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NOITE DE GATOS PARDOS

            O vento gelado açoita-me o rosto, lufadas siberianas a lembrar-me que estou em Curitiba; penetra-me a pele, atravessa a bochecha e desperta uma dorzinha quase esquecida na dentina do molar esquerdo. Rajadas rodopiam por meus cabelos desmanchando as melenas tão criteriosamente desenhadas pela escova vespertina. Sorte que os alunos não me veem agora, toda desgrenhada, cabeça de Medusa.
            O casaco leve, de paulista desprevenida, não consegue proteger-me o peito e o ar frio me envolve os seios, que se contraem em reflexo de defesa dardejando através dos mamilos enrijecidos uma estranha sensação de dor e prazer. Me invade também os brônquios, e esse duplo ataque do vento, por dentro e por fora, produz uma árvore de gelo nos pulmões e reduz a tamanho infantil a opulência narcísea de minhas mamas, estas mesmas mamas que até poucos minutos, na tepidez aconchegante da sala de aula, propositadamente mal escondidas pelo decote generoso e semi-reveladas nos volumes convexos da blusa de musselina, atraíam a atenção dos alunos machos muito mais que os conceitos da matéria então tratada.
            Preciso mudar de comportamento. Já me prometi várias vezes. Sei que o aproveitamento das aulas é prejudicado por esse exibicionismo sensual, mas não resisto, parece doença. Serei uma ninfomaníaca? Claro que não, sou pudica, reservada, até coro quando ouço piada suja.
            Este frio maluco, este céu despejado com a constelação de Orion quase no zênite, e pensar que na semana passada este mesmo Orion boiava no céu de São Paulo em uma noite cálida! As aulas no campus acabavam de ser interrompidas pelo apagão de energia que atingira a cidade. Não fora isso seria impossível avistar estrelas. Quem habita metrópoles até esquece que elas existem, cegado que sempre está pelo excesso de luz.
            Mas naquela noite sem lua, por causa da escuridão imprevista e céu limpo, as estrelas apareceram com todo seu brilho, no intuito talvez de matar a saudade da gente. Ficara, então, hipnotizada pela beleza do céu preto salpicado de vagalumes brancos que, ao contrário dos confrades terrestres — verdes e de luz intermitente, inconstantes e de vida breve — brilhavam alto no firmamento, com luz fixa apenas tremelicada e vida longa, quase eterna. Vagalumes e Betelgeuses, os da terra, modestos e inominados, os do alto, senhores de outros mundos.
            Há tanto tempo ofuscada pelo brilho do progresso, quase me esquecera que o céu tem estrelas. Naquela escuridão total adivinhei a silhueta de um banco próximo e sentei-me para apreciar com mais conforto a cena inesperada, que de graça se me oferecia. Pouco afeita ao exercício bilaquiano de ver e ouvir estrelas, reconhecia minha incompetência na matéria, lembrando-me apenas da lição paterna que apontara, naquele antigamente saudoso, uma pequena formação retilínea e dissera o nome: Três Marias! Eu, menina, enamorei-me, então, das três estrelinhas, talvez porque delas tivesse ciúme, eram as preferidas do pai. Quando podia procurava-as no céu; às vezes achava, às vezes, não. Aproveitando o escuro, apoiada no encosto do banco, encetei a busca das três meninas, das três moçoilas, das três freirinhas, das Três Marias. Não demorou que as achasse, as três irmãs, de brilho igual, desenhando uma pequena reta naquele firmamento imenso. Nem eram elas as mais brilhantes, e sim as mais chegadas, as mais amadas, as estrelas de meu pai, que me faziam lembrar naquele momento do poema de Pessoa:
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
            Da mesma forma Sírius e Betelgeuses, embora mais brilhantes que as Três Marias, não eram mais brilhantes que as Três Marias porque estas eram as estrelas de meu pai.
            Absorta na visão e distraída na lembrança mal pressenti a presença de um homem que me chegava ao lado.
            — Apreciando Orion? — Perguntou ele.
            Quase assustei-me. Mas a voz do homem era clara e tinha uma tonalidade macia que suavizava qualquer impertinência.
            — Não — respondi com naturalidade. — Estou vendo as Três Marias.
            — Pois são elas um pedaço de Orion — asseverou ele.
            — Como assim?
            — É que Orion é uma constelação maior, que inclui as Três Marias — explicou, e em seguida pediu cortesmente se podia se assentar.
            Autorizado, abancou-se ao meu lado. Pouco distinguia eu de sua figura, apenas o talhe alto e o paletó desestruturado; a noite negra escondia os traços da fisionomia revelando apenas os dentes brancos, quando sorria. Rosto, cabelos, olhos, mais nada se via, engolfado tudo no caldo da noite.
            — Orion é um caçador mitológico que foi eternizado nas estrelas — continuou o homem. E passou a me dar uma aula de astronomia.
