Certezas
se derretem. Ingênuos os jovens que pensam que tudo sabem, seus saberes também
serão derretidos. É do fado humano. Nosso engenho pode até se agigantar, mas
fatalmente será um dia derretido, ação do Tempo, esse cadinho universal. Vejam
nosso Clube da Bengala, nasceu forte e hoje está prestes a desaparecer. Éramos
oito sócios, mas um desistiu, três faleceram e hoje somos apenas quatro: o
decano Oswaldo, de saúde debilitada, que não tem comparecido às reuniões, eu,
Hermes e João. Três, que sobramos, nos encontramos a cada quinzena com o
objetivo de manter vivo o moral da tropa. Não sei até quando, pois já passamos
dos verdes anos e cataratas e lumbagos têm afligido nossas existências. A
finalidade do Clube já foi dita: manter vivo o moral da tropa.
Aposentados,
nos reunimos em almoço para falar de tudo. Antigamente, de mulher, nosso
assunto preferido, mas o tempo foi passando, os anos correndo e escorrendo por
baixo da porta e, de repente, nenhum de nós conseguia mais lembrar com
segurança para que serviam as mulheres. Passamos então a falar de filhos, netos
e até — pasmem os puristas! — de futebol. Hoje, mais sábios, preocupamo-nos em
salvar o mundo.
Dos três, o
mais falante é o João; Hermes e eu somos bons ouvintes. Quem sabe por ser o
único a navegar pela internet, João acredita em tudo que lê, enquanto nós
outros, céticos, recebemos com dúvida boa parte daquilo que fala, não por ser
ele mentiroso, mas um tanto cândido. Verdade ou não, são boas algumas das
histórias que conta.
Sem querer
abusar da paciência do leitor, conto uma delas.
João começa
esclarecendo que conhece Nicolau há muito tempo; era seu cliente nos primeiros
anos em que botou banca. Defendia-o em processos de sonegação fiscal e outros
de pior mérito. Nicolau era, então, despossuído. Começavam os dois a vida, um
trabalhando duro no fórum, o outro a fazer trapaças, falsear negócios,
descumprir palavra e pregar mentiras. Para alcançar os fins não pesava meios.
Finório, ardiloso, dava o bote no momento certeiro, e a vítima incauta não
tinha outro caminho senão procurar seus direitos nos tribunais, sujeitando-se à
morosidade de que são apanágio. E nesse ponto entrava em ação o novel
escritório de advocacia de João. Por tudo isso, e quem sabe também por sugestão
da homonímia que tinha com o xará famoso, não tardou que alcunhassem Nicolau de
Maquiavel. Em pouco tempo ele próprio tomou conhecimento do apelido e, pouco
letrado, não atinou com sua razão. Foi João que lhe recomendou a leitura de O
Príncipe, até lhe emprestou o livro — que, por sinal, jamais foi devolvido.
Lido o
livro, Nicolau manifestou agrado com a alcunha, viu-se merecedor e até chegou a
confidenciar:
— Se Maquiavel ainda fosse vivo, teria orgulho
em convidá-lo para ser meu sócio!
Não demorou
que João e seu Maquiavel se separassem e trilhassem caminhos diferentes. João
alcançou um bom emprego público, desistiu da banca, e hoje desfruta de
aposentadoria confortável. O ex-cliente amealhou fortuna, foi estampado em
colunas sociais, fundou partidos políticos e hoje trafega com desenvoltura
pelos gabinetes de Brasília. Tornou-se um pai da pátria.
João
confessa que tem até vergonha de ter tido tal pessoa como cliente, pois desde o
começo reconheceu seu mau-caratismo. Desculpa-se, contudo, começava a vida e
não podia se dar o luxo de escolher a clientela, afinal, como dizem os
franceses, “noblesse oblige”.
