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RIO


            Rio! Rio de Heráclito, mutante e mutável, de imperturbada mutabilidade, constantemente em transformação, de minuto a minuto vindo a ser aquilo que antes não era. Com os minutos passam tuas águas e já não são mais agora o que foram no minuto anterior. És um outro rio e em ti não se pode banhar um mortal mais que uma vez, pois na segunda vez outro rio será. E ainda que, por absurdo, pudesses ser tu o mesmo rio, não seria mais ele o mesmo mortal a se banhar em ti; ele próprio teria se transformado, com a morte e substituição de células, atestando a verdade insofismável de sua definição – um simples mortal.
            Rio comprido, multifacetado, muitos rios em um só, que nasces do degelo da cordilheira, nas alturas rarefeitas – tímido corregozinho transparente – e encorpas ao te juntares a outras vertentes, e desces alucinado pelas escarpas rochosas, aonde tuas águas em corredeira vão rolando pedregulhos, chiando de encontro às pedras, borbulhando em crescendo até estrondar em cachoeira, acalma-te rio. Pronto, chegaste ao planalto. Cá embaixo te aquietas, te avolumas, te aprofundas, e tuas águas de superfície, grande remanso, giram dolentes, e nessa ciranda parecem meditar. Estas águas, atritando as margens, vão derruindo o solo e se pintando de terra, terra generosa que carregas ao mar. Tu, rio doce, é quem salga o mar. E eu te ajudo nessa faina: poeira de estrelas que sou, um dia serei barro de terra, e tu me arrastarás por tuas águas, e nós, juntos, salgaremos os mares.
            Rio orgulhoso, que um dia acolheste em tuas águas e deste passagem à grande nau de Argos com seus cinqüenta heróis; rio, que viste tuas águas batidas pelos remos dos argonautas em busca da Cólquida, caminho que foste da grande aventura do velocino de ouro; rio valoroso, rio de tantas caras, refreia esse teu orgulho, não te eleves até a soberba, pois, embora muito antigo, não és eterno. Um dia secarás, e só memórias dos feitos que viveste restarão; mais dias, nem elas. Como eu, és tu sujeito ao tempo, que tudo destrói. Sejamos nós ambos parceiros na inveja, tu, do rio Estige, por onde sempre navegarão as almas a caminho do reino de Hades, eu, de Caronte, barqueiro que as leva, rio e barqueiro, eternos um e outro; eu e tu, meros vassalos do tempo. Morramos de inveja!
            Rio ingênuo, rio de ti, da tua candura de procurar esconder, debaixo de tua superfície calma, o desassossego de tuas águas inferiores, com suas voltas e revoltas, na procura aristotelicamente incessante de seu lugar na natureza, qual seja, terras mais baixas, buracos fundos. Pobres! Mal sabem o que as esperam.
            Essas tuas águas loucas, a procura do mais fundo, atiram-se ensandecidas por precipícios, mergulham sem medo de escuro em buracos profundos e vão, incansavelmente, descendo e descendo em direção ao centro da Terra, desesperadamente atraídas de amor pelo magma incandescente, que ali se referve de impaciência. Enfim, quando se dá o encontro – explosivo encontro de amor! – um choque cataclísmico se revela, incompatibilidade congênita de temperamentos, a água é repelida violentamente e ejetada para a atmosfera em forma de vapor, ou volta à superfície sólida do planeta como nascentes termais, fontes ardentes de um amor eterno. Umas e outros, águas e vapores, irão então, mais uma vez, reiniciar o infindável vir a ser daquilo que já não são.
            Rio de tudo isto.
            E tu, rio, do que te ris?

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