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PRESSENTIMENTO


            Acordou às oito e trinta como de hábito. Aposentado, sem compromisso, podia levantar mais tarde, mas, metódico, respeitava hábitos como quem veste roupa velha. Nem seria agora, nesta altura da vida, que faria mudanças. Todo velho é conservador. Acordou, pois, mas antes de sair da cama pressentiu que o dia seria diferente.

            Abriu a janela para deixar o sol entrar, como de costume, e ele, outro velho igualmente metódico, invadiu o aposento e, abusado, espojou-se sobre os lençóis amarfanhados. Contudo, demorou-se pouco; para confirmar que aquele seria realmente um dia diferente apagou-se logo, escondendo-se atrás de uma nuvem escura. Mandou, como se fosse um presente de até logo, uma lufada de ar fresco que arrepiou a nuca de Tonhão. Já sugestionado, olhou ele para a nuvem e teve a sensação estranha de um adeus.

            Sacudiu a cabeça como quem diz que bobagem e, antes de sair do quarto, avistou um casal de sabiás arrulhando num galho do ipê do jardim. Era primavera e a vida cobrava seus direitos. O casalzinho ocupava um espaço vazio entre a profusão de flores saltitando em meio do amarelo doirado.

A sacudidela feita com a cabeça, embora mínima, provocou em Tonhão um peso de resto de ressaca, mas ele lembrou que não bebera nada na noite passada, nem sequer o uisquezinho do jantar.

            No banheiro, completados os esvaziamentos matinais e após abluções generosas que momentaneamente aliviaram a pressão da nuca, olhou-se demoradamente no espelho e viu um homem que mal reconhecia. Bem verdade que fazia algum tempo que não se mirava com atenção, habituado apenas a constatar a presença de seu reflexo, mania adquirida desde que assistira ao primeiro filme de Drácula. Ver sua imagem no espelho, ainda que de soslaio, era prova de normalidade. Aquele dia, porém, era diferente, ele se olhava, se examinava. Olhava e não gostava do que via: cara emaciada, olheiras e rugas, nada que de fato fosse digno de admiração, daí talvez a razão de ter criado o hábito de não se deter na imagem. Mas agora era diferente, percebia que seria um dia de quebrar paradigmas. Passados alguns momentos a memória esquecida reconheceu como sua a figura do espelho e acabou por aceitar os sinais de deterioração. Não se chega incólume aos oitenta. Surpreendeu-se apenas com o olhar que a imagem lhe devolvia, um olhar vago, distante, um olhar de quem, a contragosto, parece prestes a encetar alguma viagem imprevista.

            Sacudiu a cabeça novamente e teria esboçado um sorriso irônico não fora o torpor que, com o movimento, voltara a incomodar.

            Desceu a escada segurando o corrimão, com passos lentos, e lembrou que, de moço, pulava os degraus de dois em dois, temerário como soem ser todos os moços. Dirigiu-se à cozinha onde já lhe esperava a mulher com o café pronto. Observou-a com atenção, como há tempo não o fazia. Acostumara-se tanto com sua presença que só a distinguia dos móveis da casa porque ela se movimentava pelos espaços, enquanto aqueles permaneciam inertes. Mas nessa manhã, não, atentou na figura da mulher, o vestido discreto, o porte altivo que o tempo não conseguira apagar, um resto de beleza que ainda trazia uma sensualidade recatada.

            A mulher estranhou o olhar de exame e quis saber se o marido se sentia bem, se algo o incomodava. Ele disse que não, tudo bem, que era só saudade de mirá-la, que ela estava bonita e tal. Ela se surpreendeu com a efusão, olhou-o demoradamente, certificou-se de que tudo estava realmente bem, desculpou-se por ter que sair — visita de hospital — e relutante, preocupada, despediu-se com um beijo.

            O insólito beijo enterneceu o marido, mas o que o abalou foi o olhar da esposa, olhar inquiridor, de desassossego, tipo vi você no espelho do banheiro, um olhar de pena com mistura de saudade.

            Tonhão sacudiu outra vez a cabeça. Que dia!

            Apanhou o jornal e foi se assentar na poltrona de leitura, ao lado da janela, onde tomava o sol da manhã e via as notícias do mundo. As manchetes eram as de sempre, guerra no oriente, furacão no caribe e, antes mesmo de baixar aos textos, sentiu Tonhão uma frialdade no peito. Talvez fosse a falta do sol, pensou, pois a nuvem escura se alargara e tomava então todo o céu visível. Velho sente frio.

            Levantou-se e foi colocar um agasalho.

            Retornando à poltrona e ao jornal intentou a leitura, mas, enquanto os olhos percorriam as linhas impressas, o cérebro bloqueava a percepção escrevendo ele próprio outras palavras. Nestes casos os olhos bobos demoram algum tempo para perceber a inutilidade do seu trabalho, e quando a percebem desfocam-se preguiçosos e viajam ao infinito; contudo, não guardam ressentimento. E assim, dentro da cabeça do homem, perpassando o torpor ainda persistente, ideias e filosofias desfilavam e por vezes se entrechocavam, pois, como tudo que é de lavra humana, umas e outras amam-se ou se odeiam ao sabor de eflúvios hormonais.

