Júlio Leão
nasceu no último dia do mês de julho e levou consigo o nome do mês e o nome do
signo, este, por vontade materna. As mulheres quase sempre são místicas, o que
é uma vantagem. Se a gente tem espinhela caída, uma simpatia e uma boa reza
costumam resolver o problema. Apenas a
época do nascimento não foi de todo conveniente, tempo de guerra. Mas aí não
havia escolha, o comando era das fiandeiras do destino. Ainda que longe dos
campos de batalha o país sentia seus efeitos. A vida era difícil, com carestia
e racionamento de gêneros; por vezes faltava até o pão de cada dia. Contudo, se
é verdade que água fria tempera o rubro aço, a dificuldade serviu para forjar-lhe
o temperamento forte. Apesar das privações teve ele uma infância feliz, não lhe
faltaram os jogos de botões pelas calçadas.
Vivendo em
cidade pequena não teve instrução além da básica e seu destino seria, como
tantos, perpetuar a situação modesta dos pais. Chegado à idade púbere, um parco
punhado de pelos vindo tomar o lugar das muitas espinhas que até então ocupavam
seu rosto, o pai o chamou para uma conversa séria: Não és mais uma criança;
amanhã vens comigo a aprender o ofício.
Além de
lusitano, o que se depreende do modo de falar, era também o pai um pedreiro de
mão cheia. Sendo Júlio rapaz esforçado, não demorou a absorver os ensinamentos
do mestre e logo também ele passou a fazer jus à menção de excelência. Dizia-se
em todo lugar: Tal pai, tal filho!
A penugem
engrossando em barba terminou por espantar as derradeiras espinhas que, de
repente, em uma gloriosa manhã de sol, não mais foram vistas no rosto do moço.
Talvez a aparência máscula, ou quem sabe hormônios imantados em dardos de
Cupido, foram responsáveis por Júlio começar a perceber com outros olhos
Glorinha, antiga companheira de bancos escolares. Aquela menina sardenta e
magricela, que vivia a importuná-lo com problemas de aritmética, incorporara
sensuais volumes no talhe esguio e nele adicionara movimentos que nem Freud
explica. Júlio, assim como outros machos novos, tornaram-se viciados em
acompanhar, com olhos lúbricos, o desfile diuturno da jovem no ir-e-vir à
farmácia de seu Álvaro, onde trabalhava. Sorte tinham alguns, que ficavam
doentes e eram por ela atendidos, felizardos aqueles a quem o farmacêutico
receitava injeções: Glorinha-mãos-de-fada as aplicava atrás da cortina e o
paciente desfrutava por dois minutos de sua intimidade. Não que algo impróprio
se passasse no recinto fechado, pois ela era moça de respeito, mas a delicadeza
dos movimentos e a candura da ação tocavam de ternura o coração do doente, que
saía quase restabelecido do cubículo.
Júlio não
tinha tempo para ficar doente, trabalhava de sol a sol, tinha, porém, uma
vantagem sobre os pretendentes, era o mais bonito. Ficou-se devendo até agora uma
descrição do rapaz, dívida que, afinal, não será paga por desnecessária. Basta
o que ficou dito: era o mais bonito.
Mais vale
quem Deus ajuda do que quem cedo madruga, diz a voz do povo. Contudo, neste
caso, o beneficiado pelos céus era ele também um madrugador. Fosse por sua
beleza ou por alguma outra razão, que será sempre desconhecida, o certo é que
Glorinha se tornou namorada de Júlio. Como sói acontecer, também sempre, um se
tornou a razão de viver do outro e andavam ambos em permanente enlevo.
A bem da
verdade – Júlio nunca soube, mas sabemo-lo nós – Glorinha, de fato, quando
menina, não tinha dificuldade alguma com as matemáticas, apenas fingia tê-las.
