No começo eram as trevas e a luz se fez. Nasceram os astros e
as estrelas e o céu se coalhou de bilhões de girândolas, a rodopiar em busca do
infinito. Em um daqueles braços espiralados, banhado do suave calor de uma
estrela amarela, forma-se um mundico que irá abrigar um ser minúsculo. Mas —
oh, ironia soberba! — esse cascalho de vida irá autoproclamar-se o rei da
criação. De início hirsuto e arbóreo, perde os pelos e a cauda e finca pé no
solo. E a cada pelo caído e passo conquistado, cresce-lhe no coração a
presunção. Irá mirar-se no espelho do lago e dirá:
— Oh, que belo sou! Só posso ter
sido criado por um Deus que comigo se parece!
De noite, ao olhar para o luzeiro
interminável de estrelas a faiscar:
— Oh, que lindo espetáculo! Só pode
ter sido criado por Deus para meu deleite!
Quando mais tarde o fogo do vulcão
queima seus campos de caça, quando a tempestade de granizo devasta-lhe as
plantações, quando o vendaval faz ruir as paredes de sua casa, queixa-se:
— Pelos pecados meus, castiga-me
Deus!
Prostra-se de joelhos com falsa
humildade, pois não percebe o orgulho que se esconde no lamento. Não vê que,
mesmo derreado e vencido, ainda assim arvora-se como razão de ser das ações
divinas, como motor que lhe move a vontade.
Quando envereda pelo labirinto da
ciência, mal dá os primeiros passos e constata a verdade cristalina:
— A Terra, o mundo meu, é o
centro do Universo! O Sol, a Lua, os planetas, as estrelas, tudo gira à volta
dela!
Embevecido
pela sublime descoberta, esquece-se apenas de completar:
—
Todas as coisas gravitam em torno de mim, pois sou eu a razão de sua
existência!
No
entanto, por trás de tanto brilho, uma sombra lhe acompanha pela vida, a
toldar-lhe o lustro das ações, a roubar-lhe o gosto das vitórias: um dia irá
morrer. Igual a todos os outros bichos. Mas, ele? A criação suprema? A
quintessência de todo o orbe? Não, ele não! Cria então para si uma alma, como
antes havia criado um Deus. E assim chega à sua última conquista: a
imortalidade.
Inventa
então a filosofia:
—
Qual é o sentido da vida?
Enceta
a derradeira viagem à procura das primeiras causas e dos últimos porquês e não
se dá conta do orgulho que carrega na mochila. Sua vidinha é um piscar de olhos
do tempo cósmico; seu ser, um punhado de átomos que o acaso juntou; sua obra,
futuro sítio arqueológico. Só é importante para si mesmo. No dia em que
desaparecer, não será por ninguém chorado. De sua passagem pelo mundo não
restará lembrança. Qual é, então, o sentido de sua vida?
—
Nenhum.
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