Naquela
manhã de sol Oto acordou e se surpreendeu velho, acabara de fazer oitenta anos.
Era, com perdão da má palavra, um octogenário, deixara para trás a malfadada
década dos setenta, quando estivera por diversas vezes à pique de soçobrar e chegava,
então, ainda vivo aos oitenta. Agora ali estava ele, um Oto octogênico, quase
um cacófato. Carregava ainda a lembrança dos setenta e, por isso, refreava com
cautela aquele otimismo inocente que teimava em acompanhá-lo desde que se dera
por gente. Era um novo começo. Quem sabe a sabedoria da idade pudesse ser o
freio que faltava para segurar ilusórias esperanças. Sentiu ser chegada a hora
de fazer um balanço final. Ele, que sempre olhara para frente, que fora muito
prático em toda a vida, enquanto fazia a barba foi amadurecendo a resolução:
deixaria por ora de olhar para o futuro — cada vez mais curto — e voltaria sua
atenção para o passado, longínquo em anos e distante no espaço. A figura
austera do espelho, que se deixava pacientemente barbear, olhou Oto firmemente
nos olhos, esboçou um esgar no canto da boca e, com isso, concordou com a
decisão tomada.
Começaria
pelo começo. Que tal voltar à cidadezinha da infância, respirar a quietude da
praça da Matriz, perambular pelas calçadas, desviando dos meninos e de seus
botões? Pisar outra vez o chão de terra batida da praça nova, onde gastava em
correrias loucas os tênis brancos, sujando-os de poeira vermelha, para depois
ouvir sermão da mãe? A escola das freiras na mesma praça, com sua escadaria
imponente... Como estará hoje a velha escola? E a Irmã Clemência, que de
clemente não tinha nada? Terá morrido, com certeza, ou estará com mais de cem
anos. Naquele tempo ela era jovem, a mais jovem das irmãs. Jovem e linda. A
mais linda. Como podia uma moça tão bonita ser tão severa com os alunos? Num
dia quebrou a régua na cabeça de Oto menino, noutra ocasião surpreendeu a
classe em estrepolia geral; o que fez? O castigo também foi por atacado:
colocou as crianças em duas filas paralelas, em pé, cada fila de costas para a
outra de modo a formar um corredor estreito. Naquele corredor passou ela
sapecando nas pernas desnudas um fio de cobre coberto de plástico marrom — o
“chocolate”. Foi e voltou duas ou três vezes e as pernas guardaram a lembrança
do chocolate. A memória também guardou a lembrança, mas, coisa estranha,
esqueceu qual fora a travessura. Criança não dispõe de tempo para lembrar
dessas coisas.
Oto chegou
à cidade ainda lembrando do “chocolate” e se espantou — ela não era mais uma cidadezinha, engrandecera,
evoluíra, muito movimento nas ruas, gente pelas calçadas. Procurou e não
encontrou: onde estavam os meninos e seus jogos de botões? Em uma varanda de
casa antiga avistou um deles, estava sentado segurando um artefato e com dois
dedos tocava seguidamente a tela luminosa. Eram ágeis os dedos do menino, mas
Oto adivinhou que, seguramente, não saberiam apertar com eficiência um botão
centroavante.
Chegou à
praça da Matriz. Remodelada. Procurou o velho coreto, no canto da praça;
encontrou em seu lugar um estacionamento de carros. Atrás da igreja o armazém
grande virara loja de roupas e, na porta, um animador de microfone em punho
anunciava as ofertas, uma atrás da outra, venha ver, freguês amigo, aproveite
que esse desconto é só para hoje. O barulho do alto-falante se misturava com o
burburinho do povo e não permitia que um homem velho, sentado em um banco da
praça, dormitasse em paz, acalentado pelo generoso sol de inverno.
Andou Oto
duas quadras, até a praça nova. Não tinha mais o chão de terra, tudo calçado.
Uma construção volumosa ocupava o centro da área; ficou sabendo depois: era a
Câmara Municipal. Não viu nenhuma criança correndo por ali.
Procurou o
prédio da escola com sua escadaria imponente. Lá estava, não tão branco como
antigamente e a escada, não tão grande. Escada e prédio haviam perdido
imponência. Oto compreendeu logo: a escada fora grande quando ele era pequeno;
agora que ele era grande, a escada ficara pequena. Poder que tem o tempo de
alterar as coisas.
Subiu os
degraus com passo lento e sorriu ao chegar ao topo, quantas vezes subira aquela
escada correndo mais que o vento?
Entrado no
prédio, não demorou a reconhecer a disposição das salas. Encaminhou-se à
secretaria.
Lá
encontrou uma freira de meia idade manuseando papéis e fazendo anotações. Não
vestia aquele hábito sisudo das irmãs de antanho, mas um vestido cinza-claro
que lhe cobria colo e braços, e a cabeça, livre da antiga cobertura, exibia um
cabelo de corte curto que começava a branquear. Oto passou a imaginar: como
seria a Irmã Clemência se, na época, se vestisse assim? O cabelo seguramente
seria sedoso e preto, combinando com aqueles olhos de jabuticaba, e seria uma
moldura perfeita para o rosto moreno de pele macia e boca carnuda...
— Senhor?
— Ah!
Desculpe... Uma informação, por favor.
— Pois não
— disse a freira se levantando e vindo atendê-lo.
