Riobaldo
costumava dizer, e repetia sempre, que viver é perigoso. De minha parte,
concordo com ele, vivemos permanentemente rodeados de perigos. Um dos maiores é
ganhar o pão de cada dia com o suor do próprio rosto, castigo que nós, filhos
de Adão, pagamos até hoje pelo seu pecado. De todas as árvores do Éden só o
fruto de uma lhe era interdito, o da árvore do conhecimento do bem e do mal.
Não podia ser mais humano nosso avoengo, comeu o fruto proibido, não tanto por
ambição, creio eu, mas por simples curiosidade: como seria instigante conhecer
o bem e o mal! Uma aventura!
Continuamos
nós, ainda nos dias de hoje, sofrendo por causa de outras aventuras perigosas.
Parece até herança do DNA antigo. Ao botar o pé na rua, ainda de manhãzinha, já
encontramos perigo no enfrentamento do trânsito maluco de nossas cidades. Ao
atravessar a Praça da Sé, ao meio-dia, usufruindo do sol benfazejo coado pelas
palmeiras imperiais, somos tentados, em agradecimento, a elevar uma prece ao
deus Ra, e nesse instante de introspecção é surrupiado o celular de nosso
bolso. Se, em qualquer das vinte e quatro horas do dia astronômico, estivermos
a navegar despreocupados pelo oceano tranquilo da internet, não raro nosso
barco estará sujeito a soçobrar, atacado por falanges de vírus letais. E assim,
até quem já não vive, stricto sensu, pode
acabar morrendo lato sensu.
Para contrabalançar
os perigos da vida, Riobaldo contava com os atrativos de Diadorim. Distraía-se
também narrando suas aventuras a um paciente ouvinte.
Por ouvidor
tenho eu a amável leitora, tão pacienciosa quanto, cabendo-me apenas, para
mimetizar Riobaldo, a substituição de Diadorim, o que costumo fazer com
frequentes vilegiaturas às praias de Santos. Lá, com Bebel e nossa neta de seis
anos, consigo esquecer das agruras da vida.
Pois estava
lá outro dia, confortavelmente instalado em uma cadeira de lona, debaixo de
amplo guarda-sol, tomando uma caipirinha com gelo, quando vieram os
dinossauros. Era um bando deles, acho que uns seis ou sete. Bebel brincava com
Faela na franja das ondas, absortas em erguer pequenos castelos de areia que as
ondas logo desmanchavam e, tão atentas na tarefa, nem perceberam a chegada dos
bichos.
Creio que o
que os trouxe à minha volta foi o cheiro do amendoim torrado que começava a
descascar. Sempre ouvira dizer que esses animais têm um faro muito apurado,
rivalizando com os cães, só não sabia que gostavam de amendoim. É bem verdade
que aquele pacote que trouxera devia ser de excelente qualidade, pois até meu
nariz velho conseguia farejar o cheiro bom que evolava quando quebrava as
casquinhas. Os dinos se alvoroçavam e, abusados, fechavam o cerco sobre mim.
Bebel e Faela, distraídas, não se apercebiam da situação. Eu reagia batendo os
pés com força na areia ou dando safanões em pleno ar, mas não conseguia atingir
os inimigos, que eram ágeis e conseguiam se livrar dos golpes para logo voltar
a atacar.
Não sei
quantos minutos durou essa guerra, pois nas batalhas o tempo é relativo, se
estamos ganhando ele passa depressa, se perdendo, devagar. Só sei que em
determinado momento ela foi interrompida pelos gritos de Faela, que,
abandonando os castelos às ondas do mar, correu em minha direção bradando:
— Vô, não
briga com os pombos!
A
intervenção da menina interrompeu a batalha e afastou as aves. Usei então toda
minha diplomacia para acalmar a garota:
— Você
sabia, Faela, que há muito, muito, mas muito tempo mesmo, os pombos eram
dinossauros?
A menina
arregalou os olhos, depois fez um muxoxo de desdém e correu de volta para a
avó.
Mais tarde
Bebel me contou:
— Faela
disse que você é um mentiroso.
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