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O TURÍBULO


            Os cabelos encanecidos de padre José começavam a rarear ou, talvez, por se tornarem mais finos, deixavam de ocultar aqui e ali pedaços da pele rosada de sua cabeça. Completara ele cinquenta anos e caminhava celeremente para os sessenta, como sói acontecer a todos que ultrapassam aquela idade, verdade esta sabida dos mais velhos e inacreditada por todos os demais viventes. Só sabe do sal da sopa quem a sopa toma.

            A paróquia era tão velha quanto o padre e a cidadezinha ainda mais velha que os dois, sendo todos, em conjunto, igualmente pobres. Pobre, portanto, era a freguesia e suas espórtulas mirradas eram todo o sustento do vigário. Vivia ele de batina rota, salpicada de pequenas queimaduras causadas por faúlhas do cachimbo torto. Era seu único vício. Padres também os têm.

            Nas tardes quentes de verão modorrava o servo de Deus na cadeira de balanço, à sombra do puxadinho que chamava de sacristia e, às vezes, a pipa lhe caia da boca plantando-lhe nas vestes constelações de pequenos furos Mais trabalho para dona Gracinha, beata dedicada que cuidava com orgulho de sua igreja e, por extensão, do seu padre.

            A vida corria mansa e o tempo, quase parado, era marcado por um ou dois batizados ao mês, taxa de natalidade que compensava o também par de enterros mensal, acordo entre vida e morte a propiciar a manutenção da paz social.

            Padre José já havia passado por uma ou duas comarcas, igualmente pobres, e condoía-se da penúria do povo. Seguia à risca o mandamento de seu deus visitando os mais necessitados, levando uma palavra de conforto e um quilo de arroz e uma caneca de leite. Deixava em cada casa uma esperança e uma barriga a menos a roncar. Nunca fora de frequentar as rodas do poder, ou por inapetência ou por falta de tempo, por isso tinha sido esquecido entre as paróquias pobres, perdido na desimportância de vilarejos.

            Nas solenidades em que a liturgia pedia exalação de incensos, o mal paramentado padre, na ausência de incensório, fazia com que seu sacristão, o voluntário Ernesto, sacudisse uma chaleira velha, adrede perfurada em sua linha equatorial, furos pelos quais iam escapando alguns fumos do incenso queimado em seu interior. Para multiplicar o pouco dos vapores assim conseguidos, Ernesto abria e fechava a tampa da chaleira produzindo um som ritmado, não de todo desagradável, ou por sê-lo de fato ou por sê-lo de costume.

            Um dia o padre chamou o sacristão ao pé de si. Sabe, companheiro, que vamos ter um novo bispo na diocese? Parece que é um franciscano, adepto dos novos ventos que sopram do Vaticano. Um velho amigo da Capital, vigário de arrabalde, avisou-me que o novo bispo quer começar o episcopado visitando as paróquias mais pobres da jurisdição. E quem mais pobre que nós? É possível, portanto, que ele venha nos ver. E como vamos receber sua reverendíssima, se nem turíbulo temos? Como não seo padre? E o Turíbio da Candoca, que vem à missa todo domingo?

            O bom padre deu uma boa risada e explicou. Turíbulo, Ernesto, é o nome do instrumento que se usa para espalhar incenso. Tu-rí-bu-lo! Não tem nada a ver com o Turíbio de Candoca. Tem mais a ver é com nossa chaleira velha, que não podemos usar na presença do senhor bispo. Ara! Aprendi mais uma! E o que vamos fazer então seo padre? Boa pergunta!

            Padre José deu tratos à bola. Com o polegar e o indicador, amarelados do tabaco, começou a cofiar a extremidade da sobrancelha grossa, costume que tinha ao mergulhar em pensamentos. O sacristão se fechou em copas e, paciente, aguardou. Sabedoria de quem conhece o mundo.

            Durante um tempo ficaram assim, um, na sobrancelha, o outro, no aguardo.

            Finalmente o padre, emergindo das profundezas meditativas, sacudiu a cabeça, como a respingar água, à moda dos cães quando saem do banho e, sorrindo, coisa que aqueles não sabem fazer, explicou seu plano.

            Ernesto, venho guardando uns trocados para comprar uma batina nova, ainda é pouco, mas quem sabe não dá para um turíbulo usado, de segunda mão? Você me vai à Capital, procura padre João, que o ajudará. Mas o senhor faz o favor de escrever num papel o nome certo desse tal turíbio!

            Um pé cá, outro lá e em pouco mais de uma semana eis o sacristão voltando, turíbulo embaixo do braço. Não é novo, mas em bom estado. Um tanto embaçado, mas nada que a beata Gracinha não resolva com suas mãos de fada e um pouco de pomada de polir.

            Conta Ernesto, conta, como é que foi a coisa? A coisa, padre, foi melhor do que o esperado. Padre João não ajudou ele mesmo, que é quase tão pobre como nós, mas levou o problema mais eu até uma igreja rica, uma de santo Antônio casamenteiro, uma que tem um monte de casamento de gente granfina. A tal igreja tinha um ror de turíbios, todos brilhando que nem sol de verão. Este, coitado, já estava lá num canto, aposentado que só ele, triste de dar dó. O padre falou, se quiser pode levar. Eu mais que quis. Quis depressa. Inda sobrou o dinheirinho, que deu pra comprar esta batina. Olha, é novinha! Tamanho médio.

            E foi assim que, um mês depois, quando o senhor bispo visitou a paróquia de padre José, foi recebido com missa solene. O padre, de batina nova, o incenso, exalado do turíbulo dourado, que era balançado cadenciadamente por Ernesto e que produzia um som também ritmado, porém mais suave do que o da chaleira velha, e não de todo desagradável.

            Como era dia de domingo, de roupa engomada e compenetrado, no último banco, como de costume, sentava-se Turíbio de Candoca.

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