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PENUMBRA

            A Lua Cheia e a Noite são duas velhas senhoras e como tal devem ser respeitadas. Enquanto a Noite, dissimulada, esconde em seus escuros os sinais da idade, a Lua só faz isto em ocasiões de plenilúnio, quando a luz chapada que do Sol recebe permite algum disfarce. Contudo, basta surpreendê-la nos primeiros crescentes, ou nos últimos minguantes, e as marcas da antiga varíola se fazem notar em sua epiderme.
            Embora velhas e diversamente vaidosas elas se gostam e, quando se encontram, dão-se a folguedos como se fossem duas gurias. Dançam pelo ar, onde se escondem atrás de nuvens distraídas, bailam pelo chão levantando poeira, brincam de esconde-esconde. O escuro da Noite, quando flagrado por algum raio de luar, derrete-se em penumbra e vão então, luz e penumbra, desenhando figuras de coisas e gente. Às vezes algum Vicente, à beira de mares mediterrâneos, as surpreende em sua faina, junta um punhado de estrelas e pinta um quadro.
            Aqui, à volta de mim, a penumbra desenha uma praça de árvores, ali adiante, uma rua de casas. Sobre os telhados, úmidos de sereno, lampejam intermitentes fagulhas de luz escapadas da penumbra brincalhona. Os fios de força, estendidos entre postes, tecem em catenárias tênues contra o céu cinzento uma rede que faz lembrar uma pauta de música ainda por usar, já que as notas que ali pousarão foram dormir nos galhos das sibipirunas e flamboyants da praça. Com o nascer do Sol elas voltarão para compor outra vez o sempiterno hino da vida.
            Vagueio pela praça vazia, caminho até o início da rua. As casas estão silentes. Todos dormem. Ninguém sabe o que aconteceu no fim da rua, se soubessem não mais dormiriam. Interrompo os passos, que adianta agora ir até lá? Indeciso, fico parado por um minuto, enquanto um gato aproveita e atravessa a rua, indo se enfiar entre os arbustos do jardim da Casa Grande. Dentro dela o prefeito também dorme. Que dirá amanhã quando souber do acontecido?
            Volto à praça. Ando lento. O baixo ruído de meus passos faz contraponto em surdina com o silêncio da noite. Vou e volto, passo e repasso à frente da porta da Matriz, ela também fechada e silente. Até Deus dorme. Estivesse aberta, poderia entrar e ajoelhar-me num banco, talvez rezar e pedir perdão. Bobagem! Esqueci todas as rezas que aprendi em criança. Do catecismo infantil só guardei alguns dos mandamentos, e um deles agora me assombra e abrasa.
            Sem que me dê conta vejo-me sentado neste banco. Sem que percebesse, o corpo cansado tomou a decisão e sentou-me no banco. Por que Alice agiu daquela forma? Por que as coisas desandaram e chegaram a tal ponto? Eu devia ter me controlado, não podia ter feito aquilo! Até esse cachorro cinzento parece me recriminar: fica aí, parado, me olhando com esses olhos frios.
            — Passa! – Grito e bato o pé, e o cão foge assustado.
            O grito, por um instante, veio quebrar a paz da noite. Alguns pássaros se espantaram com o barulho repentino e ensaiaram uma revoada ruidosa que, no entanto, durou pouco. Logo se acalmaram e tornaram a pousar nos galhos abandonados. A quietude voltou a reinar. Consegui por um instante contagiar o mundo com meu desassossego. Mas o mundo se recupera rápido e ei-lo de novo plácido, indiferente, silencioso. A Lua e a Noite voltam a brincar de fazer desenhos de penumbra, eu, porém, não vejo mais nada, meus olhos se voltam para dentro e começam a devassar as trevas de minha alma.
            Esse exercício, contudo, é interrompido por um toque-toque que quebra a calma da noite e cresce em minha direção. Saindo da rua uma silhueta de homem avança pela praça com passos firmes, produzindo um som ritmado e um tanto metálico, que chega a agredir os ouvidos ao substituir o silêncio até há pouco reinante.
            A figura vai ganhando nitidez à medida que se aproxima. Já quase dá para ver quem é... É ele! Esse cenho carrancudo, esse olhar furibundo, será que ele já descobriu o que acabo de fazer?
*


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