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VÔ GRANDÃO E VÓ MACIA

            A porta abre e eu grito: olha quem chegou! Vô grandão me levanta do chão e me aperta em seu peito. Gostoso, mas bato pernas, quero chão, corro para os braços abertos de Vó macia. Novo aperto contra peito, forte mas nem tão; mais macio, deve ser por causa do peito grande da Vó que Vô não tem. Ou será porque Vó tem beijo doce? Ou porque Vô tem beijo de barba que pinica?
            Na prateleira, do lado da tevê, meu boneco Piqui, que Vô pensa que é dele. Pego e ponho no chão, que é seu lugar que eu gosto. Gosto também do carrinho brilhante, na prateleira alta, mas Vô não deixa. Levanto os braços, bato pé e Vó macia vem devagarinho. Ela sempre vem. Vem, pega o carrinho e me entrega. Toma, mas cuidado! Não vá quebrar que o vovô fica triste. Não quero quebrar, só quero brincar.
            Ponho o carro no chão, ao lado do Piqui. Lugar de brinquedo é no chão, não sei por que gente grande põe em prateleira. Gente grande é tão difícil de entender! Piqui é muito grande para entrar no carrinho, por isso ponho ele em cima, faz de conta que o carro é seu cavalinho, upa! upa!
            Vô grandão não gosta; Vó macia distraída na cozinha. Vô grandão aproveita e me toma o carrinho e põe ele de novo na prateleira alta. Ameaço choro e Vô me pega no colo, senta na cadeira e me põe nos joelhos. Agora, diz, eu sou seu cavalinho, upa, upa, cavalinho! Upa, upa, corre cavalinho! Upa, upa, corre de mansinho! Subo e desço nos joelhos duros, esqueço o choro, esqueço o carrinho, abro a boca para pegar ar e um riso solto escapa e voa depressa até a cozinha. Lá deve ter batido na Vó macia, que logo grita: olha o sorvete! Quem vai querer sorvete!
            Deve ser palavra mágica: eu e Vô grandão, na hora, paramos a brincadeira e corremos para a cozinha apostando corrida. Chego primeiro. Sempre chego primeiro. E Vô grandão chega atrás com a língua de fora. Não aguenta correr, deve ser por causa da barriga.
            O melhor pedaço de sorvete é meu, ele fica com o pequeno. Faz cara de choro, mas eu dou uma colher do meu e ele fica feliz e sorri. Vó macia, que não comeu sorvete, também ri feliz. Por que Vó está feliz se não comeu sorvete? É tão difícil entender gente grande!
            Depois do sorvete Vó macia desce comigo de elevador e Vô grandão vai ler o jornal. Ele sempre lê o jornal e nunca acaba e nem enjoa. No elevador, um homem grande, maior que Vô grandão. Nunca pensei que tivesse gente maior que Vô grandão. O homem é sério, não ri, não deve ser feliz, acho que não comeu sorvete.
            No parquinho não tem criança, só eu e Vó macia. Não tem importância, Vó é boa amiga e brinca comigo, de gangorra, de balança, só não pode subir na casinha e descer no escorrega, porque não cabe.
            O sol é forte e esquenta, a brincadeira é boa e esquenta ainda mais. Vó macia trouxe um chapéu mas assim mesmo está de cara vermelha. Acho que ela está cansada. Vamos subir e fazer um bolo? ela diz. Coitada! Gente grande não aguenta brincar muito.
            Subimos e vamos para a cozinha; Vô grandão ainda está lendo jornal na sala.
            Ajudo a Vó a fazer um bolo de chocolate, mas deixo cair no chão uma colher de farinha. O chão fica branquinho, tão bonito, mas parece que a Vó não acha pois pega uma vassoura e varre tudo, bem depressa.
            Depois de muito trabalho a gente consegue por o bolo no forno. Agora é só esperar.
            O Vô continua na sala com o jornal. Vamos esperar no quarto. Vó liga a tevê e vamos ver as histórias do Pingu.
            De repente acordo e vejo que não estou mais com a Vó macia. Estou no meu quarto, na casa do Pai. Não tem tevê nem Pingu. Desço da cama e corro para a cozinha. O Pai está pondo um bolo de chocolate na mesa. Sua vó mandou para você, diz. Quer um pedaço?


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