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ESQUECIMENTO

            Pronto, a luz está piscando, deve ter ligado.
            O primeiro registro que faço é para agradecer ao amigo Alê, meu guru de modernidade, que ajudou a comprar este gravador lá na Santa Efigênia e me ensinou a lidar com ele. Culpa da Bebel, que me levou a consultar o senhor, dr. Antônio. Um geriatra! Só porque ela acha que estou ficando um tanto esquecido. Quando entrei em seu gabinete tive uma sensação de estranhamento, como pode um moço de pouco mais de trinta anos entender as coisas da velhice? Durante a consulta até brinquei com o doutor, falei que do seu nome não ia esquecer. Por quê? Porque era o nome de meu pai, que Deus o tenha. Pois não é que o senhor, dr. Antônio, até que me surpreendeu? Como todo médico, fez perguntas, escreveu  receita, pediu exame de sangue e, o que eu não esperava, quis que eu gravasse tudo que viesse a fazer durante dois ou três dias. Senti firmeza. Não deixava de ser um desafio. Por isso tive que comprar este aparelhinho.
            Agora, por exemplo, estou no banheiro, aonde vim meio correndo, pois estava na cozinha, sossegadamente tomando café com leite, comendo pão bem quente com manteiga à beça, relembrando do moço Noel e, como de costume, deixando para o fim aquela pera madurinha, porque o melhor deve ficar sempre por último, quando senti um revertério na barriga que me obrigou a vir correndo ao banheiro. Não deu tempo nem de comer a perinha. Mas não faz mal, agora que já obrei o devido, volto à cozinha e como a danadinha.
            Desligando...
*
            Ligando!
            Até agora há pouco estava no banheiro e ia saindo para vir à cozinha, quando mirei minha triste figura no espelho. Vi que precisava aparar a barba. Peguei a gilete e escanhoei o rosto com duas boas passadas; gosto que minha cara fique lisa como bunda de nenê. O doutor vai dizer que é mania. Está certo, mas o que posso fazer, mania tem cura?
            Acabei de entrar na cozinha, O que é mesmo que vim fazer aqui? Sei que tinha a intenção de fazer alguma coisa, mas não lembro o quê. A água! Deve ser isso. O doutor mandou beber bastante água, diz que é bom para as ideias. Vou beber um copo e depois vou ler o jornal.
            Desligando...
*
            Religando!
            Estou sentado à mesa para o almoço. Se o doutor estivesse aqui seria convidado. Fica valendo a intenção. Como de hábito, pego meu copo pequeno, de vidro, e tiro um martelo de pinga do barrilzinho que mantenho ao canto da mesa. Escorropicho de uma vez só na garganta a marvada e sinto a queimação boa descer goela abaixo. Não vá o doutor, na próxima consulta, proibir minha cachaça! A vida tem que ter suas alegrias. Talvez o senhor fique até aborrecido, mas sou amigo da verdade, por isso confesso que não é este o único martelinho que bebo no almoço. Bebel briga, mas permite que beba ainda mais um. Mas só mais um. A contragosto, vencida, ela hoje concorda que um é pouco, dois é bom, mas três é demais. Contudo, não se assuste, não, doutor, que o segundo eu não entorno de vez, bebo devagarinho, acompanhando a comida que vou comendo. Não há de fazer mal. Verdade que às vezes acontece um pequeno acidente, como noutro dia, acidente do qual julgo ter só meia culpa, a outra metade ficando por conta do barril, que tem uma torneirinha sem vergonha. Quando a gente abre, ela deixa escorrer só um fiozinho de cachaça, que demora uma eternidade para encher o copo. Pois não é que, naquele dia, abri a torneira e depois me distraí com a visão da travessa de arroz, que veio para a mesa fumegando, numa brancura de grãos soltinhos, com fumacinha subindo e espalhando o cheiro, um verdadeiro encanto... Bebel é uma cozinheira de mão cheia! De repente, o grito dela me tirou da contemplação: A pinga! Olhei assustado na direção que o grito apontava: a bebida transbordava do martelinho e ensopava a toalha. Que desperdício!
