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SILÊNCIO


            José Maria perambulava pelas ruas estreitas do centro velho e desviava dos corpos estendidos que ia encontrando pelas calçadas. Naqueles tempos de crise a população de moradores de rua havia aumentado e era frequente encontrá-los. A cidade crescera pelos lados do espigão e o progresso levara para lá bancos e escritórios e, onde antes eram mansões de barões do café, agora se erguiam prédios e mais prédios que disputavam entre si quem chegaria mais perto das barbas brancas do porteiro do Céu.
            O velho centro mantinha, contudo, um ar aristocrático com suas construções “art-déco” e postes de ferro preto. Bares nas esquinas, farmácias nas praças e, pelas ruas, magotes de gente em busca do comércio variado onde era possível se achar de um tudo. Em ruas especializadas podia-se garimpar de miudezas a preciosidades e José Maria acabara de entrar na ruela do ouro e das joias. Vinha em busca de um escapulário, era aniversário da mulher. Entrou na loja grande e foi direto para a seção de folheados. A atendente lhe mostrou dois ou três modelos e ele escolheu um de tamanho médio, a mulher também não era grande. O preço vinha a calhar, sobrando dinheiro para comerem de noite uma pizza de rúcula no bairro italiano. Comemoração completa.
            A noite vinha perfeita, nem a Lua faltara; brilhava sobranceira no céu; havia afastado as nuvens para além da Mantiqueira. Não conseguia, contudo, rivalizar com o brilho dos olhas de Maria José, quase desacostumados de sair à noite. Há que tempos não vinham os dois comer uma pizza no velho casarão. Pois não fora ali, vinte anos atrás, que os dois se viram pela primeira vez? Ela, corpo delgado, ele, lépido e ainda de cabelos pretos, olharam-se e, como nos contos de fada, tiveram a imediata noção de que nunca mais seriam sozinhos na vida. Os olhos dela, naquela noite, também brilhavam mais que a Lua no céu.
            O tempo, esse inconstante, acrescentara alguns quilinhos na mulher e um pouco de barriga no homem, trouxera também dois filhos, muita alegria e alguns percalços, nada porém que não confirmasse continuamente o acerto da primeira revelação: nunca mais estiveram sozinhos. José Maria bendizia a sorte de ter encontrado aquela mulher, as duas almas eram tão iguais que até o mesmo nome tinham, sinal exterior de um destino único.
            Maria olhava José sentado à sua frente, cabelo grisalho, barba aparada, olhar destemido — seu herói. José olhava Maria: o rosto não tinha mais o viço da juventude, aquela aura com que a Natureza costuma vestir toda mulher dos quinze aos vinte anos, e que transforma cada uma delas em uma flor de mistérios a exalar aromas capazes de fazer tremer másculas fortalezas. Não, José não tremia mais, sentia naquele rosto o porto seguro de sua vida, a certeza do acolhimento depois das batalhas, o lenimento dos danos sofridos. Se perdera ela o viço da flor-botão, adquirira a beleza do fruto maduro; sua pele ainda sedosa realçava o brilho do olhar e não escondia aqui ou ali alguma marca do tempo, como a Lua, sempre bela, não esconde também as suas.
            Maria José ostentava em seu colo o escapulário dourado que o marido comprara. Exibia-o com orgulho, era seu presente de aniversário. José Maria olhava a corrente folheada e se arrependia de não ter comprado algo mais caro. Sua mulher merecia mais, merecia o mundo. Contudo, se conformava: o escapulário ficara tão bonito nela!
            O garçom chegou para colher o pedido. José olhou para Maria e ela acenou com a cabeça.
            — Tomates secos com rúcula — disse José Maria.
            Era terça-feira e o restaurante não estava lotado, ainda assim tinha mais de meia casa. O estranho é que, fora o ruído de talheres tocando nos pratos, o ambiente era quase silencioso, faltava aquele burburinho habitual dos aglomerados de gente. Podia-se até dizer que havia um burburinho, mas tocado em surdina. José e Maria de início não haviam estranhado, estavam acostumados com o silêncio, mas logo depois perceberam que aquilo não era normal. Observaram ao redor: nesta mesa um casal, enquanto levavam à boca o alimento desviavam o olhar para o talher, logo depois voltavam a olhar cada um para seu celular, colocado ao lado esquerdo dos pratos; na outra mesa outro casal ainda não fora servido e, enquanto aguardavam, os dois teclavam furiosamente seus aparelhos. A cena se repetia em quase todas as mesas, com algumas exceções, como aquele casalzinho se pegando naquela mesa de canto, ou aqueles quatro homens executivos tratando de negócios ou, claro, dois ou três casais de idosos, que não tinham celulares, mas igualmente não conversavam.
            Não estranharam o silêncio dos casais antigos, eles próprios não conversavam muito. Sabiam, por experiência, que a verdadeira intimidade é revelada pelo silêncio e não pela conversa. Para se chegar à conquista do silêncio são necessários muitos anos de convivência. Só quem ainda não alcançou esse tipo de cumplicidade se sente desconfortável diante dele e, por isso, precisa “quebrar” o silêncio, como se golpeia um inimigo, e toca botar conversa no ar. Muita conversa, porém, polui o ar tanto quanto os motores de combustão, e quase sempre contribui para o desentendimento. O peixe morre pela boca.
            Chega a pizza e o garçom serve os dois primeiros pedaços, uma maravilha fumegante, quase branca de queijo, vermelha de tomate e verdinha de rúcula, uma verdadeira bandeira italiana. Despejam um fio de azeite em cima das belezuras e cortam o primeiro bocado. José Maria, somente com os olhos, pergunta para a mulher se está gostando. Maria José junta os dedos da mão esquerda, leva-os à boca e faz um gesto de beijo, que o marido traduz: — Maravilha! E assim, sem dizer uma palavra, os dois se entendem sem romper o momento mágico de silêncio.

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