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O HOMEM NO QUARTO ESCURO


            Sei que perguntarás: que fazes neste quarto escuro? Ouço estrelas! Ora, direis, e por que não abres a janela? Por que não olhas para o céu? Pois lá elas estão. E responderei: lá estão, é verdade, mas estão também aqui, bem aqui, dentro de mim. Que sou eu senão estrelas? Dissolve-me em meus elementos e põe-nos em uma balança, cada qual com os de sua natureza. O que encontrarás?  Montinhos de ferro, cálcio, magnésio, fósforo, carbono... E como sobra, um balde d’água. De onde foi a mãe natura buscá-los? Colheu-os de poeira de estrelas, de restos de explosões de supernovas. Meu sangue carrega pelas artérias os átomos que um dia pulsavam no coração delas. Que idade terão eles? São velhos, muito velhos. Mas, mais antiga é a matéria de que são formados, os prótons, os nêutrons, os elétrons... Remontam à origem das origens, ao tempo em que não havia tempo, ao “fiat lux” do estouro inicial.
            Sou, eu próprio, dinastia humana, muito novo, nasci há dez mil anos atrás. Mas o punhado de substâncias que repousa no prato da balança tem a idade do universo.
            Eis a razão de me veres neste quarto escuro. Como um novo Schiaparelli, dilato as pupilas nas trevas para melhor observar estrelas. Mas, enquanto saía ele para a noite em pos delas, mergulho eu em meu íntimo, para ouvi-las. E que me dizem? Que segredos insuspeitos me revelam?
            Não, como as rosas, elas não falam. Apenas sussurram. É um murmúrio que vem do fundo do ser e para ouvi-lo há que se lançar-se ao abismo, há que se nadar no mar revolto do inconsciente coletivo, atravessar o pântano das eras geológicas, libertar-se do emaranhado dos preconceitos, há que se galgar o pico da vaidade e lá de cima vislumbrar o horizonte da humildade, e descer das alturas para a planície rasa, há que se despojar do orgulho e chegar nu e purificado ao fim da jornada.
            E então, o que dizem elas?
            Ainda sussurram. Mas agora um pouco mais alto, quase audível. Percebe-se que dizem e repetem uma mesma palavra. Uma só palavra. Quase daria para adivinhá-la, se se pudesse lê-la em seus lábios, mas estrelas não têm lábios... Para se ouvir e entender estrelas, há que se imergir em banho lustral, que se jejuar sete dias e sete noites, abraçar o irmão, há que se beijar a face do inimigo e pedir-lhe perdão por tê-lo feito inimigo, há que se sorrir para uma criança, que se amparar um velho trôpego, há, enfim, que se doar e esquecer-se de si mesmo. Só então se ouvirão estrelas.
O que antes era um murmúrio, cresce agora como uma onda de mar e me envolve num repicar de sinos. A palavra, dita e repetida, enlaça-me como uma mãe que abraça o filho que retorna da guerra. Sinto nela o aconchego do porto seguro e compreendo que acabo de chegar ao fim da viagem. E como um filho pródigo que volta à casa paterna, sou recebido com hosanas.
E ouço, por fim, o que as estrelas — ninho materno, útero cósmico — têm a me dizer, e dizem e repetem:
— Bem-vindo! 

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