Quando
Maquiavel começou a enricar bandeou seus processos para um escritório mais
importante que a pobre banca de João. Este, contudo, não perdeu inteiramente
notícias dele, sempre desabonadoras: escândalos e falcatruas. Comprazia-se ao
vê-las pelo acerto de seu precoce diagnóstico sobre o caráter de Nicolau — o
que lhe massageava o ego de bom conhecedor da alma humana — e se congratulava
de ainda cedo ter se livrado do contato com aquele pulha.
Pois não é
que o contado foi renovado recentemente? Outro dia, em voo da ponte aérea, João
sentou-se em sua poltrona e, virando à direita, ali estava a seu lado o
famigerado. Reconheceram-se imediatamente, trocaram cumprimentos e
perguntaram-se reciprocamente um do outro, como manda a boa educação. Conversa
puxa conversa, não demorou que o homem contasse ao nosso João um estranho sonho
que tivera na noite anterior e, ao fazê-lo, ainda demonstrava nervosismo.
Sonhara que tinha morrido durante o sono.
João, como
bom contador de histórias que é, neste ponto fez uma pausa, talvez para fruir
do gozo de um suspense, mas pausa que, reconheço com humildade, serviu para um
melhor entendimento das peripécias que mais tarde aparecerão no tal sonho. Não
teria eu, pois, a inabilidade de sonegar ao curioso leitor as informações trazidas
por ele, antes que o sonho seja revelado.
Diz João
que ficou sabendo durante a conversa, em surdina, quase em tom de confissão,
que Maquiavel (Nicolau) estivera nos últimos tempos passando por o que ele
mesmo chamava de “uma crise espiritual”, logo ele que tinha como único deus o
dinheiro. Com a idade chegando, começou a se preocupar com o destino de sua
fortuna. Se ele morresse amanhã ela iria para o governo, onde os corruptos de
sempre a saberiam desfrutar, pois ele não tinha herdeiros. Mas isso ainda era o
de menos. Se ele, biblicamente, tornasse ao pó, de que adiantaria ter vivido?
Vivido e lutado para quê, para no fim voltar a ser nada? Lembrou-se de que o
fim justifica os meios e, maquiavelicamente, resolveu trocar seu ateísmo por
alguma religião que lhe garantisse vida eterna. Estivera procurando a mais conveniente, uma que lhe
oferecesse as maiores benesses. Passou a ser um estudioso das religiões,
católica, protestante, budista, islã; recusou o judaísmo, não confiava em
judeus. Ultimamente vinha lendo Kardec, o que parece ter influenciado o sonho,
como veremos a seguir.
Com medo de
uma morte que se anunciava não tão distante, resolveu fazer testamento em favor
de instituições de caridade ligadas a religiões, digamos, mais compreensivas.
Avaro que era, jamais havia doado algo em toda sua vida, iria se redimir ao
morrer. Seria sua grande ação, o final glorioso da existência, com reportagens
em jornais e televisão. Seria também uma aplicação financeira, sua última,
visando ao futuro, uma forma benemérita de conseguir a boa vontade de santos e
deuses. Pena que o Papa não mais vendia indulgências, como faziam seus
antecessores quinhentistas. Seria tão mais fácil!
Feito este
preâmbulo preparatório, João voltou à descrição do sonho de Maquiavel
ressalvando que o faria conforme fora pelo próprio relatado. Não há que se
duvidar da honestidade intelectual de meu amigo, de modo que qualquer
extravagância que venha a seguir deve ser debitada a seu ex-cliente e não a
ele.
Sonhou,
pois, Nicolau que havia morrido durante o sono. Não entrou em detalhe sobre a
“causa mortis” — morrera, e ponto. Ao enterro não comparecera nenhum amigo, que
ele não os tinha, apenas alguns correligionários políticos em busca de fotos e
menções no noticiário, afinal tratava-se de um fato jornalístico a morte de um
pai da pátria. Coroas de flores houve várias, também assinadas por partidos
políticos e os mesmos interessados.
O velório,
para desgosto do defunto, parecia mais uma festa do que uma despedida. Por toda
parte profusão de sorrisos e, como manda aliás a tradição pátria, piadas novas
e antigas, descontração e leveza e absolutamente nenhum sentimento de tristeza.
