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DOCE DOCÊ


(Erotismo Caipira)

1

            A mãe disse pra eu tomá cuidado co’os home. Falô qui eles são danado, querem sempre se apruveitá di nóis. Mas num intendi direito o pruquê disso, eles são tão educado, cheios di gentileza, tão sempre sorrindo pra gente. O Bento me compra pipoca, me paga sorvete, diz qui sô bonita e me beja a mão como si eu fosse princesa, sempre com muito respeito. É um gentlemã, como diz as fita de cinema.

2

            Falei onte em fita de cinema. Pois num é qui Bento mi convidô pra vê um firme? Fiquei pertubada lembrando du qui mãe diz e repete: toma cuidado co’os home! Mas Bento é tão educado e atencioso, num vai querê si apruveitá di eu. Num tive corage di recusá. Vamo no cinema domingo de tardinha.

3

            Hoje di manhã fui na missa. Armocei o macarrão da mãe, esperei uma hora pra digestão e tomei banho. Escovei o cabelo, ponhei água di chero, pintei a boca di incarnado e di ruge as bochecha. Oiei no espeio e gostei, nem parecia eu. Tomara Bento também goste, pensei. Agora de tardinha mi incontro com ele e vamo no cinema.

4

            A fita num era tão boa, era di mocinho e bandido, com muito cavalo e tiro, todo mundo di chapéu. Vai vê era pra qui os tiro furasse eles. O Bento, muito respeitoso, me abraçô por tráis da cadera e ficô alisando meu braço. Fazia um friozinho no cinema, mas a mão dele tava quente e gostosa. Di veiz em quando ele cherava meu cangote e dizia baixinho na minha oreia: Eta cherinho bão!

5

            Como combinado, encontrei o Bento na praça da matriz. Era noitinha, logo dispois da janta, por isso nem compramo pipoca. Di mão dada passiamo em vorta da praça. Otras moça e rapaiz também fazia o mesmo.

            Bento di veiz em quando cherava meu cangote e repitia sempre: Eta cherinho gostoso! Intão apertava minha mão tanto qui chegava a doê. Cê tá gostando di minha água di chero? – cheguei a dizê. Mas ele respondeu qui não era da água que ele gostava, mas do chero do meu corpo. Até pediu pra eu não usá mais água di chero, queria senti só o prefume di eu.

            Vortei pra casa sorrindo di alegria. Nem desconfiava que eu tinha argum chero e menos ainda qui ele pudera sê bão.

6

            Incontrei otra veiz o Bento di noitinha. Demo duas vorta na praça, di mão dada e aí ele me puxô pra rua ditráis da igreja, onde quase não tinha ninguém. Falei pra ele: Pruquê ocê veio pra cá? Ele disse qui era mais sussegado e qui ele pudia cherá mió meu cangote. Paramo du lado di um muro di uma casa e ele começô a cherá meu cangote. Agora num tinha passado água di chero e parecia qui ele tava gostando inda mais. Ele cherava o cangote e me apertava contra o muro. Di veiz em quando me lambia atráis da oreia. Era intão que me apertava inda mais na parede e parecia gostá tanto qui chegava inté a tremê. No princípio senti um poco di cócega, mas, dispois, comecei a gostá também das lambida. No frio da noite, sentia um calor subi e descê pela barriga e pelo peito, e um choque elétrico nas costa que arrupiava os cabelo. Bento cherava e dizia: Eta cherinho gostoso! Lambia e falava: Qui gostinho doce qui ocê tem!

            Vortei pra casa sorrindo di felicidade, num sabia que além do chero bão eu também tinha um gostinho doce.

7

            Noitinha otra veiz e eu e Bento no muro da casa. Os chero e as lambida em meu cangote, os calô e os arrupio pelo corpo, Bento mi espremendo cada veiz mais contra a parede e dizendo sempre: Qui cherinho bão, qui gostinho doce! Eu amolecendo tanto qui as perna até ficava bamba, e tarveiz inté tivesse caído no chão se as perna dele num tava me espremendo contra o muro. As perna dele me ajudava a ficá em pé, mas as mão também ajudava. Me segurô cum as mão pela cintura e, prá mó di assustentá mió, subiu com elas inté meus peito. Nessa hora senti uma vertige como nunca tinha sentido antes, e amoleci di veiz. Tinha caído si ele num tivesse posto mais força nas mão. Como ocê é macia! – falô o Bento desta veiz, e vortei pra casa mais feliz ainda, pois, além do chero bão e do gostinho doce, descobria que era também macia.