            O jornal, como sempre, falava de ataques terroristas, de terremotos e tempestades, de guerras religiosas. Confirmava aquilo que Tonhão estava careca de saber, que a humanidade sempre se matara por religião; hoje é o islã matando cristãos, outrora foi a cristandade trucidando muçulmanos. Pela enésima vez sua tese era comprovada: a História é uma gangorra de atrocidades acometidas em nome de Deus; transformaram-no no maior assassino de todos os tempos. Cada homem, presunçoso que é, julga-se criado à sua imagem e, portanto, perfeito, e como tal não tolera o que lhe é diferente, razão suficiente para destruição do outro.

            A enxurrada de pensamentos mal cosidos aos poucos foi levando Tonhão para o terreno pantanoso da metafísica. Logo logo estava ele concluindo que Deus parece ter pegado gosto pelos holocaustos, se não como se explicariam as centenas de milhares de vítimas dos maremotos e furacões, sem esquecer de Vesúvio e Pompéia?

            De repente um carro cantou pneu na curva da rua e teve o benefício de trazer o homem de volta à sua poltrona, pois ele se sobressaltou com os ruídos da freada e de buzinas e imprecações. Ainda imerso em filosofias sentenciou, autoral, que assim caminha a humanidade, não se dando conta de que acabava de plagiar nome de filme antigo. No entanto, dizemos nós, o que é a vida senão um plágio continuado?

            O pequeno alvoroço que acabara de causar o episódio do carro deve ter desarranjado alguma engrenagem dentro do crânio de Tonhão, pois o que era até há pouco um torpor passou à categoria mais preocupante de dor, e fez com que ele largasse o jornal e fosse até a cozinha tomar duas aspirinas. No caminho de ida e volta sentiu lhe bambearem as pernas e escurecer-lhe a visão.

            Esqueceu o jornal e a poltrona e deitou-se no sofá. Um estranho suor frio lhe porejou a testa. Bem tinha ele sentido que o dia seria diferente, mas não imaginara tanto. Supôs que estivesse enfartando, mas não lhe doía o braço, como sempre ouvira falar, nem tinha náuseas. Bom, se fosse mesmo infarto telefonaria para a mulher, quem sabe daria tempo de socorro; mas era melhor esperar para não dar vexame. E se estivesse mesmo para morrer, não era assim, enfartando, que sempre desejara? Sem doença longa, sem hospital, sem U.T.I., uma passagem rápida desta para melhor. Melhor? Modo de dizer, pensou ele, ateu que era não acreditava em passagem para lugar nenhum. Para escândalo da família católica sempre dissera que o homem é um animal pouquíssimo diferente de todos os outros, e a ciência tem demonstrado isso: nosso genoma difere em apenas 3% do dos ratos. Se os insetos morrem em dias e os ratos, em meses, quando não os matamos nós em menor tempo, por que o bicho homem tem de viver cem anos? Os animais morrem e viram adubo, o homem é um animal, logo o homem também morre e vira adubo. Não tem alma nem céu no jogo da Natureza, apenas esse silogismo lógico.

            Tinha ele medo? Com alguma surpresa constatou que não, quando muito uma pitada de paúra, herança dos avós napolitanos, uma espécie de frio na barriga, igual ao do artista que, na coxia, espera a deixa para entrar no palco em noite de estreia, ou como o adolescente que foi ele próprio um dia, no ônibus antigo, quando viu e decidiu abordar a primeira namorada. Não foi medo que sentiu, nem é medo que toma o artista, é, sim, o peso da responsabilidade de fazer bem feito. Quando chega a hora, ele achava, a gente se atira no vazio com a mesma determinação que o faz um trapezista nas alturas.

Sentiu o mal-estar aumentar e, apesar de todo o arrazoado que acabara de perpetrar, telefonou para a mulher. Melhor prevenir que remediar, como diz a sabedoria popular.

            Deitado no sofá, pôs-se à espera. O cérebro, ainda que dolorido, continuava a girar suas engrenagens. Se ele morresse, o mundo sentiria sua falta? Claro que não! Sentiria ele a falta do mundo? A boca deixou escapar, num esgar, um riso sardônico. Quando Robespierre foi levado à guilhotina não sentiu a falta de Tonhão, dado que ele ainda não existia; quando Tonhão morrer, com ele morrerá também sua consciência e então não sentirá mais a falta do mundo, já que não mais existirão nem homem e nem consciência. São duas palavrinhas mágicas que tudo explicam: ainda e já.

            Tonhão não se apercebeu quando as engrenagens de seu crânio foram parando de se movimentar e deixaram de produzir pensamentos, pois que a percepção é ela própria um pensamento rudimentar. Apagou como se apaga uma lâmpada de muito uso, num momento está acesa, no seguinte, apagada. Seus pressentimentos eram só meia verdade: ao invés de infarto, sofreu uma isquemia cerebral. Por isso não ouviu quando a mulher entrou na casa, espavorida, já estava morto.

            Hedonista que fora, provou mais uma vez a verdade de Epicuro: a morte nunca encontra o homem por causa das duas palavrinhas mágicas; enquanto ela não vem, ele AINDA está vivo; quando ela chega, não mais o encontra, ele JÁ foi.

            No jardim, entre as flores amarelas do ipê, o casal de sabiás, alheio às dores do mundo, continuava seus arrulhos de amor.

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