            Agora o doutor me dê licença, que vou almoçar.
            Desligando...
*
            Ligando!
            Aqui, na estação Ana Rosa do metrô, faço uma pausa para contar que estou vindo da zona oeste e vou para o sul, até São Judas. Enquanto espero o trem da conexão, vou conversando com o doutor.
            Há pouco, quando entrei no vagão, não tinha lugar para sentar, tudo ocupado. Uma moça se levantou e cedeu o assento. Vantagem de ser velho. Como costumo usar óculos de sol espelhados, pus-me a observar a garota sem receio de ser inconveniente, dado que ela não podia notar meu olhar. Era bonita a danadinha! Trajava saia curta, ligeiramente acima dos joelhos, de um cinzento claro que combinava bem com o paletó preto. As pernas, bem torneadas, subiam do sapato alto, veladamente camufladas pela meia de seda de tom escuro, até se esconderem por baixo da saia justa, deixando na gente vontade de ver mais.
            Não se perturbe, doutor, a descrição que faço não tem intenção de ser erótica, que meu tempo já passou, é apenas um exercício estético. Estou chegado àquela fase da vida que costumam chamar de sábia, quando os hormônios estão dormentes e passamos a apreciar a beleza que há no mundo. E há coisa mais bela que uma mulher linda, especialmente se ela irradia o frescor da juventude?
            Contudo, o que é bom dura pouco. Meu encantamento se desmanchou quando o trem parou na estação Paraíso e a moça foi-se embora, levada por seu andar elegante. Em minha cabeça caduca acendeu em neon o título da imagem: “ Anjo desce ao Paraíso”. Devo ter achado graça, pois me surpreendi sorrindo. O certo é que o uso do cachimbo deixa a boca torta; depois de tantos anos ainda pensava como publicitário. Na verdade, o mundo real não é tão romântico, creio até que o anjo não passava de fato de uma advogada, pois carregava uma bolsa onde bem caberia um vade-mécum.
            Desligando, que o trem vem vindo.
*
            Ligando de novo!
            Vim parar na delegacia de polícia. Uma confusão! Desci do metrô e percebi que tinha esquecido onde ficava a igreja de São Judas. Estranho, pois venho todo ano rezar para o santo, como fui esquecer? Perguntei — quem tem boca vai a Roma, não é o que dizem? Encontrei a igreja, entrei, rezei. Quando saí à rua me deu um branco, não sabia para onde ir. Estava desorientado. Tinha consciência de que devia tomar o metrô, mas para onde? Esquecera o endereço.
            Zanzei pelas redondezas, como barata tonta, na esperança de que a sensação de meus pés, pisando duro as calçadas, pudesse combater aquele branco dos miolos. Mas não adiantou, não, o branco insistiu em continuar branco e aquele nada refulgente ofuscava qualquer ideia que procurasse. De repente me vi em frente a esta delegacia e resolvi entrar para pedir ajuda. Escondi a vergonha debaixo da desculpa de ser um velho. Faço sempre isso.
            O delegado me atendeu com boa vontade e, colocado a par da situação, sorriu e pediu para ver meu celular. Não tenho. Como, o senhor não tem celular? Não, nunca tive. Ele fez uma cara de espanto, depois coçou a cabeça, então fez outra cara, dessa vez de eureca, e perguntou se eu tinha documento. Tirei a carteira do bolso do paletó e aí, doutor, o senhor me salvou: o delegado vasculhou a carteira e descobriu um cartão do senhor, que eu havia pegado no dia da consulta. Leu nome e telefone, e ligou para o doutor. Bebel foi contatada.
            Neste momento estou aguardando meu resgate e tenho até medo da bronca que vou levar.
            Parece que Bebel está chegando...
            Desligo.
 


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