— Fui aluno
da escola muitos anos atrás e gostaria de ter notícias de uma freira que foi
minha professora.
— O nome
dela?
— Irmã
Clemência.
—
Clemência... Clemência... Creio que seria melhor o senhor falar com a Madre
Superiora. — Pegou o telefone, teclou dois números e falou alguma coisa. Logo
depois voltou-se para Oto: — A Madre Superiora vai atendê-lo. Final do
corredor, última sala à direita.
— O nome
dela?
— Irmã
Solange.
— Obrigado!
Oto sentiu
que havia algo de estranho acontecendo. A freira que acabara de atendê-lo
parecia saber muito bem quem era Irmã Clemência. Ao ouvir o nome ela hesitara
por um momento, mas preferira encaminhá-lo à Superiora.
Ao final do
corredor, em uma sala ampla, a Superiora o aguardava.
— Entre,
por favor!
Irmã
Solange era uma mulher pequena e magra, rosto pregueado de rugas, cabelos
brancos, lisos e esmeradamente penteados.
— O senhor
deseja informações de Irmã Clemência?
— Sim, por
favor. Fui aluno dela há muitos anos. Gostaria de saber se ainda está viva.
— E qual é
seu interesse nisso?
— Ela me
marcou muito. Depois de minha mãe, foi a pessoa mais importante de minha
infância. Tenho sonhado com ela ultimamente.
— O senhor
não é o único.
— Como
assim?
— Ela
parece ter enfeitiçado muita gente. Era bonita, não?
— Linda!
Desculpe, Irmã... Era bonita, sim.
— Não, não
está mais viva — respondeu a Superiora, retornando à pergunta antes feita —
viúva Clemência morreu faz mais de dez anos.
— Viúva! —
deixou Oto escapar, surpreendido.
— Sim, sim;
ela havia deixado o hábito e casou-se com Padre José, ou melhor, com ex-padre.
— O Padre
José da Igreja Matriz? — conseguiu gaguejar o agora estarrecido Oto.
— Ele mesmo
— confirmou a Superiora. — Junto com Padre Manoel, eram os dois os confessores
das freiras do colégio.
Neste
momento Oto lembrou bem dos dois padres. Ele próprio confessara algumas vezes
com cada um deles; Padre Manoel, um velhote bonachão que chegava a ressonar no
confessionário enquanto o menino Oto, envergonhado, balbuciava seus pecados
capitais. De repente o velho pigarreava, acordando, e despachava o moleque com
duas ave-marias e um pai-nosso. Já o Padre José, moço vigoroso, hercúleo, era
mais atento, rigoroso, especulava o menino até arrancar os segredos escondidos
e lascava uma penitência de doer os joelhos: cinco aves e cinco pais.
A voz da
Madre Superiora, que parecia vir de longe, acabou por interromper as lembranças
de Oto. Em tom justificativo, explicava que ela própria não presenciara a cena,
pois que só muitos anos depois chegara à escola, mas ouvira relatos de que
Clemência e seu confessor haviam sido surpreendidos em intimidades nada
condizentes com o sacramento da confissão, onde se deve despir a alma e não o
corpo. Oto percebeu que a história que a madre contava vinha permeada de maledicência
e de tintas de sadismo. De certa forma parecia que a mulher tinha por efeito
machucá-lo pelo amor que sentira pela antiga professora, mas sua vivência de
anos permitiu-lhe enxergar, por detrás da cortina sádica, uma mistura de
inveja, desejo e frustração. Era como se a madre almejasse ter um dia uma
confissão semelhante àquela que contava.
Ao final do
relato um silêncio pesado tomou o ambiente por alguns minutos, e Oto poderia
ter observado que a sala da Superiora era guarnecida de estantes repletas de
volumes encadernados, dispostos em ordem esmerada, como esmerado era o penteado
de sua ocupante. No entanto, o alvoroço interior que o dominava o impediu de
qualquer verificação sobre o mundo físico circundante.
— Muito
agradecido, madre! — conseguiu ele balbuciar e levantou-se lento da cadeira.
Com passos claudicantes suas pernas o levaram para fora da escola. No topo da
escadaria veio encontrar o Sol do meio-dia, que dardejava raios quentes em seu
peito frio. Parou um momento apreciando a quentura que lhe tomava a alma e ele,
ateu confesso, sorriu ao descobrir que a alma ficava dentro do peito.
Desceu a
escada devagar, como velho que era, e a cada degrau vencido uma transformação
ia lhe alterando o semblante. A princípio carregado, foi ele desanuviando e era
sorriso pleno quando o último degrau foi deixado para trás. Entendeu Oto que o
Universo conspirara para que a bela Clemência não terminasse seus dias
enterrada em clausuras. Libertou-se a moça das paredes frias e lançara-se ao
mundo para viver as benesses da carne e as agruras da vida. Não guardou a
virgindade de seu corpo sensual para o banquete final da terra, preferira
servi-lo aos braços fortes de Padre José. Deu-lhe a boca suculenta e o ventre
macio. Os atributos que a mãe Natureza generosamente lhe concedera foram afinal
bem aproveitados. Seria um desperdício não o fossem.
Oto
atravessou a praça nova com passos firmes. Já não se achava mais um velho.
Quase podia sentir a doçura do “chocolate” nas pernas.
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