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ONTEM E HOJE


Naquela noite fria de fim de inverno meu pai esperava sozinho a invasão dos mineiros. Era o ano de 1932 e aquele moço de 24 anos, a bem da verdade, ainda não era meu pai, mas viria a sê-lo cinco anos mais tarde. A revolução constitucionalista de São Paulo havia inflamado o ânimo cívico da população da pequena cidade de Orlândia, ao norte do Estado, na região da alta mogiana. Voluntários se apresentaram para lutar pela causa, o meu pai um deles. Uma brigada foi formada e colocou-se, via telégrafo, à disposição do comando revolucionário da capital. A resposta não tardou a chegar: esperava-se a qualquer momento uma invasão das tropas de Minas Gerais, que deveriam vir, seguramente, pelo caminho que passava por Orlândia. A força local deveria impedir a qualquer custo o avanço do inimigo. Montaram-se sentinelas no topo da colina, dia e noite, para vigiar a estrada que vinha de São Joaquim. Os dias passavam lentos e as noites arrastadas, e nada dos mineiros. O número de sentinelas foi se reduzindo, até que ficou um só. Naquela noite era o meu pai, tiritando de frio, com a espingarda apoiada no chão, de pé para não dormir. O céu escuro, carregado de estrelas tão graúdas, competia com o pisca-pisca tênue das luzes de São Joaquim, a quase três léguas de distância.

Mas os mineiros não vieram naquela noite, nem em nenhuma outra.
Esta história, ouvi da boca de meu pai, que gostava de contar histórias. Faz tão pouco tempo que tudo aconteceu e no entanto, um menino de hoje, se ouvi-la, pode até imaginar que tudo se passou na pré-história. A coisa hoje seria muito diferente; a invasão viria documentada na televisão, via satélite e meu pai não precisaria ficar passando frio na noite, ao relento. É certo que tudo seria bem menos romântico, mas sem dúvida muito mais eficaz.
Contava meu pai, também, o rebuliço que foi a chegada do primeiro rádio na cidade. Era um aparelho Philips importado, de mais de meio metro de altura, cheio de válvulas. Seu dono era um fazendeiro abastado que, à tardinha, colocava-o no peitoril da janela, virado para a rua, onde a multidão de curiosos se juntava para ouvir aquela maravilha. Cruz credo, quem diria que dentro de um caixotinho daqueles pudesse ter um homem falando! Só podia ser coisa do demo, esse mundo estava mesmo perdido...
Sempre achara esta história do rádio um tanto forçada, mas acabei mordendo a língua. Experiência parecida tive eu mesmo na década de 50, quando surgiu a televisão. O melhor botequim da minha rua comprou e instalou um aparelho bem no fundo do salão, em cima de um móvel alto. Na frente dispôs mesas e cadeiras. Para ocupá-las, exigia consumação mínima de uma cerveja por pessoa. A programação começava às seis horas da tarde e uma pequena multidão enchia o bar. Os mais pobres e os atrasadinhos se contentavam em ficar de pé, porta afora, mas não perdiam aquele espetáculo. Digno de nota é o silêncio que se fazia tão logo aparecia no vídeo a figura estilizada do indiozinho da Tupi – silêncio religioso. A tela era quase redonda e a imagem chuviscada deslizava na vertical ou inclinava-se perigosamente sobre a horizontal até formar faixas indistintas. Um potente assobio se alevantava da platéia, em uníssono, chamando a atenção do dono do bar, que apressurado vinha mexer nos controles para sanar a falha.
Não deixo de lembrar de tudo isso quando vejo tevê. Hoje a tela é plana, a imagem de alta definição e o som envolvente, tudo à mercê de meu dedo todopoderoso, senhor inconteste dos circuitos impressos do controle remoto. Quando lembro daquele passado que foi ontem, não posso evitar este sentimento: sou um dinossauro!
