Felipe, o Belo, espera com paciência
o retorno do atendente. Uma mágoa vence seu desprendimento natural: está a
poucos minutos de perder seu amado relógio. O moço da Caixa foi consultar o
chefe sobre o valor que pode liberar no penhor do Rolex. Novo no cargo,
explicou ter experiência com ouro e joias, mas não com relógios.
— Um minutinho só, meu senhor! — pedira
ele.
Obviamente não levará apenas um
minuto, há que se entender a simbologia das palavras. Enquanto esperamos, só para
passar o tempo, poderíamos entrar na cabeça de Felipe e seguir seus pensamentos.
Quem sabe não entenderíamos melhor a situação? Seguramente que no mundo real
não teríamos como fazer esta mágica, porquanto, para entrar em sua cabeça,
seria forçoso quebrá-la, e aí não mais encontraríamos pensamento algum, dado
que a ciência já tem comprovado que cabeça quebrada não possui o condão de produzi-los.
Sorte nossa, pois, estarmos no mundo da ficção, onde tudo é permitido, salvo
altas doses de mau gosto.
Tomado aquele cuidado estético, fugir
do mau gosto, cá estamos nós dentro da cabeça de Felipe, que, por sinal, não é
tão bonita quanto sua externa figura. Descortinamos aqui dentro zonas
tenebrosas, às vezes com nuances de alguma claridade. No momento o clima é
pesado, daquele tipo que antecede tempestade ou que lhe vem logo depois.
— Maldito Pirilampo!
A imprecação se faz sentir como um espocar
de raio, e no centro do clarão produzido, qual cena de cinema, veem-se cavalos
chegando ao final de uma corrida. A raia é de areia fina e as patas possantes,
ao ferir o solo seco, levantam uma nuvem de poeira que vai engolfando parte dos
animais. Assim, são vistos nitidamente apenas os dois ou três cavalos que,
furiosamente, galopam à frente do bloco. Pirilampo é o primeiro e está com um
corpo de vantagem faltando pouco para chegar ao disco. Então, como nas melhores
fitas, a cena quase se congela: a poeira se alevanta do solo lerdamente, a
respiração se exala das mandíbulas como baforadas de mil charutos, os músculos
se retraem e se distendem em câmara lenta e, nesse ritmo de adágio, um corpo
negro luzidio vai tomando o primeiro plano e, de repente, agora vertiginoso,
cruza o disco meio corpo à frente de Pirilampo. Black Flash vence a corrida.
Felipe perde e rasga a pule, furioso.
Apostara todo seu dinheiro, era uma
barbada, e perdera para um cavalo impossível. Onde se viu um flash negro? Fosse
branco ou prateado... White ou Silver... Mas, Black? Clarão preto? Já perdera
outras vezes, mas não tudo como agora, nem com fé tão grande.
— Tem nada, não! O nordestino é
antes de tudo um forte.
O pensamento de Euclides vinha
consolá-lo. Quase alcançando quarenta, conservava ainda o vigor e a beleza dos
seus dezoito, quando chegara a São Paulo. Cabelos claros e olhos verdes,
herança de prováveis contubérnios holandeses, recebera de sua primeira namorada
o epíteto: Felipe, o Belo. Inteligente, maneiroso, fora eficientemente desasnado
em Pernambuco, onde tomara gosto por leituras. Algumas dúzias de livros, uma
roupa boa e sapatos limpos foram suficientes para lhe garantir sucesso na
carreira de gigolô.
Trabalhava com gosto e sentia-se um
benfeitor da humanidade. Plantava felicidade no coração das mulheres mal
amadas. Paciencioso — lia Proust — agia com delicadeza e sabia domar os gênios
difíceis. Não demorava e as mais bruscas ficavam dóceis e as dominantes,
submissas. A todas distribuía o que lhes faltava, e pouco pedia em troca,
apenas uma vida leve, que seria melhor não fosse o vício dos cavalinhos.
Tivera alguns reveses na profissão,
como todo mundo — afinal, o mundo não é perfeito — mas sempre os enfrentara com
galhardia filosófica. O caso de Marta, a Matadora, não fora diferente.
Balzaquiana bem postada, carro
conversível, logo que a viu sentiu que ali estava uma boa presa. Não imaginou
que estaria ele próprio sendo visto da mesma forma. A conquista fora fácil e
não lhe levantou suspeita. Estava habituado ao sucesso que a experiência lhe
garantia.
