Benício é um burocrata, servidor
nível médio de um ministério secundário, homem de poucas letras. Sua vida não
teve nada de extraordinário e não seria matéria para nenhum romance ou novela,
salvo o capítulo final, que, pelo inusitado, poderia merecer uma crônica.
É bem verdade que crônica alguma
ficaria boa se explorasse só o lance final da tragédia de Benício. Necessário
se faz contar alguns antecedentes para que a história tenha algum sentido.
Mesmo assim, muitos ainda dirão que o último ato é um verdadeiro “non sense”. É
que a humanidade é composta de crentes e de céticos e, por mais que se faça,
sempre hão de existir os que duvidam, sejam quais forem as provas apresentadas.
Não é para estes que escrevo, mas para o leitor normal, que acredita naquilo
que se lhe conta, desde que o conto conserve alguma verossimilhança.
Creia, pois, o amigo que me ouve na
verdade do que lhe conto.
Benício teve uma vida normal, sem
adjetivos superlativos. Estudante mediano, concluiu o segundo ciclo; atleta de
fim de semana, jogava de zagueiro; passou raspando no concurso público;
casou-se cedo, com Mariquita, e foi morar numa casinha alugada, na periferia.
A vida lhe correu sem sobressaltos.
Mariquita era prendada e econômica e ainda ganhava um dinheirinho como
manicure; conservava a casa limpa e a geladeira abastecida; de vez em quando se
dava o luxo de um espumante de cidra – dizia que gostava da cócega que a
efervescência produzia no céu da boca.
Benício tinha os amigos do futebol e
o colega Túlio, do ministério. De vez em quando fazia um churrasco no quintal e
reunia uns sete ou oito deles. Túlio nunca faltava; era o mais animado da
turma, piadista, contador de histórias.
A vida lhe corria, a Benício, nessa
felicidade mansa, mas – infelizmente parece ser da natureza humana não se
contentar com a mansidão -, começou ele a sentir que faltava alguma coisa em
sua vida. Já estava casado havia cinco anos e não tivera a sorte de ter um
filho. Os amigos da bola, o próprio Túlio, casados com menos tempo, já tinham
lá seus pimpolhos e ele, nada. Verdade que tinha o casal evitado a gravidez nos
dois primeiros anos, enquanto montavam a casa e compravam o carrinho, que viera
com pneus carecas. Mas depois, casa montada, pneus trocados, deixaram de evitar
e passaram a desejar o seu menino. Contudo, foram-se os meses, correram os anos
e nada de Mariquita embuchar. Seria castigo do Céu por terem evitado? Uma
espécie de “antes vocês não queriam, agora quem não quer sou eu”? Seria Deus
tão vingativo? Se fosse levar em conta os sermões do pastor Fernando, num dia
Deus era misericordioso, mas noutro, vingativo.
Passaram a fazer promessas; quem
sabe a simpatia que tia Guilhermina ensinara? Nada. Em uma manhazinha de sábado,
escondidos do pastor, foram de carro até Aparecida e acenderam duas velas de
metro e meio à santa. Não seria pecado; bastava o pastor não ficar sabendo.
Fosse por uma coisa, por outra ou
por todas, Mariquita emprenhou e, no prazo certo, nasceu Henrique, um rapagão,
quatro quilos.
O menino cresceu forte e bem amado;
era a alegria dos pais e o brinquedo dos amigos nos churrascos do quintal. De
ânimo leve, dava-se com todos, mas era mais chegado ao padrinho Túlio. Ainda
nem falava direito, mas com tatibitate imitava o jeito de contar piadas do
padrinho. Arremedava a voz, as alterações de tom, os trejeitos; e plagiava tão
bem que terminava até por ficar parecido com ele.
Assim foi crescendo Henrique,
alegre, falante, espirituoso. De tanto imitar o padrinho, seu rosto acabou por
tomar o jeito dele, um verdadeiro Túlio Segundo.
Ao completar dezoito anos, pediu de
presente de aniversário uma moto. Os pais, que nada negavam a ele, menino bom,
fizeram um carnê na loja e deram-lhe uma moto novinha. Desgraça! Em um
cruzamento da avenida, um ônibus passou em cima de Henrique.
Velório triste! Cretino que sou –
pois não são tristes todos os velórios? Choraram todos e, mais que qualquer um,
o padrinho Túlio. A bem dizer os pais nem choraram, mantiveram-se ausentes,
alheios, catatônicos, abestados. Desculpe o leitor o excesso de adjetivação,
recurso de mau escritor. Que fique apenas demonstrado que a dor era tanta que o
cérebro resolveu anestesiá-los com algum derramamento hormonal sobre os
corações feridos.
Terríveis foram os dias que se
seguiram. Benício e Mariquita, verdadeiros zumbis. Mas a vida tem que seguir
seu curso: Mariquita voltou a fazer unhas, Benício retornou ao ministério.
Retornou, mas não parava de falar do
filho. O chefe sugeriu: passa em uma livraria, compre um livro para se distrair.
Benício respeitava o chefe, seguiu o
conselho. O vendedor indicou e ele comprou Dom Casmurro.
Quinze dias depois, entrou no
Ministério e deu um tiro no peito de Túlio. Preso, defendeu-se: na verdade era
Machado o assassino.
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Nota – Caro leitor: se não entendeu,
passe numa livraria, compre o “Dom Casmurro” e leia-o. Mas tenha o cuidado de
manter-se longe de armas.
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