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AZUL, VERMELHO E BRANCO

                   Senhora Dona,
Dona do ar que respiro, da luz que me alumia, dona do sangue que me corre e ainda ferve nas artérias cansadas, dona dos meus instantes de alucinação e delírio, dona do meu presente, senhora do meu destino, venho a ti na qualidade de cativo. Do azul dos teus olhos fiquei cativo, desde a primeira vez que os mirei. Há quem julgue impossível uma paixão instantânea, coisa de poetas parnasianos. Eu mesmo assim o fazia. Até ver o azul profundo dos teus olhos, aquele azul que me arrebatou, que me arrancou do solo firme em que havia lançado minhas raízes céticas, como se fora eu uma erva daninha, que me solapou os alicerces da mediocridade e me lançou no vórtice tresloucado da insanidade do país de Eros. Bendita insanidade! Doença que dói, mas da qual não se quer sarar, aguilhão que ferreteia a alma, que a dilacera em mil pedaços e, ainda assim, cada um desses pedaços mil vezes prefere o martírio da dor que afastar-se da pessoa amada. Dos males do mundo, o mal de amor é o único do qual não se anseia a cura, e o infeliz apaixonado faz de tudo para aumentar sempre mais essa infelicidade. Só assim ele quase consegue ser feliz.
Sou, pois, teu cativo. Faze de mim o que queiras.
Mas, ai de mim! Triste realidade! A tua boca rubra, carnuda e sensual, corola concupiscente de desvarios loucos, ofereceste prazerosamente a outrem. Senti-me enlouquecer. Minto, pois na verdade o que senti foi o efeito de um tiro de bazuca, com o inesperado dom de me deixar inerte, prostrado, morto-vivo. Não mais sentia dor. Descobria, da pior maneira, que a dor tem um limite, que a dor surge sempre repentina, cresce, domina, engloba, tiraniza e, quando parece que nos vai matar, explode como bolha de sabão, e deixa atrás de si um vazio, uma dormência, uma inconsciência. O ser esgota-se, não tem mais força para nada, nem agir nem sentir. O sofrimento máximo anestesia, embrutece, aniquila a mais pequena das vontades e transmuta um em qualquer, o homem em molambo, o animal em vegetal. Essa pasta amorfa de matéria a que chamamos homem apaixonado perambula pelo mundo, vagueando espaço e tempo, arrastando a mágoa sofrida. Uns poucos se salvam, a maioria perece. Os que se salvam trarão sempre nos olhos a marca do amor perdido.
Eu, de mim, não sei se me salvo ou pereço. Só sei que de meu pensamento não sai o vermelho sanguinolento de tua boca a beijar outra boca que não a minha, numa fusão de salivas e seivas que não as minhas. Oh, pensamento impuro! Foge de mim, deixe-me só, com meu desespero, que ele, só, desespero, já me basta.
Senhora Dona, não te peço misericórdia, que seria sem valia, não te peço simpatia, por ofensiva, não te peço amor, por impossível. Peço-te apenas paz. A paz de ser eu o que era antes, de voltar a ser eu mesmo, outra vez um homem, aquele homem que sempre fui antes que meus olhos naufragassem nos teus. Não és culpada de nada, só de existires. Mas, que digo eu, nem disso, pois o que seria o mundo sem teus olhos? Não, não me olhes com essa indiferença, como se o branco de uma névoa opaca me ocultasse do teu olhar. Despreza-me, odeia-me, mas enxerga-me! Não passes o olhar por mim como passas por uma paisagem trivial, sem que dês dela conta. Não suportaria essa invisibilidade. Descerra essa névoa que lhe tolhe a visão. Enxerga-me. Não me deixes neste limbo do teu olhar branco.

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