Naquele tempo, uma viagem de Orlândia a São Paulo era uma aventura e exigia toda uma preparação prévia. Planejava-se a roupa que se ia usar, os agasalhos e cobertores, o farnel de alimentos e o aviso aos parentes. Anotavam-se recados e encomendas e não se podia esquecer dos presentes. A viagem se fazia de trem, com a Mogiana de bitola estreita até Campinas, onde havia baldeação para a Companhia Paulista, esta sim, moderna, com mais conforto e locomotivas poderosas. A estação de Campinas era enorme e movimentada e parecia representar a fronteira do progresso. Durava o dia inteiro a viagem e os bancos da segunda classe ficavam mais duros a cada hora que passava. Eram feitos de ripas de madeira, colocadas horizontalmente e espaçadas. Sempre me perguntei se o objetivo do construtor, seguramente um sádico, não era mesmo o de tornar insuportável a vida do passageiro. Pela janela aberta, divertia-me a olhar para frente e para trás; ora via a máquina fumarenta, ora os vagões do rabo do trem, que, sem vontade própria, deixavam-se arrastar pachorrentamente. Vez por outra um carvão entrava no olho e a mãe vinha assoprá-lo. Na lateral da estrada, tufos de erva-cidreira se sucediam, de maneira ininterrupta, por quilômetros e quilômetros. Nunca descobri a razão que levava a companhia a plantá-los.
Quando o trem parava em uma estação, meu pai descia à plataforma para tomar café. Eu sempre ficava com medo de que ele se distraísse e viesse a perder o trem. O chefe de estação, com boné de fita vermelha, trilava o apito, a locomotiva soltava uma fumaça mais branca, as rodas se moviam e o gemido ia num crescendo: agora eu vou, vou, vou... agora eu vou, vou, vou... E meu pai não aparecia! De repente a porta do fundo do vagão se abria e ele entrava, calmo e senhor de si, não adivinhando a aflição que me causava.
Uma vez, não sei porque, ao invés de fazermos baldeação, descemos em Campinas. Já era noite fechada. Fomos à casa de uma mulher que nos recebeu bem, mas não disfarçou a surpresa da visita. Explicou que a família já havia jantado mas que iria ver o que podia arranjar para nós. Eu estava com tanta fome que a barriga doía. Após o que pareceu ser uma eternidade, uma grande panela de arroz ficou pronta e a mulher pôs a mesa. Nunca comi um arroz tão gostoso! Que digo? Nunca comi nada tão gostoso! Aquele arroz branco e fumegante por certo era ambrosia dos deuses.
Estas lembranças me ocorrem no momento por estar eu acabando de chegar de viagem de São Joaquim. Não faz ainda quatro horas que de lá saí, de carro, e a viagem foi tranqüilíssima. A pista da Anhangüera está toda duplicada e o asfalto parece mesa de bilhar. Estou também com fome, não porém aquela do menino que era. Acho que vou pegar uma lasanha no congelador e esquentar no microondas. Daqui a cinco minutos estarei jantando. Por certo a lasanha não terá o mesmo gosto daquele arroz de quarenta anos atrás, mas que é mais prática não há dúvida.
Em um daqueles anos, devia ter eu sete ou oito de idade, estava passando as férias de julho em Orlândia, na casa do padrinho Mendes. Esse padrinho, que Deus o tenha, era muito sovina, de modo que me surpreendi bastante ao ganhar dele um par de tênis brancos. Era meu primeiro par de tênis. Eram eles de pano, com solado de borracha. Calcei-os imediatamente, eufórico. Saí para a rua e comecei a correr, sentindo a energia que deles se desprendia e me subia pelas pernas, irradiava pelo corpo e explodia na garganta. Saboreava como glutão a maciez e a leveza dos tênis e, logo, não mais corria, voava. Levei-os para conhecerem toda a cidade, a estação, o matadouro, a igreja matriz, a praça e a sorveteria. Também as ruas, todas elas, e as avenidas. Passamos várias vezes em frente ao cinema, fizemos a volta olímpica ao campo de futebol. Mas não íamos sós. Acompanhava-nos o vento, que me soprava de leve no rosto para refrescar o sangue fervente. Quando voltei para casa, à tardinha, a borracha da sola havia se descolado do tecido e meus pés pareciam vazar pelas aberturas. Não havia mais conserto, meus novos amigos foram direto para a lata do lixo e eu para o castigo, de pé no canto da sala, nariz grudado na parede. Meu primeiro par de tênis tinha durado apenas um dia.
