José Carlos
Montanha nasceu mirrado, cresceu mirrado e mirrado se tornou. De grande
conservou apenas o sobrenome. Criança frágil, foi saco de pancadas dos
coleguinhas de escola; moço fracote, foi jogador reserva; homem feito, usado
como padrão de insignificância. E, no entanto, tinha lá suas ambições. Queria
ser feliz.
Desmentindo todos os axiomas das
sete psicologias não era complexado, levava numa boa as gozações de que era
alvo e até se divertia com elas. Esse bom gênio conseguia desarmar os espíritos
e fazer amigos, que o estimavam com sinceridade.
Como todo José Carlos, seu apelido
não podia deixar de ser Zeca; naturalmente começou como Zequinha, mas, com os
anos, acabou mesmo por virar Zeca, evolução natural, comum aos inúmeros homônimos,
porém, diferente destes, aplicado somente no âmbito familiar, dado que, fora de
casa, ele era só Montanha, o que, aliás, não é de se estranhar, pois a lógica
popular, embora desconhecendo Heráclito, funciona segundo seu princípio, que
diz que a união dos contrários é que move o mundo. O minguado porte físico do
Zeca, contrastando com a enormidade de seu sobrenome, acabou por fazê-lo
conhecido porta afora por Montanha. Nada mais impróprio para designar o exíguo
indivíduo, mas é assim que funciona a humanidade: quando o sujeito é muito
pequeno, o nome que lhe cai bem é sempre grande. Que o digam os Grande-Otelos
da vida. E vive-versa: os grandões, não raro, são chamados de pequeninos.
Estas explicações desnecessárias
servem apenas para dizer que o nosso José era Zeca para os íntimos e Montanha
para o mundo.
Terminada a escola básica, fez ele
um curso técnico e se graduou como especialista gráfico. Eficiente, não lhe
faltou um bom emprego. Viajava amiúde para assistir e dar manutenção a parques
gráficos. O salário razoável mais alguma economia de diárias deram para montar
apartamento e casar com Mariquita, uma moreninha faceira que insistia em lhe
acelerar o coração e lhe acender o fogo das partes baixas. A bem da verdade ela
não lhe acendia aquele fogo, apenas o ativava, pois o Zeca parece que já tinha
nascido com o fogo aceso: não podia ver mulher pequena que se empinava todo. E
tinha sorte com as danadas; simpático, bem falante, estava sempre bem servido,
pois, embora mirrado, o Zeca não era feio, ao contrário, fora talhado com
proporções corretas. O desenho era bom, o que lhe faltou foi matéria prima. Por
esta razão, apesar da exigüidade do conjunto, não fazia feio na guerra dos
sexos, desde que as oponentes fossem também, de sua parte, modelos de escassa
carnadura.
O tempo passa, o conceito
profissional se firma e o Zeca é promovido na empresa; agora é consultor.
Continua a viajar, mas agora com pompa e circunstância.
O tempo passa outra vez e o agora
não mais Zeca, mas o Senhor Montanha, alcança a felicidade plena; tem ele suas
quatro preciosas mulherzinhas: a Mariquita, primeira esposa, de São Paulo, a
Carlotinha, mineirinha trigueira de Belô, a Carmencita, indiazinha paraguaia de
Foz do Iguaçu e Amandinha, de cabelos dourados, flor dos pampas, de Porto Alegre.
Todas felizes, todas satisfeitas, que o fogo montanhês continua aceso.
Bendito fogo, que fez Montanha ir
colecionando mulheres como o artesão que vai pondo contas em seu colar. E como
o homem é honesto, fez questão de sacramentar as uniões na igreja e em
cartório; casou com todas. Foi bígamo, trígamo e agora era tetrágamo.
O tempo passa pela terceira vez e
Montanha trava conhecimento com o Corão, provavelmente na cidade de Foz. Ali,
maravilhado, tem a revelação de que ao homem é dado possuir várias esposas.
Nada mais lógico, nada mais justo! A firma na qual trabalha já é agora
internacional e tem interesses no mundo todo. Montanha, que já aprendera
inglês, é designado a supervisionar os negócios no norte da África. Instala-se
em Marrocos, com as quatro mulheres e converte-se ao islamismo. E desta forma,
contrariando a sabedoria popular, demonstra, talvez por vez única, que não é só
Maomé que vai à montanha, mas também, que Montanha pode ir a Maomé.
O tempo passa pela quarta e
derradeira vez e nos traz notícia de que Montanha arrumou três novas
mulherinhas bérberes, atingindo assim as sete esposas permitidas pelo Corão.
Pelo jeito, continua fidelíssimo às leis do Islã.
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