Pular para o conteúdo principal

MEDUSA

           Tudo começou quando a fiandeira dos destinos deu a primeira puxada no fio de minha vida e fez minha mãe, uma negra valente, se engraçar por um cabra loiro de olhos verdes. No Recife este tipo de homem não é tão raro, é o que sobrou dos invasores de Holanda. Não é raro, também, que, valendo-se do poder de sedução dos olhos verdoengos, deitem-se eles com as raparigas desavisadas e vão nelas fazendo meninos; depois ganham o mundo, desaparecendo como o gênio da lâmpada. Foi o que aconteceu com minha mãe, mal saída das brincadeiras de boneca, a carregar outra boneca na barriga.
             Nasci bem, forte. Forte e pobre, fui crescendo na vicissitude da pobreza mas no carinho da mãe amante. Batalhadora, conseguiu ela me botar na escola, e lá, enquanto, por um lado, aprendia contos e contas, por outro, aprendia o peso de ser pobre, negra e mulher, três desgraças que o João do Apocalipse esqueceu de enumerar. Maus tratos e abusos são lições que não se esquecem jamais. Um monte delas me tornou o que sou hoje, uma Medusa.
            Minha saúde sempre foi boa e quando comecei a botar carnes tornei-me logo um objeto de desejo. Cresciam meus seios e cresciam também os olhares gulosos dos homens sobre eles; conforme as ancas se alargavam e os glúteos endureciam, o gingado de meu andar tirava o fôlego dos moços e ameaçava um enfarte nos velhos. No começo, sendo essas mudanças uma novidade para mim, o efeito que produziam independia de minha vontade, mas, com o tempo, qual uma motorista de carta nova, fui apreendendo a dominar e conduzir meu corpo, o que fez com que o resultado alcançado se intensificasse até níveis temerários. Para dizer o menos.
              É sabido ser a mulata uma preferência nacional, desde muito antes da marchinha de carnaval se tornar sucesso. E eu me havia transformado em uma mulata de quatro costados. Afora o corpo, de carnes duras e torneadas, tinha eu um rosto bonito, de boca carnuda, que os homens se confessavam loucos por morder; os olhos grandes e verdes e o nariz quase aquilino, heranças, sem dúvida, do pai holandês, faziam raro contraponto com a pele acobreada de nossos trópicos tórridos. Mirando-me no espelho dos olhos cobiçosos que os homens não conseguiam disfarçar, sentia-me desejada; olhando-me nua no espelho de meu quarto, sentia-me aprovada e, confesso, o que mais gostava eu mesmo em mim eram os cabelos, dos quais ainda nem falei, talvez por ter dúvida de quanto possam ser ferinos nas almas masculinas. E, no entanto, de todos meus atrativos, é deles que mais gosto; de um negrume de noite escura, bastos, com um cacheado que parece lhes aumentar o volume e transmitir-lhes um movimento permanente, como molas fossem, a se contrair e distender ao menor meneio da cabeça, como se vivos estivessem, como se, Medusa moderna, renascida de lendas antigas, fosse minha cabeça povoada de pequeninas e impacientes serpentes. Esta impressão, mais que tudo, é que me fez adotar o nome da górgona e, talvez por ele influenciada, dedicar minha vida a causar malefícios ao homens.
                Vingança!
                Vingança do sofrimento que os homens sempre trouxeram à minha pobre mãe solteira, vingança dos abusos e menosprezo que outros homens cometeram contra mim, então menina ingênua, vingança da lascívia de seus olhares, quando por eles passo, da concupiscência de suas mentes que, percebo, me igualam a pedaços de picanha com que aplacam suas fomes, vingança daqueles que almejam me tomar para alívio de seus órgãos túrgidos de seiva.
                 Para isto vivo, para vingar todas as mulheres. Mas ajo às claras, sem subterfúgios. Por princípio, não sou dissimulada, não engano ninguém, não faço promessas, não dou esperanças. Como a esfinge de Tebas, aos homens lanço o desafio: decifrem-me, ou os devoro! Como a Medusa antiga, advirto-os: não me olhem, ou os transformo em estátuas de pedra!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PIMPOLHO

              Já vão lá uns trinta anos que escrevinhei uma historieta sobre minha filha Mariana, a derradeira raspa do tacho, que nasceu quando eu fazia cinquenta anos. Desconfiava então que ela podia ser uma alienígena que vinha com seu povo invadir e conquistar nosso planeta. Pois bem, passou todo esse tempo e a desconfiança persiste. Está ela agora com trinta e oito anos e grávida do primeiro filho, que nascerá em dois meses.             O primeiro raciocínio que fiz, e olha que não sou bom nisso, é que ela não deve ser mesmo uma extraterrestre. Se o objetivo é conquistar a Terra, não faz sentido esperar tantos anos para ter o primeiro filho. O lógico seria tê-lo com dezesseis ou dezoito anos. Dessa maneira o exército invasor seria completado mais depressa. Por outro lado – confirmando que sou falho em deduções – pode ser que no mundo dos etês o desenvolver da vida se...

PIMPOLHO NASCEU

  Foi anteontem, 31 de janeiro de 2026, que o Pimpolho nasceu. Foi parto natural, pouco depois das 3 da tarde, peso e tamanho normais. Pouco antes, lá pelas 2 horas, fomos avisados que nossa filha Mariana estava entrando em trabalho de parto. Miyako e eu pegamos um Uber e fomos para a Maternidade. Estivera minha mulher há cerca de uns vinte anos na mesma Pro Matre, ali na região da Paulista, para uma cirurgia. Quando o carro parou estávamos diante de um conjunto de prédios modernos; que fim levara aquele prediozinho antigo? É o progresso! sentenciou ela. Informaram-nos que o quarto de Mariana era o 669. Em lá chegando, depois de algumas peripécias labirínticas, vimos que a porta estava trancada e não havia ninguém dentro; estava vazio. Por uma atendente próxima soubemos que nossa filha devia de estar em outro andar, onde aconteciam os nascimentos. Identificados como pais, a atendente ofereceu-nos a chave do 669 para que lá aguardássemos.        ...

PENUMBRA

            A Lua Cheia e a Noite são duas velhas senhoras e como tal devem ser respeitadas. Enquanto a Noite, dissimulada, esconde em seus escuros os sinais da idade, a Lua só faz isto em ocasiões de plenilúnio, quando a luz chapada que do Sol recebe permite algum disfarce. Contudo, basta surpreendê-la nos primeiros crescentes, ou nos últimos minguantes, e as marcas da antiga varíola se fazem notar em sua epiderme.             Embora velhas e diversamente vaidosas elas se gostam e, quando se encontram, dão-se a folguedos como se fossem duas gurias. Dançam pelo ar, onde se escondem atrás de nuvens distraídas, bailam pelo chão levantando poeira, brincam de esconde-esconde. O escuro da Noite, quando flagrado por algum raio de luar, derrete-se em penumbra e vão então, luz e penumbra, desenhando figuras de coisas e gente. Às vezes algum Vicente, à beira de mares mediterrâne...