Sento-me à mesa e reservo a cadeira
ao lado; as duas de frente, por solidariedade, também se sentem reservadas.
Cheguei cedo. Eles logo virão. É o almoço mensal do clube da bengala,
atualmente com quatro membros. Já teve seis, dois morreram. Se fôssemos
pessimistas, faríamos aposta de quem será o próximo. Mas não somos. Ao
contrário, somos otimistas; como todo velho, julgamo-nos eternos. Somados os
anos, somos já mais de três séculos de experiência. Uma boa parcela de
eternidade!
O salão é grande, com muitas mesas e
bastante gente nelas. A comida é exposta em longo balcão e, no fundo, a
churrasqueira com seus gaúchos. Os fregueses se servem no bufê e, se querem,
pedem seus nacos de carne. O sistema provoca andança geral, os comensais com
pratos na mão, no ato de se servir e voltar às mesas e os garçons na azáfama de
retirar pratos e restos ou de colocar copos e botelhas, uns e outros a se
movimentar como se em passos ensaiados, num estranho balé de pasto, antepasto e
pós-pasto. Completa a imagem de opereta o som contínuo de talheres a fazer
fundo ao ensaio de barítonos e sopranos. De vez em quando um tenor desponta
para logo se recolher. A animação geral faz lembrar o vozerio da cena do
toureador, de Carmem.
Eu, dado minha tendência filosófica,
começo logo a racionalizar: comer é bom, uma das duas ou três necessidades do
homem que lhe traz prazer, donde a alegria geral, donde a quebra esporádica,
ali e acolá, do comedimento da boa educação. Não se há de esquecer que, por
detrás do verniz civilizatório pintado sobre nós outros em alguns milhares de
anos, persiste a essência bruta do animal, coisa que, no entanto, se esquece
sempre. Não existe tristeza em restaurantes, salvo as exceções de praxe.
Em toda mesa se conversa, em todas
se ri. Aqui se fala mal do governo, ali se conta a história de uma conquista,
acolá se salva a floresta. Claro que tudo isto não passa de deduções
aristotélicas de minha mente cartesiana, pois é difícil distinguir
individualidades na pasta multiforme que me golpeia os tímpanos. No mar agitado
do vozerio vez ou outra se vislumbra a canoa de uma palavra ou o bote de meia
frase. Mas a imaginação supre as falhas, ela é criativa. Pois não se diz sempre
que, para bom entendedor, meia palavra basta? Bem melhor nossa situação, caro
leitor, que temos às vezes até meia frase.
Enquanto os amigos não chegam vou
bebendo devagar minha pinga com limão e, confesso, cedo ao meu outro vício,
observar a espécie humana. Sei bem que há coisas no mundo mais merecedoras de
minha atenção, mas, como disse, é um vício.
A moça da mesa à direita fala
sorridente com duas companheiras. São todas jovens e belas.
Interrompido sou por ti, leitor, que
pões em dúvida esta informação, sabedor que és de que se trata da apreciação de
um homem idoso, para quem qualquer jovem é, por natureza, bela. Não te tiro a
razão, mas justifico-me: para nós juventude participa de beleza, e vice-versa; são
conceitos siameses que moram juntos no mundo das ideias.
Mas não importa; digamos apenas que
se trata de três jovens. Dispensemos o adjetivo. O certo é que sorriem, o que
seria quase dispensável afirmar, pois já foi dito que são jovens. Uma conta uma
história, as outras acompanham com interesse. Certamente será história de amor.
Vislumbro um pequeno bote: “... e aí ele falou ...” Logo adiante outro bote:
“... pegou em minha mão ...” É, não há dúvida, é história de amor. O vozerio
cresce, um tenor troveja e não distingo mais nem mesmo canoa no mar agitado. Porém,
se não vejo, pressinto: a história terminou com encontro marcado. Os sorrisos
das companheiras, antes manchados de alguma apreensão, são agora limpos,
abertos de promessas.
Na mesa em minha frente dois homens
de terno preto e gravata, um, de cabelos e o outro, calvo, falam agitados. E
falam ambos, quase ao mesmo tempo, como se defendessem a verdade eterna. Certo
serão advogados; só eles são possuídos de tanta certeza. Ouço pedaços de
frases, outros botes balouçando no mar agitado do vozerio: “... disse-lhe:
conteste! ...” — “... não pediu liminar ...” — “ ... suscetível de embargos
...” Uma flotilha de botes, quase uma armada, a me propiciar a construção de um
enredo completo. Mas não o quero; será um enredo maçante a aborrecer-nos a nós
ambos, a mim e a ti, leitor paciente.
Desvio o olhar para a esquerda. Ali
um casal de meia idade come em silêncio. De tempos a tempos o silêncio é
interrompido por um monossílabo, expelido por um, que é mastigado, engolido e
digerido pelo outro e, só então, respondido com novo monossílabo. Por certo é
um casal que não se suporta mais, mas que não tem coragem de se separar. Fujamos
desta conversa minimalista, sem risos, atônica. Fujamos depressa, pode ser
contagiosa. São as exceções de praxe, já mencionadas.
Na outra mesa, mais distante, um
casal de namorados, a antípoda, tão perto, do casal anterior. A mesa, tão
longe, não dá para ouvir nada, nem botes, nem canoas. Que pena, conversa de
namorados é sempre bom de escutar. São ingênuas, são bobocas, são infantis, mas
que gosto ouvi-las! Que pena! Mas vamos ouvi-las com nossos olhos, leitor amigo.
Vê: aquela mão acariciando o rosto da moça, a moça segurando a mão dele não
querendo que o gesto acabe, puxando a mão até a boca, beijando-a uma, duas,
três vezes, ele trazendo a mão dela para si e beijando-a somente uma vez, beijo
demorado, beijo sem fim ... Olhos nos olhos. Ah, o amor!
Deixemo-los! Não invadamos com nosso
olhar profano essa santa intimidade.
Pulemos para outra mesa, aquela de
dois rapazes e uma senhora, talvez mãe e filhos ... Mas, não! Eis que chegam os
amigos.
O decano Oswaldo, tão antigo que
ainda tem dáblio no nome. O peso dos anos teima em envergar-lhe a silhueta, mas
ele resiste. Bravamente. O magro João, sempre tão agasalhado, sempre com tanto
frio, sempre elétrico, olhar perfurante, nada lhe escapa. Por último o eterno
apressado e atrasado Hermes, olhando no relógio, ar preocupado, carrega o mundo
nas costas, novo Atlas, vai avisando que tem que sair mais cedo, passar no
Banco, livrar de uma enrascada o vizinho do amigo do cunhado e ainda pegar o
neto na escola.
Pronto! Está formado o clube da
bengala. Vamos falar de mulher, de política, de mulher, de futebol, de mulher,
de tempos antigos. Se der e sobrar hora, vamos salvar o mundo.
No meio da conversa, na minha
frente, a duas fileiras de mesas, um homem nos olha atentamente, com olhar de
entomologista. Parece encompridar ouvidos, tenta pilhar uma palavra do que
dizemos, talvez meias frases. Até se esquece de comer, o abelhudo. Uma
vergonha!
Que impertinência!
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