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SOMBRA E SOL


SOMBRA E SOL

 

            Lucas já passara dos cinquenta e ainda não aprendera, continuava depressivo. Creio mesmo que sempre o fora. Não tinha razão para tanto, pois sua vida era mansa, realizado na profissão, abonado em pecúnia, não tivera percalços de amor, nem fora avassalado de paixões. Pensando bem, talvez por isso tinha depressão. Conseguira adicionar a ela um pessimismo incurável, pois parecia aquela figurinha patética das histórias de quadrinhos, que anda sempre acompanhado de uma nuvenzinha de chuva sobre a cabeça. O Sol ilumina a cena e as outras figuras e só ele anda sob sombra e chuva.
            Tem amigos, o nosso Lucas, mas não muitos. É inteligente e culto e sua conversa não chega a ser desinteressante. Um dia um deles abusou da franqueza e fez-lhe a sugestão: por que não procura um psiquiatra para tratar da depressão? Na hora Lucas ressabiou, e quem não ressabia diante de tal indicação? Depois, como sói acontecer, pensou no assunto e acabou por achar razoável a proposição.
            O doutor consultado lhe deu uma receita de tarja preta e um conselho de tirar férias, ir para uma praia do nordeste, tomar água de coco, banhar-se de sol.
            Lucas foi.
            Lá estando, em um paraíso de areia branca e mar morno, levou consigo suas sombras. Sua pele branco-alvorada destoava daqueles corpos dourados, dionisicamente queimados de sol e a alma ensombrecida era um contraponto triste à quase lascívia dos corpos seminus. Os raios que o displicente Sol dardejava sobre homens e mulheres parece que penetravam além da pele e neles despertavam recônditas glândulas que, assim aquecidas, punham-se a despejar no sangue eflúvios de Marte e Afrodite. O resultado é que a faixa de areia da praia se transfigurava em extenso palco onde os corpos se exibiam no antigo e eterno baile da sedução.
            Lucas não fazia parte daquela coreografia, protegia sua brancura opaca na sombra da barraca de seu Osório. Alpercatas ao lado, os pés descalços brincavam na areia, embaixo da mesa tosca. Sobre ela uma garrafa de cerveja e um copo pela metade testemunhavam que o ocupante da mesa estaria disposto, dentro em pouco, a entrar na dança, ele também. Contudo, se ali houvesse um observador diligente, facilmente concluiria que não. O semblante de Lucas continuava soturno, absorvendo a sombra que nele caía, produzida pelo teto de sapé, à qual fazia somar a sombra interior, que nascia de seu âmago e lhe aflorava na face. Toda aquela vida a sua volta, a explodir de luz solar, desafiava seus olhos baços, mas não conseguia distender os tendões travados de sua alma dormente. Mais gelada que a cerveja no copo, sua visão embaciava o quadro vívido que a natureza lhe oferecia. Vamos, porém, com calma, era só o primeiro dia.
            À noitinha, na ruela principal do vilarejo, em meio ao lusco-fusco emanado da iluminação de meia dúzia de restaurantes, as raparigas desfilavam suas belezas. Entre sombras e réstias da luz coada, viam-se epidermes de cobre e seios atrevidamente anunciados sob pedaços de chita. Algumas trajavam saias compridas com grandes estampas de flor, outras, apenas calções diminutos. As belezas mostradas satisfaziam todos os gostos, pudicos ou sensuais.
            Lucas entrou em uma das casas de pasto e pediu um espaguete ao sugo, quase o pede a putanesca, refreou a tempo o impulso incômodo, culpa desses nomes impróprios e de quem os inventa.
            Enquanto o prato era preparado, não se furtou de desfrutar a visão das moças em seu desfile interminável de ir e vir ao fim da rua. Não se deu conta, então, de que apreciava o espetáculo e, menos ainda, de que fazia muito tempo que deixara de apreciar qualquer coisa. Estivesse ali o doutor, certamente teria sorrido.
