com beijo de paixão; imagina-se à mesa, desembrulhando pacotes de padaria: pão quentinho e guloseimas a combinar tão bem com aquele sorriso em rosto de menina. E já não é mais paixão o que sente pela moça, mas um amor manso de aconchego, em que a figura da cama vai se desmanchando como a fumaça de um cigarro recém-tragado e, desvanecente, é substituída pelo balançar modorrento de uma rede de pano cru.
            Ah, incorrigível temperamento romântico! Mal chegara a colocar-se como usufrutuário das benesses de um corpo jovem de mulher e já se mostra apaixonado pela dona dele! É sua fraqueza de sempre, talvez tenha mesmo uma alma feminina, como uma vez lhe disse um amigo, brinca brincando.
            A esta lembrança rebela-se sua porção machista, que puxa a fênix do céu e a faz pousar na terra bruta, transmutando-a de um só golpe em fogoso corcel, ao qual dá rédeas para solto galope. Recoloca a cama no quarto e na cama, a mulher, ajuntando-lhe uma dose de malícia e um tanto de pecado. Como em um filme pornô, vivencia cenas explícitas, pratica o voyeurismo de si mesmo e — pasme o mundo! — envergonha-se profundamente.
             Não adianta tentar se enganar: está mais para fênix do que para fogoso corcel.
            Enquanto ele assim devaneia, o sorriso da mulher começa a sair da imobilidade de Gioconda e principia a assumir uma expressão significante. Dito assim, pode parecer que sofra ela de alguma catatonia que estranhamente a houvesse congelado na imutabilidade de uma tela de pintor. Não, o que ocorre de fato é a dificuldade de ser colocadas instantaneamente as sensações e pensamentos da personagem, os quais, talvez por imperícia do narrador, acabam por ocupar um pedaço considerável do contínuo espaço-temporal. É que o tempo mental nem sempre coincide com o dos relógios. Sabido é que algumas representações cerebrais se processam com inimaginável rapidez, havendo quem jure que em situações de grande perigo, quando se pressente a morte iminente, algumas pessoas vêem se desenrolar na memória, como um filme, cenas de uma vida inteira, sem que para isso precisem de mais de um átimo.
            Estipulado, portanto, que o tempo da ação é sempre mais lento que o da imaginação, e concedido que, mais vagaroso ainda que estes dois, é o tempo da narração, fica esclarecido que os fatos até aqui contados se deram no mesmo tempo real em que ocorreram as lucubrações mentais da personagem principal, desprezadas as observações, pertinentes ou não, deste escriba.
            Feito o esclarecimento, voltemos ao sorriso da mulher, que, dizíamos, estava preste a assumir alguma significância. Para frustração do homem, contudo, não é a que ele desejava: o sentido final expresso no até então enigmático sorriso não deixa dúvida, é a satisfação que acompanha o cumprimento de um dever. No momento em que termina de se instalar na fisionomia, a moça levanta-se do assento e dirige ao homem um olhar protetor:
            — Senta aqui, tio!
            Ele sente as pernas bambear e teria ficado intensamente ruborizado se o sangue não lhe tivesse descido todo da cabeça para o estômago, causando-lhe uma náusea instantânea. O cérebro, exangue, incapacita-o de reagir e ele se vê balbuciando um agradecimento e senta-se como um autômato no lugar oferecido. Percebe-se observado pelas pessoas próximas e, sem nenhuma razão lógica, imagina-as cientes de suas anteriores intenções. A náusea sobe-lhe pelo esôfago, trazendo consigo um gosto amargo de ridículo. Como fuga, fecha os olhos.
            O trem, indiferente, continua a viagem e pára nas estações; pessoas descem, outras sobem e o homem continua de olhos fechados. De repente o vagão quase se esvazia, e ele nota ser a estação da Sé, onde deve descer. Levanta-se, trôpego, e sai, antes que a porta feche.
            Daquele dia em diante ele passa a olhar as mulheres de modo paternal. Deixa crescer a barba e não pinta mais os cabelos. A esposa aprova o resultado, só não entende por que o marido mudara de ideia, assim de repente. O que teria acontecido?


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