8

            Na noite di onte Bento mi bejô na boca. Bejá é modo di dizê, pruquê, pra falá a verdade, ele deu mesmo um baita chupão. Nunca eu tinha bejado antes. No começo fiquei com um certo nojo, mas dispois gostei. Ele falô intão: Como ocê é doce! Queria lambê ocê tudinha, da cabeça aos pé! Vontade di lambê todo o doce docê. Ce dexa eu ti lambê tudinha amanhã? Opa, amanhã não, qui vô com Chico até Treis Córgo, mas vorto dispois di amanhã. Ce dexa? Num falei nem sim nem não, qui ia pensá no assunto.

            Quanto ao restante acontecido, onte foi tudo iguar: esfregação e aperto no muro, apalpação pelo corpo e chero e lambida no pescoço, aditráis da oreia. Mais os bejo na boca. Mais ele falando: Quero lambê todo o doce docê!

9

            Nesta noite num teve incontro, ele foi pra Treis Córgo. Num pensei qui fosse senti tanta farta dele. Fiquei inté artas hora pensando em nóis dois no muro, nos amasso, nos aperto, nos chero, nas lambida. Cheguei a passá a mão pelo corpo, como ele faiz, mas num é a mesma coisa. Parece qui ele tem mão mágica. E a língua dele, intão? Parece mágica também. Dá arrupio só di alembrá. Alembrei também dele falando: Quero lambê todo o doce docê. Fui dormi pensando nisso: lambê todo o doce docê... todo o doce docê... o doce docê... doce docê...

10

            Na noite passada Bento já tinha vortado di Treis Córgo e falô anssim: Óia, o Chico ficô em Treis Córgo e dexô a chave da casa dele com eu; nóis pudia dá um pulinho lá pra mó di eu lambê todo o doce docê; passei a noite interinha só pensando nisso. Não disse pra ele qui tinha feito o mesmo, só fiz qui sim com a cabeça e lá fomos nóis pra casa do Chico. Lá dentro num tinha muro, mas em compensação tinha uma bruta duma cama macia. Bento começô me bejando a boca e cherando meu cangote. Adispois começô a mi lambê o pescoço, aditráis da oreia. E dizia: Quero ti lambê interinha; quero lambê todo o doce docê! E foi mi tirando a ropa e lambendo os pedaço di corpo que ia aparecendo E dizia sempre: Adoro o doce docê! Acabei ficando nua, sem nenhuma ropa e ele lambendo. E eu gostando. Chegô uma hora em que ele começô a lambê onde num devia, mas foi tão bão qui nem reclamei; comecei a tremê cum o corpo todo, qui nem vara verde. Intão, pra minha surpresa, Bento falô: Sabe, o doce docê tá muito gostoso, mas pudia sê mió si tivesse um tiquinho mais di leite. Si ocê quisé eu ponho nocê um poco pra mó di miorá. Eu quis, e ele pôis dentro di eu o tar poquinho qui fartava. Só qui acho qui num foi tão poquinho assim, pruquê demoro argum tempo e, adispois, cheguei a senti dentro di eu o esguicho do leite. Num parecia sê poco, não.

            Vortei pra casa muito contente. Agora, com o leite dentro di eu, o gostinho du meu doce vai sê mió ainda.

11

            Hoje de noite vai tê otro incontro. Si o gosto du meu doce inda não tivé no ponto, vô pedi pro Bento pra ponhá mais um poco di leite dentro di eu. Ele é tão bão cum eu qui num vai recusá. Num sei pruquê a mãe desconfia tanto dos home. Eles são tão bonzinho e faiz tudo qui a gente qué. Pelo menos Bento é anssim, tarveiz os otro não é. Sorte minha.

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