Era a maneira que encontrara para se aproximar de Júlio. Este, como todo
espécime do gênero masculino, não possuía o refinamento necessário para
perceber o ardil da garota. Ao diferençar os gêneros a mãe Natureza
prodigalizou estas astúcias à mulher, deixando ao homem o eterno papel de
vítima indefesa.
Por aqueles
diáfanos dias de enlevo entrou em exibição no cinema da cidade o filme Bambi,
desenho de Disney. Vinha cheio de fama, depois do sucesso de Branca de Neve. O
casal de namorados levou o irmão mais novo de Glorinha à matinê de domingo. A
tarde sorria com o Sol flamejando raios tépidos de outono sobre as flores da
praça da Matriz. Terminada a sessão saiu à rua o público, também ele sorrindo
como a tarde, o filme tinha sido bom, outro sucesso do mágico do cinema.
À noite
Júlio sonhou com o filme, mas no sonho Bambi era duplicado, não havia apenas
um, mas dois Bambis. Ao acordar não lembrou muita coisa do sonho – há pessoas
assim. Recordou, contudo, com segurança: havia dois Bambis.
De manhã,
na obra, assentando uma parede de azulejos, comentou com o primo Carlos o sonho
e indagou: Por que dois Bambis? O primo, especialista em sonhos – em toda
profissão esse espécime é encontradiço – traduziu de pronto o significado: O
que é o Bambi? Um veado. E que são dois Bambis? Dois veados. A coisa é clara:
vai dar veado duplo na cabeça!
Terminada a
interpretação, saiu o primo apressado, foi fazer uma fezinha no jogo da tarde.
Júlio ficou
só, com seus azulejos. Não tão só, ficou também com seus botões, e ideias
começaram a lhe verrumar o bestunto. Nunca fizera jogo de bicho, achava um
desperdício de dinheiro. Aliás, não gostava de jogo algum, puxara ao pai. Os
amigos diziam que era muito certinho, os desafetos, um sovina. O primo Carlos,
contudo, tinha que reconhecer, era de fato um entendido no assunto. Podia ser
besteira, mas, e se fosse um aviso dos céus? E se o destino estava lhe dando
uma oportunidade de ganhar um dinheirinho? Ele podia até comprar a motocicleta
do Fabrício, uma Jawa quase nova. Botava Glorinha na garupa e saíam os dois
bebendo vento pelos campos, cabelos em alvoroço. Quem sabe até que a namorada,
apeados em alguma clareira florida, cheirando o perfume bom, diante de um
horizonte de plantação verde e um céu de anil, quem sabe ela não facilitava
algum avanço? Esta ideia causou-lhe uma comichão que lhe percorreu a espinha e
terminou por decidi-lo: também ele largou os azulejos e saiu correndo. Foi a
casa, entrou esbaforido no quarto e sacou o salário da semana. Jogou-o todo com
o Beto: 2424 na cabeça, duas vezes o número do veado.
À tardinha,
encerrado o expediente dos azulejos, voltou a encontrar Carlos, que não havia
retornado ao serviço. O folgado bebia feliz uma cerveja no bar do Zé.
— Salve,
primo! Não te disse? Deu veado na cabeça! Veado duplo!
A boa nova
quase amolece as penas rijas de Júlio. Então dera certo, agora ele teria o
dinheiro para comprar a moto de Fabrício. Contou então a Carlos que também ele
jogara no veado duplicado. Tira do bolso a pule e mostra ao primo.
— Que é
isto, primo? Você não jogou no veado, jogou, sim, numa cabra dupla.
— Como
assim? Pois não é 24 o número do veado?
— 24 é o
grupo. O número do veado, que deu duplo na cabeça, foi 9494!
A tristeza
de Júlio foi imensa – havia chegado tão perto da bonança! – mas seria ainda
maior na noite seguinte, quando estivesse sentado no banco da praça com
Glorinha. Ainda deprimido veria passar a reluzente Jawa do Fabrício, pilotada
pelo risonho primo, cabelos ao vento.
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