As conversas eram de poder e dinheiro e divergências sobre sua herança política
se iniciavam ainda camufladas de bom tom.
Uma equipe
de profissionais do além, encarregada de promover o desligamento do espírito de
seu cadáver trabalhava silenciosamente e, terminado o serviço, retirou-se sem
se despedir. Nicolau estranhou a frieza do atendimento e se dispôs a fazer
queixa posterior à gerência, afinal, estava acostumado a ser paparicado em
todos os ambientes por que passara. Nunca chegou a desconfiar que o bom
atendimento fosse tão somente por causa de suas gordas gorjetas. É típico do
gênero humano se julgar merecedor.
Espírito
recém liberto da matéria, Maquiavel perscruta os céus à procura de uma fonte de
luz, pois assim aprendera nas palestras de culto: os espíritos de luz virão
recebê-lo para o encaminhar aos planos elevados. Ao invés, o que ele vê é um
escurecimento que se adensa como uma nuvem de tempestades, e de dentro dela sai
uma falange de espíritos sombrios que, com voz soturna, clamam em uníssono:
— Viemos
buscar o usurário! Viemos levar o egoísta!
Neste
preciso instante um homem velho, desconhecido de todos, encurvado pelos anos,
magro, com roupa simples do povo, também ela denotando o desgaste do tempo,
aproxima-se do defunto, deposita uma rosa em seu peito e inicia uma prece
silenciosa. A falange medonha suspende seu clamor enquanto um clarão se abre na
nuvem escura, antecipando por um segundo a chegada do anjo Gabriel, que surge
dardejando luz, de espada embainhada.
— Esperem!
Façamos um julgamento justo! — ordena o anjo.
Neste ponto
da narrativa fica evidente a falsidade do sonho maquiavélico, aliás, como tudo
que o facínora sempre fizera na vida. Não iria desdourar sua fama com um sonho
honesto. Ao que se saiba, os julgamentos se darão ao acabar dos tempos, no
chamado dia do Juízo Final. Não teria ele mérito, com seu currículo de bandido,
para provocar uma antecipação particular. A propósito, o enredo do sonho, além
de grande dose de megalomania, carrega fortes pinceladas de sincretismo caótico.
Voltemos,
contudo, ao enredo. Gabriel — que devia, como todo anjo, ser assoberbado de
trabalhos — constituiu rapidamente um tribunal e assumiu a direção. Ouviria
primeiro a acusação, seguindo praxe imemorial. Os espíritos mais exaltados da
falange se manifestaram despejando um rol de acusações, uma fieira de
iniquidades bastante para preencher cem vidas. Foram tantas as abominações que
seriam suficientes para encher mil tonéis de maldade. Maquiavel a tudo escutou
de cabeça baixa, não podia reclamar da verdade. Compreendeu que estava
irremediavelmente perdido.
Terminado o
libelo acusatório Gabriel chamou a presença da defesa. Alguns minutos
constrangedores decorreram sem que alguém se apresentasse e o anjo começou a
demonstrar propensão de ditar a sentença quando aquele velho miúdo, antes
citado, se adiantou e, humilde, pediu licença para um depoimento.
Maquiavel
se agitou. Ele, que já se julgava perdido, como um náufrago em procelas,
agarrou aquele fiapo de esperança e indagou de seus botões:
— Por
Belzebu, quem é esse velho?
Ele não se
lembrava, fazia mais de cinquenta anos, e fora um incidente tão banal... Mas, à
medida que o homem falava, seu cérebro sacudiu o quartinho das memórias antigas
e de lá tirou a recordação, toda envolta em teias de aranha e tão enrugada que
mal dava para reconhecer. Examinada com atenção, foi-se aclarando: o homem pedira-lhe
ajuda para remédio do filho doente. Certo que ele o mandaria às favas em
condições normais, mas naquele momento a situação fora especial, a seu lado, de
mãos dadas, carregava ele uma namorada recente, Rosinha. Naqueles tempos
antigos era difícil convencer uma mulher a se deitar numa cama, e Rosinha não
parecia nem um pouco disposta a ceder. Tinha, porém, um fraco, a moça se
condoía com o sofrimento alheio. Nicolau notou no rostinho dela um sentimento
de dó e pensou rápido. Sacou a carteira do bolso do paletó (na época todos
usavam paletó) e tirou uma nota graúda.
