Comprei
um caderno novo. Sem manchas, sem marcas, não fossem as vinte e poucas linhas
paralelas em cada página, eu poderia imaginar estar diante da famosa “tabula
rasa” dos filósofos. No entanto, as linhas horizontais, que se sucedem em
intervalos idênticos, perfeitamente retas, dividem o espaço metodicamente e
parecem induzir o mortal que por elas se aventure a caminhar direto, sem curvas
ou atalhos. Bom para mim, que derrapo nas curvas e me perco nos atalhos.
Contudo, apesar desta ligeira limitação, a página vazia, tábua limpa, aceita o
que quer que eu escreva. Nela poderei dizer o que não foi dito, afirmar
verdades novas, imaginar mundos e fundos, criar o incriado, qual um deus
onipotente.
Mas
aí me lembro que Deus escreve certo por linhas tortas; talvez por isso os
cadernos sejam feitos com linhas retas, para que o escritor não venha a se
imaginar mais do que é. De qualquer modo, uma página em branco é sempre um
convite, um desafio. É como o par de tênis novos que o moleque do conto de
Bradbury ganha no começo do verão; com eles correrá caminhos novos e velhos,
pisará ravinas, galgará fardos de feno, surpreenderá o Sol à tardinha, no ato
de afofar uma nuvem do horizonte para nela se deitar; com eles saudará o nascer
da Lua e o acender das estrelas. Com eles viverá o verão novo, a quentura
renovada, os cheiros rememorados, os amores renascidos.
Mas
o verão um dia acaba, o vento volta a soprar frio, o azul do céu se mancha de
cinza, a noite entra pelo dia e lhe come um bom bocado e uma tristeza parece
invadir o mundo. O par de tênis, então, é posto no fundo de um armário e no
verão seguinte será substituído por um par novo. Guardará porém a lembrança de
dias felizes e, ao ser descartado, talvez um menino pobre o carregue para
outras aventuras, novas correrias, novos amores, pois sempre haverá verões.
Não
há, pois, que ter pena dos tênis velhos, eles carregam lembranças, mas há que
se ter inveja dos tênis novos, estes, carregam esperança.
O
mesmo se dá com os cadernos novos: eles, aristotelicamente, têm em si a
potencialidade de se tornarem obras primas. Porém, se escritos e não
descobertos ou, descobertos, mas não reverenciados, passam eles à categoria de
entulho. Sua potencialidade de se tornar obras primas nunca se transformará em
ato. Com sorte, irão para reciclagem e, com mais sorte ainda, poderão vir a ser
novos cadernos, a provar a existência de alguma espécie de metempsicose da
matéria.
E
se, porém, ficarem aqueles cadernos escritos dentro de um baú? Perdidos,
esquecidos, jamais suspeitados, não poderão um dia voltar à luz e se tornar,
então, as obras primas que sempre foram?
Eu,
de minha parte, não sou modesto, reconheço. Confesso que guardo meus cadernos
velhos. Quem sabe um dia?
Mas,
chega de pensamentos puros e impuros! A página vazia me desafia. Iniciemos logo,
sem demora, uma nova crônica:
“Comprei
um caderno novo...”
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