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VIDA, PAIXÃO E MORTE DE MESTRE CUCA


            Nasci numa cozinha, morri noutra, e tive a vida marcada por elas.. Meu signo de Libra, bem apropriado para um súdito inglês, não explica essa fatalidade. Talvez o faça o horóscopo chinês, onde tudo parece ser possível.
Onde fui gerado, ignoro. Meu pai, tradicional diplomata inglês, não permitia que as conversas chegassem a essas intimidades. Morreu com o segredo. Mesmo aqui, do lado de cá, o velho não se abre. Continua me evitando, indigno que me acha da nobre estirpe. Mesmo defunto, não perdeu a pose.
O nascimento, é certo, deu-se na cozinha de nossa mansão, em Piccadilly, durante um bombardeio de V2. A casa sofreu danos sérios e mamãe, ferida, foi carregada para a cozinha, que permanecia intacta. O susto e o horror da situação precipitaram o nascimento prematuro, assistido pela habilitada cozinheira da família. Assim cheguei ao mundo: durante uma guerra, ao pé do fogão, o ar recendendo a carne assada, de porco e gente. Minha morte se daria, anos mais tarde, ao pé de outro fogão.
Antes de completar três anos, estava morando no Leblon; o pai fora designado para a embaixada brasileira. Freqüentei escolas inglesas, mas, para desespero da família, o apelo carioca superou o condicionamento britânico. Sentia-me atraído pelos crioulinhos do morro. "Perdia-me”, muita vez, para acompanhá-los nas favelas, empinando pipas ou jogando pião. Seu linguajar matreiro e saboroso encontrava em mim o apetite de um glutão. Meu nome, John Cook (olha o destino!), foi logo abrasileirado: João da Cuca. Semelhança sonora, reforçada pela inteligência privilegiada, modéstia à parte, que sempre distinguiu o papai aqui.
Cresci transviado, ovelha negra da família; fugia do colégio interno, escapava de casa, não tomava conhecimento de conselhos. Para os gritos, era surdo; e as surras - pasmem os súditos de Sua Real Majestade, que até a isso chegou seu leal diplomata! - as surras apenas serviam de têmpera para meu nascente machismo sulamericano. Psicólogos foram mobilizados. Inutilmente. Esgotados os recursos da ciência e da paciência, o velho resolveu deixar pra lá. Conformou-se, mas não perdoou; simplesmente, ignorou-me:
            — É no que deu virmos para esta terra de tupiniquins!

Daí por diante, livre de pressão, pude desenvolver à vontade as tendências pouco virtuosas. Foi por essa época que se deu minha iniciação sexual. Adivinha aonde? Na cozinha, sim senhor!
A cozinheira de casa era um mulataço: pernas longas, ancas fornidas e aquela cor de jatobá que me deixava louco. Quando se abaixava para pegar algo, não dobrava os joelhos. Eu ficava pregado ao chão, hipnotizado pela visão das grossas colunas de suas coxas, e adivinhava que ali começava o caminho do céu. Ela notava e tirava um sarro:
            — Cumé, Cuquinha, parece que viste passarinho verde!
O negócio começou a descambar para a provocação. Era só me ver na cozinha e a crioula deixava cair qualquer coisa no chão. Um dia o sangue ferveu e parti para cima dela. Foi minha primeira vez. Estávamos no bem-bom quando o mordomo deu o flagra. Um escândalo! A mulata foi despedida, mas partiu satisfeita:
            —Nunca tinha comido franguinho inglês...
Ultrapassado o portal do paraíso, desembestei de vez. Tornei-me o terror das empregadinhas da região. E assim fui crescendo, virando homem, sempre com predileção por carne escura, predileção que acabou por me mandar para o lado de cá.
A essa altura do campeonato, eu já estava de nome novo: Mestre Cuca. Foi o Paçoca o padrinho. Um dia viu o mordomo se dirigir a mim – e não deu outra, o "Mister Cook” virou Mestre Cuca. Não era eu, no fim de contas, o cuca boa da patota? E então?
Mas, como ia dizendo, meu passaporte para o lado de cá foi assinado por uma mulata e avalizado pelo marido. A Mercedes. (Ah, a Mercedes!). Bem que o Banguela me prevenira:
            —Tome cuidado, Mestre, que o Juvêncio é da pesada... – Anote-se que Juvêncio, no caso, era o marido.
Mas o xodó com a Mercedes continuou. Mulata fogosa estava ali. Como sempre acontece nestes casos, a quentura sobe à cabeça e ateia fogo aos miolos, e a gente acaba se atirando com tudo, sem medo. E o fim é sempre o mesmo, o último a saber fica sabendo, e é aquela zorra.
            Para ser breve: quando o Juvêncio irrompeu no quarto, corri pelado para a cozinha, com tento de alcançar o quintal. Foi quando a bala me entrou pela nuca. Estatelei-me no piso de cimento queimado. A última coisa que vi foi o pé do fogão, na ponta do nariz.

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