Sexta-feira,
fim de expediente, toca o telefone: Bruno.
E
aí, meu velho, vamos para a noitada?
Sei
não, canseira, aquele maldito inventário veio cair na minha mão!
Deixe
os mortos pra lá e venha curtir os vivos, melhor dizendo, as vivas; Jane
recebeu uma prima do interior e vamos sair os três; com você arredonda. Ontem
conheci a tal prima. Rapaz, sabe a Sophia Loren do filme Girassóis da Rússia? Aquela
mulher que você vive dizendo a mais linda do mundo? Pois é igualzinha, a prima,
sem tirar nem pôr. Ê, sortudo que você é, queria eu! Pena que não posso. E aí,
vai perder essa?
Sei
não; vou pra casa, tomo um banho e depois a gente se fala.
No
caminho de casa, trânsito pesado, Chico vai pensando, pô, igual à Sophia dos
Girassóis, se eu for dá casamento e jurei nunca casar de novo, mas se não for
perco a mulher da minha vida. Deve ser exagero do Bruno, mulher igual à Sophia
não existe mais, Deus fez e perdeu a receita. Mas se for só a metade, inda
sobra. Vou, ah se vou!
Chico
para na farmácia da avenida e compra camisinhas.
Continua
lento o tráfego. Depois do dia estafante Chico acha que não merecia isto; põe
primeira, anda, para, ponto morto; primeira, ponto morto; devia comprar um
carro automático. Chega a casa com a perna doendo, suando na noite quente, toma
uma ducha, abre uma cerveja e come a salada de batatas que sobrou da noite
passada.
Eta
calor bravo!
Abre
outra cerveja e se escarrapacha no sofá; liga a tevê no jornal, engarrafamento
por toda a cidade. Tem de sair de carro, afinal não vai entrar em motel de táxi,
mas só de pensar a perna dói. Depois tem outra, o Bruno nunca foi confiável em
matéria de mulher, vai ver a dona não é tudo isso.
Eta
sofá gostoso! Fez bem ele em trocar aquele antigo, cheio de caroço; custou caro
mas valeu a pena.
E
o Bruno não falou mais nada sobre a mulher, vai ver é bonita mas chata, tipo
por fora bela viola. Para completar o dia só faltava passar a noite toda
escutando nhenhenhém. Afinal, a transa só é boa se tiver carne dura e algum espírito.
Por outro lado, hoje é o último capítulo da novela, quem será que matou o
Pacheco? E o sono? Não tem dormido direito, maldito inventário, queria deitar
mais cedo hoje. Pensa, pesa, sopesa. Valerá a pena? O Pessoa diz que sim, se a
alma for de bom tamanho, mas como é que se mede o tamanho de uma alma? A sua
própria ele nem sabe se existe, ultimamente tem virado ateu. Estaria ficando
velho? Em outros tempos iria sem pestanejar, ia em todas. Velho? Velho nada,
ficara é mais seletivo, gosto apurado, agora só ia na certa; contrariando a
doutrina do in dubio pro reo, na dúvida, não ia.
E
se a dona fosse mesmo a Sophia? Só de pensar o corpo amolecia no sofá,
elanguescido na recordação do filme antigo. A expectativa crescia em seu
interior, mas, por baixo dela, crescia também o receio da decepção. Não tinha
mais idade para grandes amores nem tampouco para desilusões. Foram-se os
arroubos da juventude, quando o coração bate forte e aguenta solavancos. Agora,
invés de vórtices a agitar o mar encapelado de seus sentimentos, preferia-os
comportados, a formar uma lagoa plácida. Gostava de se imaginar velejando
naquela superfície espelhada, timoneiro de mão forte a decidir o destino do
barco de sua vida. Pobre Chico! Os anos não lhe trouxeram sabedoria, desconhece
ele que a sorte madrasta é como uma tempestade imprevista que pode lhe cair de
repente sobre o barco e mudar o lago em mar revolto, e transformar a superfície
lisa em abismos tenebrosos, e transmudar seu ser em peteca de nereidas a brincar
o jogo da desventura.
Não
pensava porém Chico nestas considerações de tragédia grega; seu intelecto não
lhe permitiria. Pensava, sim, nos prós e contras da decisão a tomar, não se
alevantava ele do terreno da prática para alturas metafísicas. E a prática, em
mais de vez, é mais difícil que sublimar conceitos transcendentais. Pediu ele
ajuda a uma terceira cerveja. Que calor!
À
medida que sorvia a bebida gelada, um torpor gostoso começou a lhe invadir o
cérebro. A terceira cerveja, ajudada pelas duas anteriores, iniciava um trabalho
de amortecimento de neurônios. A vontade de Chico ia se enfraquecendo, sair de
casa requereria esforço e ele pôs isto na balança. Devia contar também com uma
possível decepção, que igualmente colocou na balança. No mesmo prato foi pondo:
a perna que doía, dormir tarde de novo, quem matou o Pacheco? E assim, à
maneira de um ourives desajeitado, foi pondo na balança imprecisa as teses da
defesa e da promotoria. Não demorou a findar o julgamento; o último argumento,
que veio a desequilibrar de vez os pratos a favor do não, foi talvez o mais
brejeiro: eta sofá gostoso!
Chico
ligou para Bruno, abriu um pacote de amendoim e atirou-se outra vez no sofá. Ia
começar a novela.
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