            Nos dias seguintes foi se soltando, aventurou-se ao sol com cuidado e muita pomada, entrou no mar e lembrou que sabia nadar. Lembrou também que já fora criança, que jogara bola e rodara pião, que já fora moço e tivera entre os braços uma rapariga igual às que via da janela da casa de pasto. Lembrou que já vivera. Teve vontade de ressuscitar.
            Naquela noite pediu espaguete a putanesca.
            Vencido o prazo de uma semana que se dera, pôs-se a compor a mala para retornar à civilização. A cada peça que acomodava sentia um aperto no peito. Via a pele do braço contrastando com o branco da camisa. Quem diria! Na semana passada eram ambas da mesma cor. Olhou-se no espelho e quase não se reconheceu, aquela cara levemente rubicunda não era sua, era de alguém que respirava. Interrompeu a tarefa que fazia e sentou-se na cama. Sem intenção, assumiu a posição do pensador de Rodin, cotovelo no joelho e punho no queixo. O que o esperava na cidade? Rotina vazia, ramerrão sem sentido. Alguém precisava dele, sentia sua falta? Envergonhado, recusou-se a enfrentar a resposta. Continuou a se questionar, fez um balanço completo e na demonstração de lucros e perdas extraiu um resultado negativo. Depois de alguns minutos sacudiu a cabeça, fez com a mão um gesto largo, como se jogasse alguma coisa ao chão, levantou-se e desfez a mala.
            Foi ficando, mais um dia, mais outro, esquecendo da cidade, esquecendo do tempo, entregando-se ao sol, mergulhando no mar, tomando cor, espantando o branco da pele. Comprou na lojinha roupas novas, bermuda de cor, camisas de flor, chinelos de dedo. Pele escurecendo, barba crescendo, cabelo desgrenhado, não demorou a se igualar aos habitantes locais. Até Lindinha, aquela cabrocha fornida, deu de enrabichar olhar para cima dele.
            Um dia notou que estava sem o relógio e não lembrou onde o deixara. Não o procurou, não precisava, tinha aprendido a consultar o tempo pela posição do Sol. Se de noite, pelo Cruzeiro, por Orion, pelo Touro. Durante a semana, todos os dias passaram a ser de feira, menos os domingos, que ele reconhecia pelas pessoas de corpos asseados e roupas limpas a caminho da igreja. E foi em um desses domingos que voltou a ver Lindinha, vestido de chita vermelho, cachos de cabelos caindo displicentes sobre os ombros nus, toda a figura fazendo jus ao nome da dona. As coxas acobreadas, os peitos túrgidos e, acima de tudo, no rosto trigueiro o sorriso-convite que a moça jogava nele, por cima do ombro, tudo isso alterou o batimento cardíaco de Lucas e o sangue correu mais quente em suas veias.
            Aguardou impaciente na porta da igreja o fim da missa e abordou Lindinha, quando saía. A moça não se fez de difícil, afinal estivera esperando por isso havia algum tempo. Passearam de mãos dadas pela praia e Lucas se surpreendeu gostando da conversa simples da rapariga. Abaixo filosofias e metafísicas, deliciou-se com os mexericos das lavadeiras, com as maledicências das comadres, com as estripulias da meninada. Lindinha contava tudo com graça e, quando sorria, apertava a mão de Lucas contra seu seio.
            Nem um, nem outro notou o tempo passar, nem lembraram de almoçar. O Sol, que não tinha sido chamado na conversa, cansou-se de olhar de longe e resolveu abandonar a cena mergulhando atrás do mar. Foi só então, quando a Noite começava a arrumar sua cama, estendendo o lençol escuro, que o casal percebeu que o dia findara.
            A casa de pasto mal abrira a portas e os dois lá estavam com os estômagos a reclamar. Comeram o que pediram, beberam o que puderam. Aplacaram a fome dos estômagos e só então perceberam que outra espécie de fome reclamava seus direitos. Foram depressa cuidar disso.
            Hoje já faz um ano que Lucas esqueceu de voltar. Ele e Lindinha não conseguiram ainda matar aquela fome.
            Continuam tentando.


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