Leitor amigo, previno-te de início
que lanço mão de um estratagema para obter tua atenção: o título desta crônica,
que atraiu-me a mim também. Uso-o não por imaginação, que me é fraca, mas por
prosaico incidente que é o faltar energia elétrica em minha morada. Acabo de
acender um toco de vela que está a iluminar estas mal traçadas linhas. Oxalá
possa alumiar também minha inspiração dormida e que a pouca quentura que
irradia sirva de estímulo a que te conte alguma coisa de proveito. Certo que o
bruxuleio da chama, que produz sombras que dançam, dificulta que o pensamento
se fixe em alguma ideia e abre espaço para antecipada escusa.
Este pequeno busto de Dante, de meio
palmo na mesa, projetado pela luz da vela, afigura-se enorme na parede, quase
metro. A sombra, de perfil, destaca o nariz adunco do bardo florentino, traço
característico de sua persona astuta, que, após tenebrosa jornada pelos nove
círculos infernais, logra sair ileso das profundas para, já na superfície,
voltar a admirar as estrelas do firmamento.
As imagens, contudo, nem sempre
espelham a realidade. Se a sombra na parede é a cópia fiel do pequeno busto,
não é mais este a figura original esculpida pelo artesão. Explico-me. Moldado
em liga metálica, sofreu meu pequeno Dante anos atrás uma queda, batendo o
nariz no chão. Protegido pelos céus — talvez por Beatriz vigilante — não foi
danificado, salvo por diminuto reforço na curvatura do apêndice nasal. O órgão
não sofreu desvios, seja para direita ou esquerda, mas tornou-se mais adunco do
que fora a vontade do escultor. Vê, leitor, a ironia destes mundos paralelos:
enquanto o herói da fabulosa jornada sai incólume dos perigos enfrentados,
minha pobre estatuínha carrega sequela de um simplíssimo tombo. Atrevo-me,
contudo, a considerar se não estaria agora, a estatueta, a ser mais fiel à
verdadeira aparência do homem que um dia a inspirou. Como todos sabem, a
verdade é uma entidade fugidia que costuma ser encontrada onde menos se espera.
O papel da desventurada ciência humana é empreender essa perseguição até o
final dos tempos. Eu mesmo, agora — e tu, paciente leitor, nem te apercebeste
disto — dei-te ocasião de extrair desta pequena anedota uma verdade científica,
qual seja, a de que a liga metálica do busto de Dante possui boa parte de
chumbo; não fora assim, não se teria ele amassado.
Vejo agora que acabo de despencar
por perigosos terrenos metafísicos e que — desgraçadamente — trago pelas mãos
meu desavisado e inocente leitor. Mas, não te desesperes, amigo; por estas
paragens de solos movediços é sempre possível pedir socorro a uma alma
benfazeja. Sou acostumado a fazê-lo. Já me vali de Sócrates, aquele boêmio de
Atenas, que, diante do impasse dos paradoxos de Zenão, provou, andando, que o
movimento existe. Que tal chamarmos, agora, Lobato, aquele prodigioso inventor
do pó de pirlimpimpim? Escuta! Está nos dizendo ele que nos lembremos do conto
que um dia escreveu, quando um homem comum aponta para o céu e diz: estrela! Um
sábio famoso, a seu lado, com fisionomia de visível enfado, repete o gesto,
aponta o céu e declara, categórico: Betelgeuse!
Não será este o resultado último da
ciência humana? Sabedoria, no fim das contas, não é apenas dar nome às cousas?
FIAT LUX! Eis que a energia retorna!
A lâmpada acesa parece irradiar claridade suficiente para iluminar o mundo
inteiro, esbanjadora, perdulária, enquanto o tênue pavio da vela de sebo
titubeia, envergonhado talvez. Apresso-lhe a morte redentora com um sopro
delicado — recompensada eutanásia pelo serviço prestado.
E tu, leitor enganado? A ti peço
desculpa. Imaginavas, quem sabe, uma história de amor, com encontros
apaixonados e vens de achar estas lucubrações. Mas, em meu benefício, parte da
culpa te cabe: não notaste que, no título, a palavra vela está redigida em sua
forma singular? Fossem, estas, histórias de amor, tê-la-ia escrito no plural.
Qual o amante que não acenderia mais que uma vela para alumiar o rosto da
amada?
Ave!
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