— Isto deve
bastar – disse ele.
O homem
arregalou os olhos, tomou a nota com mãos trêmulas, beijou a de Maquiavel e
gaguejou um Deus lhe pague.
Agora ali
estava o velho contando a história sem ter nunca desconfiado do verdadeiro
motivo da ação. Enaltecia o bom coração do benfeitor e demonstrava imensa
gratidão pela esmola, que tivera como resultado a salvação do filho doente.
Neste ponto
do depoimento o velho não conseguiu conter a emoção — como sói acontecer com os
velhos de todo tipo, pois é notório que os anos têm o condão de afrouxar a
têmpera — e um choro copioso se fez presente.
Maquiavel
percebeu que não podia ter encontrado um defensor melhor do que aquele velho
ridículo. O semblante de Gabriel parecia ter perdido a dureza de juiz, tocado
que fora pelo depoimento emotivo, e de pronto o réu, cínico que era, foi logo
pensando: — Os anjos devem ser todos
eles uns pamonhas!
Terminado o
testemunho do ancião, o anjo engoliu seco, meditou um minuto, e enunciou sua
decisão:
— Nem céu
nem inferno! Este homem cometeu graves pecados e mereceria condenação eterna.
Demonstrou, contudo, pelo menos uma vez na vida, comiseração pelo seu
semelhante. Ajudou quem sofria e sua ajuda permitiu que uma vida fosse salva.
Além disso, agora, na velhice, decidiu e fez um testamento que vai favorecer
diversas instituições de caridade. São obras boas, que devem ser postas na
balança, no entanto ainda não suficientes para anular o rol de malefícios trazidos
à colação pelo libelo acusatório. Se ainda não merece o céu, seria injusto
lançá-lo neste momento ao inferno, justamente na hora em que parece dar indício
de mudança de caráter.
Há quem
julgue — continuou o anjo — que apenas e tão somente uma boa ação, praticada
durante uma vida inteira, já seria suficiente para absolver uma alma de seus
pecados. Não penso eu desta forma, é muito pouco! Esta vertente de pensamento
surgiu por imitação indevida que se faz daquele escritor russo, que consolava
seu personagem de noites brancas, o qual acabara de ser preterido pela mulher
amada. Apesar disso bendizia ele a moça pelo instante de felicidade que lhe
trouxera e concluía ser isso bastante para preencher toda uma vida.
Há bem e há
mal — assegurou Gabriel, caminhando para o final da sentença — Estamos neste
caso para decidir entre os dois. Ou Nicolau ou Maquiavel, quem dos dois
prevalecerá? Pelo poder a mim confiado, decido: Nenhum! Suspenda-se a morte do
réu! Que ele torne a viver por mais alguns anos, ao término dos quais voltará a
ser julgado.
— Pô, João,
esse final está meio forçado! — interrompeu Hermes. — O anjo parece ter feito
curso de direito. Além disso, como Maquiavel permaneceu iletrado durante toda
sua vida, é claro que não teria lido Dostoiévsky e, portanto, não poderia
citá-lo, ainda que em sonho.
(Esta
expressão “Pô!”, não se escandalize, delicada leitora, é apenas uma síncope de
“Pombas!” e não de outra palavra chula que madama possa ter imaginado. Nosso
Hermes é homem de respeito, não se permitiria extravagâncias de mau gosto.)
— Tá,
desculpa, gente! Me empolguei — João confessou.
— Mas —
continuou Hermes —, como é afinal o fim da história? Tendo voltado a viver,
como tem se comportado o homem? O susto por que passou serviu para emendá-lo?
— Qual-o-quê!
Continua Maquiavel.
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