O poeta Casimiro tinha saudade dos
seus oito anos, de sua infância querida, ainda que, nela, não houvesse tido a
seu lado os olhos azuis de Belinha. Naquelas tardes fagueiras, embaixo das
bananeiras, não era ele mais feliz que Tiãozinho, quando este saía da escola de
mãos dadas com a menina de olhos de céu. Almas leves, saltitavam como
borboletas pelas alamedas bem cuidadas do aquartelamento militar. O sol,
infiltrando-se pelo arvoredo, pintava de amarelo as pedras brancas da calçada
produzindo, com as ilhas de sombra, um desenho infantil. Em cima dele os
meninos aproveitavam para pular o jogo de amarelinha.
Filhos de oficiais aviadores,
moravam em casas vizinhas e se viam diariamente desde sempre. Tão acostumados
estavam um ao outro que nem se davam conta da importância dessa convivência.
Desfrutar da companhia mútua era tão natural quanto beber o suco de laranja que
levavam na lancheira, ser acordado pelo beijo da mãe, ou aspirar o aroma que os
eucaliptos costumam desprender ao final da tarde. É da natureza humana não dar
o devido valor àquilo que vale, até que se o perde.
Tiãozinho naquele dia voltava da
escola só. De passo arrastado não saltitava mais pelas alamedas assombreadas de
sibipirunas; sentia nas costas o peso da pequena mochila, sentia na alma a
falta de Belinha. Nos quadros de luz e sombra desenhados no chão, não mais
jogava a amarelinha.
O pai da menina fora transferido
para a base de Natal e, naturalmente, a família o acompanhara. É da rotina
militar, todo mundo sabe, só não o sabiam os meninos. Aquilo que era comum para
os adultos revelou-se um choque para as crianças. Onde já se viu uma Belinha
sem um Tiãozinho? Agora era só um Tiãozinho, Belinha tinha voado. Deixara
apenas uma lembrança alegre, que, quando era lembrada, ficava triste. E o
menino misturava e bebia a primeira receita que a vida lhe trazia, a alegria do
que foi com o amargor do que era, e não gostava nada do resultado: o amargor
sobressaía, quase não deixava que se percebesse uma ligeira doçura no fundo do
copo.
De noite, antes de dormir,
imaginava: devia ter pedido:
— Belinha, casa comigo?
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Pronto! Agora ele já podia tirar
carta de motorista, era “de maior”. Não se sentia mais Tiãozinho, agora era
Tião. Chega de inho.
O leitor, que já passou por essa
idade há algum tempo, se forçar a memória há de lembrar ser a idade da
incongruência. O corpo cresceu, é já adulto, mas a cabeça vem lá atrás,
tropeçando em armadilhas pueris. Ela é e sempre será atrasada em relação ao
corpo. Mesmo quando este fica velho e alquebrado, a cabeça vem lá atrás, ainda
conserva por algum tempo o vigor e a lucidez dos trinta anos.
Aos dezoito, contudo, ela ainda não
está madura. Mas pensa que está. É o que sucede com o agora Tião. Quer ele
abraçar o mundo, mas o mundo não deixa; quer ser astronauta, mas o Brasil não
tem foguete; quer todas as mulheres do planeta, mas só tem Belinha.
Ah, esquecia-me dizer: a família de
Tião está agora em Natal e para lá — lembram? — havia sido transferida a de
Belinha. Pois as duas não mais crianças se reencontraram, se abraçaram, se
beijaram e, curiosamente, perceberam que alguma coisa de estranho acontecera.
Ah, estes hormônios escravistas! Quem há de escapar deles? Recorda, leitor, de
quando tinha dezoito anos? Não vá, pois, recriminar os meninos. Naquela idade
mágica não há freios que consigam conter os impulsos, não há óbice que sufoque
o grito da vida. Ele irrompe porque a vida não quer só o hoje, quer o amanhã,
quer o sempre, e para isso veste de prazer o ato em que se perpetua. Quem há de
resistir ao império dos sentidos? Quem há de?
Este preâmbulo enfático tem por
objetivo significar que os nossos moços se amaram, não só no sentido platônico,
mas também no do verbo bíblico conhecer. Se foi o primeiro amor ou o segundo,
não se pode dizer, que ao autor nem sempre se permite revelar a intimidade das
personagens. Que foi um amor avassalador, temperado de culminâncias etéreas e
apimentado de profundezas sexuais, isto foi, sei dizer. Foi um amor dos
grandes, desses de cinema. Seria até apropriado lembrar o poetinha, eterno
enquanto dure.
Pena que durou pouco. As exigências
da vida às vezes nos desviam de um grande amor, fato que é sempre explorado em
bons e maus romances; exploro-o agora neste conto. Junto ao despertar da
maturidade surgem as responsabilidades. Nosso Tião passou no vestibular do ITA,
a escola de engenharia mais cobiçada do país. Ironicamente a vida o obriga a voltar
para cidade de São José, a cidade de seus oito anos. A separação será desta vez
promovida por ele. Ele voa, ela chora. Antes têm o derradeiro encontro de amor,
melhor não o tivessem. É um entrelaçar de corpos onde o prazer é maculado pelo
sofrimento, a posse, pela perda. Naturalmente fazem eternas juras de amor.
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Que não cumprem.
O tempo, senhor da vida, apaga
cicatrizes da dor, mas apaga também juras de amor. Dez anos de vida, cá como
lá, trouxeram novas experiências, outras pessoas e a permanente exigência
despótica de dois corpos jovens. Dias, semanas, meses, a lembrança vai
esmaecendo, enquanto o desejo cresce. É a mãe natureza que clama por seus
direitos, e o clamor é atendido.
