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MACAQUINHOS NO SÓTÃO

            Acordei hoje com ideias de jerico. Quis escalar o Everest, mergulhar nas Fossas Marianas, esquiar no Monte Branco, banhar-me nos sopros ferventes dos gêiseres de Yellowstone, mas, como tenho índole moderada, sofreei esses impulsos puxando-me a orelha esquerda, ação que sempre dá certo se o dia é par. Se fosse dia ímpar puxaria a direita. Nunca me engano porque também, além de moderado, sou prevenido, tenho um calendário digital ao pé da cama, que me avisa com dígitos luminosos o número certo do dia que amanhece.
            A eficiência do gesto é instantânea: os desejos asnáticos cedem e volto a ser o homem temperado que sempre fui. Como sou metódico, nunca erro, dia par orelha esquerda, dia ímpar, direita. Às vezes tenho curiosidade de saber o que aconteceria se puxasse a orelha errada. Poderia experimentar só para ver o que acontece, mas tenho medo, não sou dado a aventuras; como já disse, tenho temperamento moderado.
            Um amigo um dia sugeriu – procure um psicólogo! Até me deu o endereço de um. Cordato que sou, fui, confesso que também movido pela curiosidade. Ah, curioso que sou! Mas não me envergonho, sempre ouvi dizer que a curiosidade é qualidade dos homens superiores. Só não faço disso apanágio porque sou modesto.
            O analista puxou uma conversa mole sobre infância, pai, mãe e todas essas baboseiras que a gente sempre vê em filmes bê. Depois fez testes, do exército americano, de figuras gestálticas, de fotos de pessoas, de imagens coloridas e, a cada bateria de questões aplicada, balançava a cabeça, mas nada dizia. Finalmente, apresentou-me as pranchetas de Rorschach: quê vê? Um borrão. Procure enxergar mais alguma coisa, uma cena, um animal, um objeto... E então, o que vê agora? Um borrão.
            Pegou outra prancha: e nesta, o que vê? Outro borrão. E agora? Borrão. E nesta? Borrão. Inúmeros cartões foram apresentados e em todos eles só havia borrões.
            De borrão em borrão a expressão do analista ia se desfigurando. O melhor indício disto era a vermelhidão que lhe congestionava as faces. Tive ímpeto de puxar-lhe a orelha esquerda – afinal, era dia par – mas contive-me. Prova de que sou morigerado.
             Não preciso dizer que o homem desistiu, mas salvou as aparências me entregando uma carta de encaminhamento a um psiquiatra muito conhecido. Claro que não fui.
            Ao sair da sala de consulta rasguei a carta, mas tomei cuidado para que ele não visse. Sou educado.
            Ao reencontrar o amigo, disse-me ele que conversara com um monge tibetano e que o sábio o sossegara a meu respeito, que o que acontecia comigo era natural, que não devia lhe causar preocupação; que a cabeça dos homens é como o sótão de uma casa velha: o que vai acontecendo pela vida vai sendo jogado lá. Alguns arrumam direitinho o que ali depositam, separam, empilham, etiquetam, catalogam e, sendo necessário, acham o que vão procurar sem dificuldade. Outros são relaxados, apenas lançam os fatos no sótão, que caem aleatoriamente em qualquer canto em perfeita desordem e misturam-se fatos com atos e alhos com bugalhos. Não acharão jamais coisa alguma e eles, é bem verdade, nem se darão o trabalho de procurar, pois sabem que perdidos estarão para sempre.
            Mas eu não sou assim! – Obtemperei.
            (O amável leitor irá me desculpar, mas sempre tive vontade de usar esta palavra – obtemperei! Soa tão forte! Porém, como já devo ter dito antes, sou um homem moderado, um tanto tímido. Por isso, junto com a palavra, que soa forte mas tem sentido humilde, fica também um pouco de vergonha).
            O amigo contemporizou: você não é, poucos são. Estes que apontei são os tipos limite; entre eles é que se situa a maioria de nós, nem com tanto nem sem nada, alguns para lá outros para cá; mas todos, seja o lugar que ocupemos na escala, podemos sofrer da síndrome dos macaquinhos no sótão.
            À minha cara de surpresa, continuou o amigo dizendo que ninguém sabe como nem por quê, mas de repente o sótão craniano pode ser invadido por um punhado de pequeníssimos primatas, que desarrumam todo o arrumado, desarranjam o arranjado e torcem o distorcido. Nas ocasiões em que isso acontece o indivíduo perde o domínio de si mesmo e é capaz de fazer coisas do arco da velha, Felizmente esses momentos são quase sempre fugazes, quando perduram é caso de manicômio.
            Então – pergunta minha – como é que fica? Não fica, disse, assim caminha a humanidade, com altos e baixos, de percalço a percalço, de pés cobertos ou descalços. E finalizou: você tem sorte, descobriu um jeito de neutralizar seus macaquinhos.
            Preciso dizer que gosto muito desse amigo, amigo de longa data, fiel e confiável, mas acho que ele fala um tanto empolado, até com uma certa pedantice. É um de seus defeitos, mas quem não os tem. Transcrevo suas falas como as ouço, mas não as endosso. Não sei se já não falei antes, mas repito: sou um homem moderado.
 


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