Quando as férias terminaram e voltei para São Paulo, trouxe comigo um presente do Tuneca, o filho do padrinho. Era uma vitrola usada, já velha, mas que funcionava. Junto com ela vieram alguns discos franceses, de marchas militares, uns cinco ou seis. Possivelmente a própria vitrola também devesse ser francesa; não me lembro. Era montada em uma maleta de madeira, forrada de couro. A engenhoca era movida por mola, que se armava ao giro de uma manivela. O braço era articulado como um cotovelo e terminava em uma cabeça redonda, que amplificava o som da agulha, localizada em sua parte inferior. Era tudo mecânico, não recordo de nenhum componente elétrico. Essa vitrola portátil foi minha primeira máquina sofisticada. É certo que o som era fanhoso e que a velocidade do disco ia perdendo impulso, até que fosse preciso dar corda de novo. Mas nada disso diminuía o prazer e o orgulho de ser eu o proprietário daquela maravilha.
Hoje, enquanto faço a digestão da lasanha, ouço o som poderoso da Filarmônica de Berlim, na Quinta de Beethoven. Gravação digital com leitura leiser, nem Karajan poderia querer melhor. Ao lado, no sofá, o presente para meu filho, a última novidade em tênis de corrida. Parece resistente e, se for verdade que absorve o impacto e o devolve em forma de impulso, este sim é que teria sido ideal para minha aventura de férias. Pena que o progresso chegou tarde para mim.
Bom, não é bem assim. Estou sendo dramático mas um tanto injusto. Basta lembrar que amanhã é dia de ir ao dentista e nem por isso vou perder o sono esta noite. Perco o sono, isso sim, se começar a lembrar dos tratamentos do Dr. Fraga. Coitado do português, a culpa não era dele, era até tido como um dos melhores dentistas do bairro. Anestesia não se usava, a não ser para arrancar dente. Era tudo feito a sangue frio, com aquela broca movida a cordões e roldana que fazia todo o crânio vibrar. Tratamento de canal era demorado: ia-se ao consultório todos os dias só para trocar de algodão. O remédio ia matando o nervo, mas nunca matava de todo. Na hora de extraí-lo o Dr. Fraga usava aquela agulhinha retorcida como saca-rolha. Ai, como doía! Aquele braço grosso e peludo, girando e girando a agulha sem piedade, causava uma dor intensa e em um instante produzia a transmutação do homem inteiro, que, de um momento para outro, parecia virar um gorila de avental branco.
Hoje a coisa toda é muito mais suave, tem anestesia para tudo, tem broca de alta rotação e qualquer doutorzinho iniciante não dispensa um aparelho de raio X em seu consultório. Não sei porque ainda tem gente com medo de dentista. Deve ser trauma de infância. Outra diferença é que antigamente não havia hora marcada e a gente ficava um tempão na sala de espera, aguardando a vez. As conversas eram inevitáveis e sempre tinha gente interessante. Ficou-me na memória a imagem de uma velha pequenina e enrugada, não tanto por sua aparência, mas pela história de sua vida. Contou que havia se casado com treze anos e que a primeira vez que viu o marido foi no dia do casamento. Ele era homem feito e ela o chamava de senhor. Tiveram dezessete filhos e ela continuou a tratá-lo por senhor até o dia em que ele morreu. Nos dias de hoje, quando a mulher tem três filhos já é demais. O casamento tardio e o trabalho fora da casa trouxeram-lhe independência e os anticoncepcionais a libertaram do cativeiro biológico. A mulher hoje não é mais só uma mera matriz reprodutora, uma abelha rainha; conquistou dimensão humana.
Puxa, como me inflamo ao falar de mulher! Gosto tanto delas que tenho até um telescópio assestado na janela para ver as vizinhas. Com ele, até as que estão a mais de um quilômetro entram no meu raio de ação. Mas, se sou tão depravado a culpa é do Céu, que me frustrou. Quantos anos esperei pelo Cometa! As histórias que meu pai contava sobre a aparição dele, em 1910, não saíam da minha cabeça. Sei que pouca lembrança própria devia ter ele do Cometa – era muito criança; mas viveu a época, ouviu as histórias. Contava que ocupava um quarto do céu e que noite após noite lá estava ele, belo e terrível. As pessoas tinham muito medo das  coisas ruins que podia trazer. A tia Mariela, já grandinha na ocasião – tinha quase nove anos –, escondera-se embaixo da cama e de lá só saiu quando não agüentou mais de fome. Pois muito bem, esse visitante ilustre havia marcado seu retorno para o ano de 1986 e certamente me encontraria a postos, devidamente aparelhado para recebê-lo. Por isso tinha eu esperado mais de trinta anos e acabara de comprar um telescópio. Mas não era somente eu que esperava com ansiedade. Pela primeira vez em toda sua longa história o Cometa estava sendo saudado pela humanidade com boas vindas. Não assustava mais. Em lugar de apreensão, a expectativa. E foi aquela decepção! Ao invés do espetáculo brilhante, o Cometa medíocre. O que fazer do telescópio? Depravei-me.
