(Com intervenção indignada do Amigo
Leitor)
A história que vou escrever é
verdadeira, embora tenha alguma tinta de conto de fadas. Se parecer irreal, o
defeito é meu, não da história.
Oriundo da velha bota, Matteo
Massari emigrou ainda menino, com os pais, e julga-se tão brasileiro como eu e
você. Nada mais justo: gosta de praia, futebol e mulher, como qualquer de nós,
mas tem lá seu fetiche por peitos e aí a gente desconfia de algum gene
norteamericano transviado. A seu favor, porém, ao contrário dos novos saxões,
não os aprecia volumosos e sim bem formados, com linhas de protuberância suave a
desenhar atrevidas curvas catenárias, que parecem desafiar as leis da
gravidade, embora delas sejam produto. Gosta também, o homem, de mamilos
salientes, ligeiramente escurecidos em relação à pele do entorno.
Vê-se logo que não será um conto de
fadas para crianças, mas também, me perdoe o leitor desavisado, não será um
conto erótico, embora o assunto sejam mamas. Qualquer pessoa honesta que se der
o trabalho vai reler o parágrafo anterior e concordará que não foi praticada
nenhuma abordagem sensual, tendo o uso do vernáculo se limitado a escolhas
sóbrias. Em segundo lugar, e esta passa a ser uma despretensiosa observação
filosófica, é o estranhamento que acomete varões, assinalados ou não, em
relação ao generalizado hábito feminino de usar peças de apoio aos seios com
forração de espuma, para disfarçar a saliência dos mamilos. Ora, se o objetivo
do bem vestir reside em apoiar o jogo da sedução, por que esconder um chamariz
tão poderoso?
Voltando à história, registre-se não
ser gratuita a caracterização feita de Matteo. Algumas personagens, reais ou
inventadas, costumam se distinguir por algum traço específico, seja uma idéia,
um gosto, um defeito, traço este que contribui para lhes conferir realidade.
Embora descreia eu de invenções, julgo existir algum mérito na criação de
figuras fictícias, compostas à maneira de quimeras pela junção de detalhes
verdadeiros, assim como são cosidos os retalhos para formar uma colcha. Nem
sempre bela será a colcha, pois a beleza a poucos é permitida, mas que sirva
ela ao menos para cobrir o corpo sem que o pé esteja de fora. Dito isto, creio
que fica implícito que o traço que distingue o nosso Matteo é sua fixação
edipiana pelos seios femininos. Fosse ele personagem inventada, talvez não
fosse tão nítida essa preferência. Se alguma dúvida ainda perdura na cabeça do
leitor, trago-lhe uma informação adicional bastante significativa: ao registrar
seu endereço de correio eletrônico, entre as inúmeras variáveis de que pôde
dispor, escolheu a reveladora “mamas” seguida de arroba etc., palavra composta
pelas primeiras sílabas do nome e sobrenome. Suponho que isto revele os
contornos da fossa abissal existente em seu subconsciente devasso. Se vivo,
Freud explicaria.
Sabido que o mundo não é justo,
segue o corolário de que a vida costuma nos pregar peças. Matteo não foi
exceção. Bem apessoado, confortavelmente posicionado na escala de dotes
materiais e intelectuais, aprimorou-se na escolha da mulher perfeita, aquela
que seria sua companheira para toda a vida. Não foi fácil nem rápida a tarefa,
tomou-lhe anos. Não que tenha sofrido com a demora, pois passou-lhe pelas mãos
beldades de todas as raças, com cores de variegado espectro, mas todas elas com
as mesmas características de seios e mamilos (favor rever a descrição constante
do segundo parágrafo).
Escolhida afinal a candidata ideal,
deu-se o casório com pompa e circunstância. Terminaria aqui a história com um
“foram felizes para sempre” se este fosse um conto infantil. Mas não é o caso.
Por isso apelo para a paciência do leitor e pespego-lhe mais alguns parágrafos.
O mundo põe e a vida dispõe. Pôs-lhe
o mundo nas mãos a mulher ideal, mas quis-lhe a vida roubá-la. Em sua
distribuição aleatória de males reservou-lhe à mulher um câncer de mama.
Terrível doença, trágica batalha! Quimioterapia, radioterapia, mastectomia,
providências a se suceder, esperança de vencer o mal. E lá se foi o seio – tão
lindo! – decepado. Matteo, inconsolado, daria o braço direito se preciso,
venderia a alma ao diabo. Mas o diabo não aceitou o negócio, não compareceu nem
mandou representante. E agora, como seria? A mulher, com um seio só. Teria ele
coragem de olhá-la outra vez? Chegar perto, encostar a mão naquela ausência? Matteo
delirava, tinha pesadelos. Não comia, definhava.
Passou o tempo; ele sempre passa. A
mulher volta para casa. De noite, envergonhada e temerosa, desnuda-se para Matteo.
Que surpresa! O seio está lá, incólume, mamilo arrebitado.
Agora, sim, concluo: foram felizes
para sempre,
Seria este o fim da história, não
fosse a manifestação furibunda do Amigo Leitor, inconformado com um final feliz
a premiar a figura repulsiva do protagonista que, segundo ele, não passa de um
grandíssimo fedepê. Tipo nefando, desclassificado e recalcado, é o que ele é.
Quanta ironia e escárnio com o sofrimento alheio! Merece ser feliz para sempre
um sujeito que, possuído de uma tara atávica, tão somente lamenta e chora a
perda de seu brinquedinho de prazer, sem se importar com o terrível drama da
mulher, que eleita foi por ele entre muitas outras? Parece patético? Não é.
Confesso que fiquei tocado com estas
críticas, concordo que Matteo não é a personagem dos meus sonhos, mas que
fazer? Sou apenas um escriba, não tenho o dom de alterar a realidade. Matteo
existe no mundo real e ele é assim mesmo. Poderia talvez mata-lo, dar-lhe uma
cirrose galopante, mas seria apenas atingir a personagem e não o homem de carne
e osso, seria falsear a verdade e, pior, violentar os poucos princípios que
ainda respeito. Julgo que está ele a merecer algum castigo exemplar, mas não
sou eu que vou aplicá-lo; talvez a vida o faça, embora não o creia. Repito o
que disse acima: o mundo não é justo. Estou cansado de ver injustiças
prosperarem e os injustos se dar bem. De minha parte não creio no aqui se faz,
aqui se paga. Contudo, sensibilizado pelo desconforto do amigo e movido por
inconfessável desejo de mantê-lo meu leitor fiel, possivelmente o único,
concedo em reescrever o último parágrafo desta triste história, logo após a
revelação de que o seio da mulher está lá, incólume.
Agora, sim, poderia concluir: foram
felizes para sempre, mas abstenho-me de dizê-lo, pois o futuro a Deus pertence.
Poderá Matteo ser atropelado amanhã por um ônibus lotado, no cruzamento da
avenida ou, pior, a doença da mulher pode voltar em recidiva atroz. A vida
muitas vezes é uma caixa de Pandora cheia de males, mas tenho fé de que para a
moça dos seios lindos o futuro lhe reservará o último e mais valioso dom, mal
escondido no fundo da caixa, a esperança.
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