Branquinha era a menina mais preta
da rua. Seu nome nem era esse, mas, de tanto o pai chamá-la assim, o apelido
pegou. O pai, desiludido da vida, misantropo, jamais quisera filhos; dizia,
como Brás Cubas, que nunca haveria de transmitir a nenhuma criatura o legado da
miséria humana. Contudo, alcoólatra empedernido, num momento de alienação
etílica e exacerbação hormonal, contribuiu para plantar no ventre esquálido de
Pretinha a semente que viria a ser sua filha, fruto do alheamento moral de uma
carraspana. Sim, era sua filha, sim, mas ninguém podia negar, era
principalmente o produto da “marvada” pinga, a companheira dos dias escuros e
das noites em claro, clara nos copos de todas as horas, a famigerada
“branquinha”. Não fora a cachaça, não teria havido filha; nada mais natural,
portanto, de chamar de Branquinha a menina.
Explicado assim o nome da criança, é
preciso que se diga algo de sua mãe, a mencionada Pretinha. O nome ninguém mais
lembra e, por obviedade, não é preciso dizer que Pretinha também é uma alcunha,
mas que, ao contrário da outra, espelha com exatidão a cor da moça, preta de
cima a baixo, com exceção do branco dos olhos. Jovem, desnutrida, mora nas
ruas, esmola nos cruzamentos de trânsito parado e, como alquimista autodidata,
converte qualquer moeda que ganha em pedras de cachimbo. Esquelética,
desprovida de curvas, não desperta cobiça carnal nem a isso dá importância; seu
negócio é o cachimbo. Como solidão aceita por companhia qualquer coisa, ainda
que seja outra solidão, engraça-se com o Professor, crioulo alto, descaído da
vida como ela, e com ele vive aos trancos e barrancos.
Falta agora completar o retrato do
pai, cujos traços principais já foram esboçados. Confirmando: magro, magérrimo,
o álcool lhe comeu as carnes. Homem de muita leitura, não conta a ninguém o
passado. Fala-se que já teria sido lente de Faculdade, vive sempre com um livro
debaixo do braço, por isso é chamado de Professor. Por amor ao álcool descera
todos os degraus da escada social e hoje estatela-se no piso de uma calçada,
deitado sobre um papelão nodoso. Por sorte será o papelão trocado amanhã por
outro mais limpo, ao final da coleta, pois este é seu trabalho diuturno,
catador de papéis.
As personagens aí estão,
rascunhadas, e o que se adivinha a seguir não é certamente uma história bonita.
O que diria o leitor se lhe contasse que Pretinha morreu de overdose ainda
antes de desmamar a filha? Certamente não se surpreenderia, pois os
antecedentes já apontavam para um desfecho destes; lamentaria, que todo leitor
é de boa alma, mas não se sentiria chocado. Ainda que dissesse eu que o pai da
menina, o Professor, em momento de exageradas libações, ia a atravessar a Rio
Branco com o sinal fechado quando foi jogado às alturas, como peteca, por um
veículo inocente, mesmo assim o leitor bondoso não se escandalizaria. Cruz
credo! se persignaria, comovido, mas não me recriminaria, afinal sou apenas o
repórter dos acontecimentos, o autor deles muito alto reside. Se bem que sobre
o acidente duas versões há: a do doutor de gravata que atropelara o Professor e
que declarou ter ele atravessado a avenida com o sinal vermelho, e a de uma
testemunha, morador de rua, que jura que a cor era verde. Prevaleceu a versão
do doutor. Quem duvidar pode?
Pobre Professor! Tinha a cabeça
cheia de saberes — ideias e preceitos, fatos e atos, ciência e arte — mas levou
tudo consigo; pela rachadura do crânio apenas uns poucos miolos lograram escapar, espalhados no asfalto.
Tinha Branquinha, então, a
cabalística idade de sete anos.
Imaginará agora, uma leitora
condoída, que a menina seguirá a sorte dos pais; que entrará no vício, cairá em
prostituição e findará seu tênue pavio de vida em outro malfadado capítulo de superdose.
Mas a realidade às vezes apronta surpresas que desconcertam a própria ficção.
Deveria me sentir envergonhado por ter
usado, linhas atrás, a palavra sorte — a menina seguiria a sorte dos pais. Na
realidade a sorte deles foi, de fato, um baita azar. No entanto, por duplo
motivo, não me constranjo: primeiro, porque não sou o inventor da língua,
segundo, porque, ao contrário dos dois leitores (se tantos houver!), sou
conhecedor do fim da história, e ela será feliz, a despeito de todas e
negativas previsões.