Talvez até nem seja culpado o Cometa e a depravação já existisse, anterior a ele. Não é sintoma dela o gosto de tomar banho em banheira? Imerso em água quente até o pescoço e envolto em espuma, massageado por jatos d’água, não estarei usufruindo prazeres libidinosos? Fosse eu religioso, perguntaria a meu confessor. Mas creio que o caso não é tão grave e afinal não passe de um inocente mecanismo de compensação. Tenho um amigo que passou fome quando criança e hoje compensa comprando comida em exagero. Se precisa dois pães, compra quatro e, quando chega em casa à noite, está sempre a sobraçar um enorme pacote, que tem de tudo. E olha que ele mesmo é de comer pouco. É fome psicológica. Meu caso deve estar ligado aos banhos frios de tanque, quando criança. Depois de reinar o dia todo, naquela santa terra roxa que presenteou Deus a Orlândia, eu ficava que era uma mancha só. Minha mãe me colocava então no tanque de lavar roupa e abria a torneira. Para arrancar da pele aquela terra que gruda como cola, esfregava um caco de telha e sabão de cinza. Creio que é por causa daqueles banhos que hoje sou amante da sofisticação. Nenhum motivo freudiano recalcado.
Ah, como era fedorento o sabão de cinza! Tia Mariela era quem fazia, era uma exímia fabricante e trouxe para São Paulo a receita. Mas parecia que as tias marielas de todo mundo tinham feito a mesma coisa. Em um determinado dia, que sabiam ou adivinhavam, todas elas, às cinco horas da manhã, formavam fila na boca de um cano que saía da parede da fábrica de tecidos, à beira de um riacho. Não demorava muito e o cano despejava aos borbotões um líquido espumoso e quente, que elas recolhiam em baldes e latas. Melhor é dizer que nós recolhíamos porque, junto com as tias marielas, um exército de meninos disputávamos um lugar na boca do cano. Cheias as latas, voltávamos com as pesadas cargas para casa. Então a tia acendia uma fogueira no quintal e colocava a lata para ferver. De vez em quando mexia com um pau. Quando chegava no ponto – que só ela sabia qual era –, jogava cinza dentro e continuava a mexer, engrossando o caldo. Depois punha a massa no piso cimentado e deixava secar ao sol. Então era só cortar em pedaços e estava pronto o sabão de cinza, que era usado para lavar tudo, louça, roupa e gente. Até que limpava bem, duro era o cheiro.
Nos dias atuais a gente tem um sabão para cada finalidade; o de banho, então, até mudou de nome, não é mais sabão, afrancesou-se, hoje é sabonete. E como cheira gostoso! Dá até vontade de tomar banho. O progresso mudou mesmo muita coisa. Às vezes uma simples palavra é reveladora da profundidade da mudança. Hoje, por exemplo, quando uma pessoa diz vou ao centro, toma o metrô na estação Tatuapé e dez minutos depois está na Praça da Sé. Há trinta ou quarenta anos, a viagem era tão longa e demorada que a gente dizia que ia para a cidade. Ficava implícita, na própria palavra, uma barreira divisória entre o centro e os bairros mais distantes. O Tatuapé, apenas a seis quilômetros da Praça Clóvis, era tido como bairro de periferia. A rua Tuiuti, a mais importante da região, era a única que possuía calçamento e iluminação. Em frente de casa, onde hoje está a estação do metrô, ficava o campo do Tupi; atrás ficavam os do Urca e do Cruzeiro. Aos domingos jogavam-se partidas de futebol, com os times uniformizados e torcidas fanáticas, mas durante a semana o espaço era das crianças, para jogar bola, empinar pipas ou rodar pião. O único caminho para a cidade era a Avenida Celso Garcia, por onde passavam os bondes e ônibus. Andava-se uns dois quilômetros e chegava-se ao Hospital do Brás, onde meu pai foi operado do estômago. Eu devia ter uns dez anos, então. Lembro-me que saí de casa para visitá-lo e resolvi levar um presente: comprei dez balas de amendoim e pedi que fossem embrulhadas. Dei-as a ele, quando entrei no quarto, mas ao me despedir para ir embora ele as devolveu. Lembro-me de que não estranhei o fato e peguei de novo o pacote. Chupei todas as balas no caminho de volta. Estavam deliciosas.
