Pular para o conteúdo principal

PEGADAS

É tardinha. O Sol, perto do horizonte, tinge-se de vermelho, talvez ruborizado de vergonha de se deitar tão cedo. Sonolento, distraído, nem se dá conta de que deixa escapar raios enfraquecidos que nem aquentam mais. E no entanto, há poucas horas, dardejava espadas flamejantes que queimavam terra e mar e faziam evaporar águas, povoando de nuvens brancas o céu desabitado de deuses.
Agora seus raios são oblíquos e tudo pintam com luz fantasmagórica, desenhando longas sombras pelo chão. Os seres, animados ou não, parecem se transfigurar e, inconscientes, transformam a realidade do mundo em um mundo novo.
Neste novo mundo ando eu por esta praia, e meus pés vão pisando a areia úmida e nela deixando marcas. Não fosse oblíqua a luz do Sol, talvez nem percebidas seriam elas, mas, com a inclinação dos raios, fácil é se notar o contorno dos meus pés descalços, a pressão plantar, o desenho dos dedos. São pegadas frescas, que vêm se juntar a outras mais antigas, de pés que por aqui passaram há poucas horas. Vejo e analiso; como um Sherlock renascido procuro decifrar as cenas que gravaram na areia estas marcas. Estas aqui, sem dúvida, são pegadas de irrequietos pés infantis em corridas loucas; estas outras, de arrastados e pesados pés de algum homem velho; estas, leves, delicadas, certamente serão pegadas de alguma mulher jovem, quem sabe enamorada. De quem? Será deste homem de pés grandes, que paralelamente andou ao lado dela? Andaram, e por aqui pararam, e neste círculo rodopiaram – em dança de amor? As pegadas dos pés grandes, frente a frente com as da moça, às vezes nelas roçando, outras, a elas se sobrepondo, num acasalamento de marcas e de vontades, todas elas parecem revelar namoro de adolescentes, com os arroubos da idade. Mas que bobagem! Todos os namoros – sabem-no as gentes – são sempre adolescentes; ainda que velhos sejam os protagonistas, quando estão no ato de amar, esquecem câimbras e lumbagos e transvestem-se – ou seria melhor dizer transdespem-se? – em adolescentes, como se seguindo estivessem o mais antigo dos roteiros, imutável desde o começo dos tempos.
Pois aqui estão estas pegadas, assinatura do amor vivido. Dançam, rodopiam, afastam-se e se achegam, fogem e se perseguem, perdem-se agora para mais adiante se achar, num resumo em baixo relevo daquilo que mais relevante a vida nos oferece.
Ao recriar estas cenas do amor passado, percebo que um sentimento bem presente me invade, indefinido, vago de início, mas logo muito claro – é inveja! Inveja deste casal apaixonado, inveja de suas almas leves, de seus castelos de sonhos, inveja do homem que no passado um dia fui. Sem querer olho para trás e vejo as marcas de meus passos, mais nítidas porque frescas, sobrepondo-se à ciranda desmaiada do casal enamorado. São pegadas de um homem só. Solitárias, pesadas, parecem contar uma história diferente, que contrasta de forma triste com a felicidade das pegadas leves do seu entorno.
Lembro-me de Machado e de seu discurso triste: nesta vida tudo passa. E, neste instante, como se houvesse acabado de ouvir o mestre e querendo provar seu acerto, vem o mar lançar esta onda inesperada, que regela meus pés nus e me sobe às canelas, onda que, refluindo, aplaina de novo as areias remexidas e apaga as marcas de pés, novas e antigas, como se quisesse mais uma vez – oh, faina desnecessária! – demonstrar a precariedade da condição humana, com seus prazeres e sofreres, desimportantes uns e outros.
Recomeço o andar e vou deixando atrás de mim novas pegadas. Pegadas solitárias de um homem só.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

AS MAL AMADAS

              Virgínia e Anália são idosas, mas não admitem, juntas têm mais de cento e quarenta anos, mas juram não passar de cem. Anália, por exemplo, é aquela que não quis ir pra Maracangalha com Caymmi. Ainda que antigas, têm hábitos modernos, gostam de andar aos domingos na grande avenida, desde que a prefeitura a reservou para passeio público. Por mero acaso, ou por constar do plano universal, também este narrador resolveu passear na mesma avenida neste domingo.             Verdade que elas têm hábitos modernos, mas não deixaram de conservar alguns antigos, entre os quais um que não é tão inocente: falar mal dos outros. Ah, todos sabemos como esse costume pode fazer mal aos outros, mas como faz bem aos praticantes! É um descarrego, um lava-rápido da alma. Inda mais se quem fala mal são duas senhorinhas de soma centenária. Qual prazer têm elas nessa etapa da vida, qu...

PIMPOLHO

              Já vão lá uns trinta anos que escrevinhei uma historieta sobre minha filha Mariana, a derradeira raspa do tacho, que nasceu quando eu fazia cinquenta anos. Desconfiava então que ela podia ser uma alienígena que vinha com seu povo invadir e conquistar nosso planeta. Pois bem, passou todo esse tempo e a desconfiança persiste. Está ela agora com trinta e oito anos e grávida do primeiro filho, que nascerá em dois meses.             O primeiro raciocínio que fiz, e olha que não sou bom nisso, é que ela não deve ser mesmo uma extraterrestre. Se o objetivo é conquistar a Terra, não faz sentido esperar tantos anos para ter o primeiro filho. O lógico seria tê-lo com dezesseis ou dezoito anos. Dessa maneira o exército invasor seria completado mais depressa. Por outro lado – confirmando que sou falho em deduções – pode ser que no mundo dos etês o desenvolver da vida se...

DESAJUSTADO

              Sonhar é normal, dizem médicos e filósofos, e não fazem mais que repetir o que sempre nos disseram nossas vovós. Há quem sonhe com o futuro, como será, e já então se pode distinguir duas espécies, os otimistas e os pessimistas, ambos normais se não caírem no exagero, que sempre é indício de desarranjo. Outros costumam sonhar com o passado, e creio que são a maioria. Também estes, se escorregarem pela rampa do exagero, serão igualmente desajustados. É o que tem acontecido comigo nos últimos tempos, escorregões, o que me leva à triste conclusão: sou um desajustado. Já vinha desconfiando disto antes mesmo de voltar a ter sonhos. Creio que todos passam por períodos sem sonhos, embora os entendidos afirmem que sonhos sempre os há, o que falha é a memória da pessoa que, despertando, deles não se lembra. Dizem mais, esses especialistas, que os períodos em branco costumam ser passageiros e a gente normal volta dos sonhos ...