Está agora Tião formado, é
engenheiro aviador. Encorpou, ganhou duas polegadas de altura, ganhou também
uma bolsa de estudo da Embraer para aperfeiçoamento em Paris. Lá vamos
encontrá-lo.
Encontramos também Belinha. Destas
coincidências se fazem os contos. Faremos nós um pouco mais: a coincidência de
se encontrarem os dois moços na cidade de milhão de gente. A duas coincidências
somadas costuma-se dar um nome: destino. Dele ninguém pode fugir, menos ainda
este humilde escriba de novelas.
Aquilo que adormecido estava irrompe
com fúria. A empatia antiga abrevia momentos. Logo estão os dois na cama,
esquecidos de aulas, de horários, de Paris. Pela janela a torre Eiffel, magra e
indiferente, os observa, enquanto a lua, pudica, se esconde atrás de uma nuvem.
Amam-se por dois meses, o tempo que
falta para o término do curso de literatura francesa. Amam-se, redescobrem-se.
Tião percebe que precisa de Belinha, não mais pode viver sem ela. Por que não
viverem juntos para sempre? Pede-a em casamento:
— Belinha, casa comigo?
Belinha abana a cabeça, está noiva,
de casamento marcado com rico empresário. Não vai jogar fora o futuro casando
com Tião.
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Sebastião de Tal, brasileiro,
divorciado, engenheiro, vai Tião preenchendo a ficha do Hotel Rembrandt, em
Amsterdam. Acaba de chegar à cidade e quase foi atropelado por uma bicicleta. É
que as calçadas das ruas são divididas em duas faixas, uma para pedestres e
outra para ciclistas. Bastou uma distração para que ele invadisse a pista
errada e ouvisse o ruído de breque e um palavrão cheio de consoantes. Entendeu
um, adivinhou o outro.
Fora a Londres participar de um
seminário técnico e resolvera dar depois uma esticadinha até a Holanda. Afinal,
estava precisado mesmo de um descanso, depois da chatice do seminário de
segurança de voos. Enviado o relatório para a diretoria, queria agora esquecer
a Embraer e seus aviões. Aliás, queria esquecer todos os aviões, até mesmo os
da concorrência. Por isso preferira vir de trem, atravessar a Mancha pelo túnel
subterrâneo, experimentar a sensação de ter um oceano sobre a cabeça, depois almoçar
em Bruxelas e tomar outro trem. Após tanta viagem oficial fora um momento
prazeroso se sentir como um simples turista.
Banho tomado, barba escanhoada,
penteia o cabelo em frente ao espelho e observa os estragos que os anos vão fazendo
em sua figura. Logo fará quarenta, mas já parece ter mais que isso: cabelos
pintalgando, rosto emaciado, olheiras, está mesmo precisando de férias.
Sairá logo mais à noite, vai
conhecer o famoso bairro da luz vermelha.
E não é que o nome realmente se
justifica? Está ele ali, em uma rua bem no centro da cidade, à esquerda de quem
sai da Estação Central, e lá estão as famosas luzes vermelhas, lâmpadas fluorescentes
de metro. Essas luminárias, físicas, não metafóricas, se mantêm acesas
encimando largas vitrines, que ocupam boa parte da frente de casas modestas.
Atrás dos vidros, uma mulher em cada casa, e cada qual com sua cadeira.
Vestindo apenas lingerie movimentam-se em coreografia sensual, servindo-se da
cadeira para apoio. Usam olhares de promessa e expressões lascivas endereçadas
aos homens que, da rua, as assistem. Se um deles faz sinal, a mulher fecha a
cortina da montra e abre uma porta lateral, por onde ele entra. Lá dentro, por
alguns euros, comprará amor seguro.
Pelas calçadas perambulam muitos
homens e alguns casais, afinal o bairro é a atração turística da cidade; vez ou
outra avista-se uma mulher desacompanhada, mas são raras. Eis aí uma que vem na
mesma calçada de Tião, em sentido contrário do seu. Bem vestida, porte altivo,
examina com interesse as vitrinas por onde passa, mas não se detém, talvez por
acanhamento. Anda devagar, o que permite a Tião fazer um exame de seu rosto.
— Belinha!
— Senhor?
— Belinha, sou eu!
— Tião?
Era mesmo Belinha! Mais uma
coincidência em nosso raconto. A mesma Belinha de dez anos atrás, Belinha de
sempre, o corpo talvez não tão frágil, mas os olhos de céu. Os anos haviam lhe
passado ao largo.
Após um instante de hesitação,
abraçaram-se. Quem mandou? Correntes elétricas adormecidas acordaram e
percorreram os dois corpos unidos, e parecia que Paris vinha se juntar a
Amsterdam, milagre do continuum espaço-tempo. Há quantos anos, que saudade,
como anda a vida, o que você tem feito, um rosário de notícias, um balde de
perguntas e a sucessão de passos na calçada, agora na mesma direção.
Jantaram em um pub, Belinha também
divorciada, tomaram litros de cerveja, riram juntos de piadas sem graça, pois
tudo tem graça quando mãos se afagam. Terminaram no mesmo hotel, na mesma cama
e nem notaram que na calçada, lá embaixo, alguém trinou uma campainha e soltou um
palavrão.
De manhã, embaixo do chuveiro, um
ensaboando as costas do outro, Tião repete a pergunta de Paris, a pergunta
imperguntada de seus oito anos:
— Belinha, casa comigo?
— Caso!
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