Queixava-se meu pai de ter sofrido muito no pós-operatório por casa de uma sede terrível, proibido que estava de beber água nas primeiras 24 horas. Comparo com minha própria operação de estômago, de cerca de um ano atrás. Não senti sede nenhuma, embora também tivesse ficado todo um dia sem beber. Mantiveram-me hidratado com soro.
Quando meu pai voltou para casa, veio de táxi. Pobre só andava de carro, naquele tempo, quando ficava doente ou quando morria. Poucas pessoas tinham carro, que aliás na época se chamava automóvel. Tirante os de praça, só rico podia se dar ao luxo de ter um . Quando o Dr. Paulino, médico amigo do meu pai, vinha visitar algum doente em casa e parava o carro na porta, a molecada da rua se juntava para vê-lo, respeitosa, nem a mão encostava. Olhava-se pela janela o painel cheio de instrumentos e os bancos estofados. Tudo tão bonito e macio! Eu acreditava que para se ter automóvel era preciso ser médico. Quando crescesse eu também seria um médico e teria o meu carro. Metade do sonho realizei. Ficou, no entanto, insolúvel uma pergunta: por que todos os automóveis daquela época eram pretos? Agora eles são de todas as cores, vermelho, azul, amarelo. O progresso os tornou mais baratos e hoje qualquer um tem seu carrinho na garagem. Aliás esse bandido de progresso é responsável por coisas que até Deus duvida. Quem diria que eu aposentaria minha velha Underwood? Igual ao Fernando Sabino, também eu sempre achei a Underwood a melhor máquina de escrever já inventada. A dele não sei de que ano era, que ele esquece de mencionar na crônica, mas a minha, seguramente é dos anos quarenta. O teclado é macio e o tipo de letra, elegante. Mas não é que, devagar, sem perceber, acabei fisgado por esse monstro chamado computador? De início foi mais uma curiosidade, uma brincadeira, mas o tal programa de texto foi oferecendo suas facilidades. Deixa que eu margeio, quer corrigir aquela palavra? prefere trocá-la por outra? quer suprimir esta frase? intercalar esta outra? Até de ortografia o danado entende! Não me preocupo mais em saber se a palavra se escreve com g ou com j, ou com s em vez de z. Por comodismo, sem me dar conta, fui esquecendo da Underwood, surpreendido pelos novos dotes, encantado pelas promessas. Gozei todas as possibilidades e acabei me apaixonando. Que fazer? Sou um volúvel.
Mas apesar de tudo, ainda me sinto um dinossauro. Estou sempre inclinado a achar que antigamente é que era melhor. Mas sempre vem alguém e me mostra que hoje não se morre mais de varíola e que agora a tuberculose tem cura. Pode até ser que eles tenham razão. Pelo menos manga com leite, que era veneno, hoje virou vitamina. Quem sabe, até, se o futuro não será ainda melhor? Quem sabe não terei mais sorte que minha mãe? A coitada sofre da coluna e vive deitada. Já fez forno, tração, ondas curtas, tudo sem resultado. Até colete ortopédico está usando, mas as dores continuam. Se eu chegar aos 83 anos, idade que ela tem agora, é muito provável que os tratamentos já terão evoluído, para benefício da minha própria coluna, que, naquela altura, estou certo, deverá estar em petição de miséria. Mas mesmo que não suceda isso com os vários tipos de tratamento, restará sempre outra solução e, para isso, já comecei a fazer um pé-de-meia. Se a coluna doer e o dinheiro não faltar, mudo-me para a Lua. Lá vou pesar um sexto. Aliviada do corpo, a coluna só precisará carregar o peso dos pecados. Se eles não forem muito, volto a ter a agilidade de um menino. Se.

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