            Revelou que as Três Marias são o cinturão do gigante e estão no meio da constelação, que é um grande xis limitado ao norte por Betelgeuse, gigante vermelha e ao sul pela quentíssima Rigel, estrela branca. E bota gigante em Betelgeuse: se estivesse onde está o nosso Sol, a própria Terra estaria dentro dela!
            Fui ficando encantada com as explicações. Aprendi, então, os nomes de outras estrelas: Sírius, a mais brilhante do céu, Aldebaran, da constelação do Touro, outra gigantona vermelha, e outras mais que agora não lembro. Não esqueço, porém, que o encantamento aos poucos foi descendo do céu e se incorporando na figura máscula que tinha ao meu lado. Em certo momento, por acaso, nossas mãos se tocaram e um arrepio instantâneo percorreu-me a espinha eriçando os pelos da nuca. Ah, ninfomaníaca enrustida! Percebi, pelo tremor de sua mão, que não fora indiferente a sensação produzida no homem. A noite escura, quase preta, não permitia a nenhum de nós ter uma imagem segura do outro. Éramos como duas silhuetas recortadas em fundo indistinto, duas figuras negras coladas num caderno pardo. Só que, como silhuetas, estávamos mal colados, pois nos mexíamos e tínhamos relevos, coisa que elas não têm. Eu podia ver no perfil do homem um nariz aquilino e irregularidades no alto da cabeça, indício de existência de cabelos. Não posso dizer se ele via alguma coisa de mim, mas teve, sim, percepção olfativa, pois, em dado momento, murmurou:
            — Que cheiro bom!
            Estávamos, então, com as cabeças quase coladas, olhando alturas. Estranhei a observação e falei:
            — Mas não uso perfume...
            — Melhor ainda — ele completou. E virou a cabeça, cheirando-me o pescoço atrás da orelha — É cheiro seu! — Arrepiei-me toda. Ele percebeu e tomou-me o rosto com a mão e osculou-me suavemente a face. Eu, nessa hora, não estava para suavidades, perdi a vergonha e com ambas as mãos puxei sua cabeça e beijei-lhe loucamente a boca. O encantamento celeste, que nos embalara até há pouco, transferira-se definitivamente para a terra. Passamos a nos explorar com as mãos, reconhecimento de cegos na noite escura, carícias fortes apalpando colinas e vales, reentrâncias de fêmea e protuberâncias de macho, mãos embaixo de panos a sentir a maciez de peles, a rigidez de mamilos túrgidos e a cupidez de pelos húmidos.
            Com fome um do outro estávamos a ponto de completarmos a consumação bíblica quando fomos interrompidos por Laura:
            — Clara! É você aí?
            — Sim. Aqui no banco — consegui dizer, afogueada.
            — Menina, vamos depressa, senão perdemos o avião.
            — O avião! — Lembrei. Virei-me para o homem: — Você ouviu! Tenho de ir. Meu nome é Clara, e o seu?
            — Ruben.
            — Segunda-feira, às nove da noite, estarei neste banco.
*
            Lembranças vívidas de meu gato pardo na noite preta de estrelas brancas! E hoje ainda é sexta-feira! Virá ele na segunda? Pareço uma adolescente de quinze anos. Devia ter vergonha na cara, fazer tudo que fiz, num primeiro encontro, com um desconhecido, sem nem saber o nome dele, nem mesmo ter visto seu rosto. Deve estar pensando que sou uma vadia. No fundo tem razão, sou mesmo uma vadia. Mas não me aguentei, debaixo daquele céu estrelado, vigiada pelas Três Marias, no calor da noite e na saudade do pai, voltei a ser uma mulher das cavernas. Sacudi filosofias e sapiências e deixei que o animal dentro de mim tomasse conta de meu corpo. Se me arrependo? Não! Mil vezes não. Só de pensar em um novo encontro meu ventre esquenta.
            Eta noite gelada! Acho que vou tomar uma sopa de cebola no Baviera, para esquentar. Amanhã dou um giro pelo centro, e talvez encontre algum maluco fazendo discurso na Boca Maldita. Depois dou um pulo até a gaiola do Jardim Botânico. Domingo de manhã tem a feira de artesanato, quem sabe não compro uma máscara de baixo relevo do Lapchenski para botar na parede da sala?
*
            Vou chegando, alvoroçada, ao banco das estrelas. Em pé, ao lado do banco, dois homens conversam, meu gato pardo, um morenão de três costados, hercúleo, viril, feições apolíneas, meu gatão, meu gato pardo, e o outro, um magrelo de tez pálida.
            Longe ainda, por três ou quatro metros, não me contenho e chamo alto:
            — Ruben?
            Ambos se viram para mim e o homem pálido sorri e diz:
            — Clara, que bom que você veio! — E me apresenta: — Este é meu amigo João.
            Uma estranha vertigem toma conta de mim. Reconheço a voz macia do meu gato e leio lá no fundo do cérebro, projetada na parede de provérbios, uma frase que fala de gatos pardos e noite escura.
 


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