Nossa língua portuguesa usa a
palavra sorte para designar coisas de diferentes significados, ora para
explicar a faculdade de atrair bondades, ora para indicar um futuro incerto. O
mesmo tratamento dá ela ao seu antônimo, o vocábulo azar. A mim, narrador,
compete submeter-me a seus ditames.
Do segundo motivo não preciso
defesa. O leitor ainda não sabe o final da história, mas logo saberá, pois vou
contá-lo. Minha posição, que lhe leva vantagem, é, por definição, a de todo
escriba que diz um conto.
Antes do fim, contudo, preciso dizer
uma palavra para enaltecer a atuação do Professor, enquanto pai. Ele o foi por
poucos anos, mas bem, ao contrário de Pretinha, coitada, que nem tempo teve de
ser boa mãe. Com a morte da mulher o Professor assumiu a criança e proveu-lhe
as necessidades; mais que isso, iniciou-a em letras e contas. Como ficou dito
lá atrás, vivia ele com livros; faltou esclarecer que os conseguia em sua faina
diária de catador de papéis. Como o mundo sabe, livros são descartados quando
falta espaço em salas elegantes para a colocação de um bibelô novo. Esclarecida
a origem, falta apenas constatar que foi por eles que Branquinha iniciou sua
educação; mal tinha completado o primeiro lustro de vida e já sabia ler de
carreirinha e fazer as quatro contas.
Morto o pai, a menina chorou o
devido, mas não desesperou; aprendera na pouca vida e alguns livros que a morte
é imprevista e nos colhe a todos quando bem entende. Achegou-se a outro
catador, que chamava de tio, e com ele seguiu no ofício costumeiro.
É chegado o momento de introduzir
uma nova personagem no conto, dona Conceição. Desculpo-me por não tê-lo feito
antes, mas entenderá o leitor que, tivesse-o feito, estaria dando pistas a que
adivinhasse o final da história, o que seria um pecado mortal para um contador
de casos. Faz parte de nossa profissão a tentativa de manter uma expectativa
crescente sobre o desenlace daquilo que relatamos. Fazemo-lo, contudo, para o
deleite do leitor, razão pela qual me sinto perdoado.
Aceita dona Conceição, diga-se ser
ela uma viúva de meia idade, sem filhos, de família ilustre e rica e que vive
isolada em seu palacete senhorial da Avenida Campos Elíseos. Poderia até ser
prima de dona Inácia, da história de Lobato, mas não o é, como também não tem
os defeitos de caráter daquela veneranda senhora; ao contrário, é de boa índole
e adora crianças, ainda que barulhentas. Pena não ter tido filhos, defeito da
administração celestial, que deve ter arquivado sua ficha em escaninho errado.
Seja como for, para alguns males há
remédio e, para confirmar tão original filosofia, dona Conceição irá encontrar
Branquinha em uma fria tarde de julho, quando seu motorista, ao desviar de
congestionamento, entra pela Alameda Glete. Lá está na calçada aquela menina
tão preta, recostada na parede, sentada sobre um papelão, absorta na leitura de
um livro. Cena insólita! Dona Conceição virará a cabeça, surpreendida e tocada,
e ordenará ao chofer que faça o contorno do quarteirão e que passe de novo pelo
mesmo lugar. Mandará parar, descerá do carro, conversará com a pequena e
acabará por levá-la consigo no veículo, mais preto que a menina e também mais
brilhante.
Esqueceu-me dizer que Branquinha tem
um jeito cativante e que talvez por isso tenha encantado aquela senhora. Fica,
pois, dito agora, antes tarde que nunca.
Madame adotará a menina, cuidará de
sua educação nos melhores colégios. Ela se formará, fará mestrado e, por fim,
será doutora.
Não é este um final feliz?
Mas ainda não é este o fim. A boa dona
Conceição, como todos nós, morrerá um dia e deixará sua fortuna para Branquinha,
que criará uma fundação para cuidar de viciados. Dirige até hoje aquela
entidade, cujo nome não digo para não revelar a identidade da doutora, que vive
estampada com frequência nas colunas sociais.
E assim cumpro a promessa feita,
coloco aqui um ponto final para um fim felicíssimo.
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