O primeiro encontro transcorrera com
amenidades, informações recíprocas sobre a história de cada um, gostos,
preferências etc., tudo dentro dos conformes, sem avanço de sinal; o segundo encontro
teve alguma chegança; o terceiro fora pleno de atrevimento e desassombro,
carregado de lubricidades, conforme planejado, ou seja, no feitio da
normalidade a que se acostumara.
Fora uma temporada boa, de pequenas
viagens, restaurantes finos e algum dinheiro na carteira. Ganhou também
presentes: um par de óculos de sol, uma gravata Hermés, abotoaduras de prata.
Nada disto, porém, o surpreendeu, era o esperado de sempre. Surpreendeu-se,
sim, no dia do aniversário; Marta, a Matadora, veio com o Rolex. Naquela noite,
tão entusiasmado ele estava que foi mais entusiástico que ela. Efeito Rolex.
Tudo corria a mil maravilhas, mas,
todos sabem, não há bem que sempre dure. O que abreviou o desastre próximo foi
o bendito dinheiro na carteira. Bem que dizem que ele não traz felicidade.
O dinheiro na carteira começou a lhe
fazer cócegas, e a comichão foi a causa do convite que fez à companheira:
passar a tarde de sábado no Jockey Clube. Unia assim o útil ao agradável,
obrigação com devoção. Mas todo vício tem seu castigo. Não é que encontraram
nas galerias do hipódromo o amigo Calixto, o Lindo! De boa estampa, bem-falante,
fazia jus ao epíteto e Marta, a Matadora, ficou logo caidinha por ele. Não é
preciso nem dizer — que se adivinha — que a dona se enfeitiçou e que o Lindo
foi mais lindo que o Belo, belo.
Não sofreu este, contudo. Era da
vida. A profissão lhe ensinara que as paixões vêm, avassalam e passam.
Ensinara-o também a nunca se apaixonar, mas, ainda que lhe acontecesse a
desgraça, não haveria por que chorar: em um romance, quando termina um capítulo,
parte-se para a leitura do próximo. E oxalá tenha o livro da vida muitos
capítulos à frente.
De Marta, a Matadora, sobrara boas
lembranças, e um ótimo relógio.
E agora ia o relógio. Sem dinheiro,
teso e liso, ia pôr o Rolex no prego.
Eis o atendente que volta. Melhor
pularmos fora da cabeça de Felipe.
— Senhor Felipe, o senhor desculpe,
mas não podemos aceitar o relógio em penhor, não é legítimo, é uma réplica.
— Réplica! – exclama a boca aberta
de Felipe, e os olhos verdes arredondam-se de espanto. Mas, então, não vale
nada?
— Uns cem ou duzentos, mas só no
camelô, aqui na Caixa, não.
Felipe sai trôpego. Não estamos mais
em sua cabeça, mas dá para ver pela fisionomia que, dentro dela, chocam-se
emoções díspares, até contraditórias: frustração, vergonha, raiva, desejo de
vingança, tudo isto misturado, rodopiando. Vem chegando também, pelas beiradas,
um certo riso maroto, o reconhecimento do profissional pela competência do
golpe aplicado. Marta, a Matadora, soube levar com habilidade o caso deles. Agora
ele percebia que, quando pensava ser dono da situação, era de fato manipulado,
imaginando dominar, era dominado.
A descoberta, para qualquer pessoa
normal, seria razão para crescimento das emoções de vergonha e raiva, que já
estavam rodopiando no oco da cabeça. Mas Felipe, o Belo, não é uma pessoa
normal, é um artista e, como tal, a descoberta fez aumentar, sim, o riso
brejeiro. Os cavalinhos lhe haviam moldado a alma, aprendera a ser um bom
perdedor.
Voltou para casa com o sorriso
maroto abotoado na cara.
Dois meses depois, no entra e sai do
Café Canelinha, cruzou ele com o amigo Calixto. Um saindo outro entrando
tiveram uma conversa rápida, típica dessas ocasiões. Calixto continuava com
Marta, ainda toda amorosa.
— Veja o que ela me deu ontem!
— cheio de si o amigo exibiu um Rolex no
pulso. — Igual ao seu.
— Igualzinho! – concordou Felipe,
depois de um rápido olhar. Em seguida alegou pressa, despediu-se e virou as
costas a tempo de evitar que Calixto lhe visse no semblante o ressurgimento do
sorriso maroto. Marta, a Matadora de homens devia ter no armário uma coleção
deles.
Depois de alguns passos o sorriso se
expandiu e escapou pela boa em forma de gargalhada filosófica:
— A cavalo dado...
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