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POR FORA BELA VIOLA

            A tarde caía lenta e macia, como costumam cair os bêbados ao chão, pois têm um deus que os protege quando não está distraído. O Sol, outro distraído, ainda que não bêbado, já havia tropeçado na linha do horizonte e despencara pelo abismo que lá existe e que separa este lado do mundo do outro. Esquecido que é, todos os dias repete a mesma queda e nunca se alembra; é que não se machuca, sabe voar. Velho, talvez cansado, não abdica, porém, de seu papel de primeiro deus dos homens e, por onde passa e os encontra, vai dardejando seus raios de vida. Portentoso, narcisista, chega sempre esplendoroso no novo palco e não admite a concorrência de outros brilhos; manda na frente sua filha Aurora apagar as estrelas notívagas ou algum pedaço de lua boêmia. Vaidoso também, nunca deixa de portar sua capa translúcida, que vai arrastando pelo chão do céu e que continua a clarear este nosso lado mesmo depois dele já ter descido ao outro; feita de tecido fino, brilha por reflexo da luz do dono e, nesta hora dos anjos, produz no firmamento uma pintura que varia do claro ao quase escuro do oriente. Aqui, perto deste outro horizonte, uma e outra estrela, ainda medrosas, começam a nascer com seu brilho pálido.
            É neste momento que nasce também Mariínha, não medrosa como as estrelas, pois que ainda não conhece os insucessos da vida. Nasce bem, de parto normal, e tem como todo nascido cara de joelho; menos para os pais, que a proclamam linda. A mãe até que tem sua razão para isso: conviveu com a menina por nove meses, sentiu no primeiro terço os enjoos da gravidez, que os médicos atribuem a revoluções hormonais — mas que um dia descobrirão que se trata de atávica aversão que os novos seres têm pela perspectiva de serem postos neste vale de lágrimas, que é o mundo dos homens. Contudo, como são os embriões embalados pelo amor materno, aconchegam-se naquele útero quentinho e se assossegam envoltos no líquido calmante. Põem-se logo a dormir e por vezes sonham sonhos de Hamlet, quando então têm movimentos de espasmo, que são a alegria da mãe (o bebê está chutando) e o orgulho do pai (vai ser um artilheiro).
            Logicamente que, durante esses longos meses, a intimidade contínua de mãe e bebê fará que seja instantâneo o reconhecimento de ambos após o nascimento, com simultânea continuação do amor pregresso. É por causa deste amor que a mãe de Mariínha a pinta de lindezas. Nem podia ser diferente.
            Com o pai a história é outra. Privado, pela biologia, da intimidade de útero, não desenvolveu ele, durante aqueles nove meses, senão uma simpatia distante pelo novo ser, um ser que lhe foi apresentado por notícia, confirmado por exames clínicos e que só se revelou de fato pelo crescimento da barriga da mulher. A não ser pelos eventuais espasmos, manteve-se ele apartado do pai e, se interações provocou, foram quase sempre negativas: trabalhos e cuidados, que, longe de despertar amor, causaram canseira. Por isso, ao contrário das mães, não se deve acreditar na sinceridade dos pais quando dizem “que lindo!”. Mentem. Sabem que o filho tem cara de joelho, mas dizem aquilo que se espera deles: que lindo!
            As enfermeiras do berçário, por dever de ofício, confirmam sempre a opinião dos pais.
            Com Mariínha não foi diferente, todos diziam lindinha; só que, com o passar dos dias, a mentira virou verdade; como uma flor de primavera a menina foi desabrochando em beleza. Já antes de cair o umbigo era a mais bela da rua, em um mês, da cidade; ganhou prêmios de robustez, foi capa de revista. Carinho não lhe faltou, dos pais, dos avós, e de todos os que dela se aproximavam. Cresceu feliz.
            É agora, na infância de oito anos que a surpreendemos: brinca com meninos; com meninos e com formigas. Por que brinca com meninos? Ora, porque com meninas é muito chato – bonecas e casinha. E por que com formigas? Ah! é divertido, basta ver esta saúva vermelha e este formigão preto, que não querem nada um com o outro. A menina os coloca frente a frente e eles dão meia volta e se afastam; ela insiste, põe de novo; afastam-se outra vez; nova insistência; outra vez; até que os bichos se enfezam e partem para a briga. A menina sorri de felicidade, sabe que agora não se separam mais: lutarão até à morte; sabe até o resultado final: o formigão matará a saúva. Não é a primeira vez que as crianças promovem esse tipo de luta; e o resultado é sempre o mesmo: a cabeça vermelha da saúva termina rachada ao meio.
            As outras crianças acompanham com interesse a rinha dos artrópodes, Mariínha, com fascinação. Saber ter sido ela a causadora do duelo enche-lhe o coraçãozinho de satisfação, faz com que se sinta poderosa, qual uma deusa senhora da vida e da morte daquelas criaturinhas. Espera impaciente o resultado final e eis que ele chega, o clímax, o desenlace: o formigão racha a cabeça vermelha da saúva. Mariínha quase tem um orgasmo de prazer, só não o tem por conta dos oito anos. A Natureza o proíbe.
            Depois de vencida a batalha o formigão se afasta, um pouco trôpego e Mariínha o esmaga com o pé. Perdeu a serventia.
            Criança tem cada uma! Pobre Mariínha, viemos de surpreendê-la em um momento desfavorável, onde parece vicejar maldade naquele coraçãozinho inocente. Ela só tem oito anos! Está em formação, ainda não tem o alcance moral das ações que pratica. É uma inimputável, como diria algum jurista que estivesse em nossa história. Deixemo-la crescer um pouco.
            Observemo-la agora, aos catorze anos. Sempre rodeada de meninos, agora ainda mais que antes, lá está Mariínha caçando vagalumes. É tardinha, a hora em que, nas moitas do caminho, as luzinhas desses bichinhos começam aquele interminável acende-apaga. Lá vai a menina, com um pote de vidro à mão, à caça dos insetos lucentes. Cresceu ela um bocado, há até quem a chame de Mariúcha, mas manteve o talhe esbelto, agora guarnecido de carne dura no promontório das nádegas e de maciezas na culminância dos seios túrgidos. Vestida de amarelo irradia ainda o brilho do Sol que, de novo incauto, acaba de descambar pelo precipício do horizonte. Não se sabe ao certo se o brilho da moça vem emprestado do Sol ou se é ela que a ele empresta a luz.
            Bela, belíssima, está ela sempre rodeada de meninos, muitos meninos. A candura da estampa infantil se metamorfoseou nesta figura sensual de menina-moça, flor-botão exalando feromônios de mulher. Não é à toa que os garotos, enfeitiçados e no cio, gravitam como planetas cativos ao redor daquele sol amarelo. No dizer de Batista, pai do Batistinha, Mariúcha é a Musa de Onan, inspiradora de sonhos eróticos, e sua imagem costuma estar presente nas mentes da meninada, frequentadora assídua de seus banheiros. Porém Batista é um debochado, tido até como pedófilo enrustido, por isso não lhe devemos dar crédito. Contudo, sejamos condescendentes, pois, como dizem os italianos, se não é “vero” é bem “trovato”.
            O fato é que Mari, inha ou ucha, encanta quem a vê. Linda como mocinha de cinema, tem uma sensualidade ainda ingênua, sem consciência do poder que possui junto aos meninos; talvez porque sempre o tenha tido, embora não tão forte como agora. Para ela é natural que eles continuem gravitando em torno de si como satélites que sempre foram.
            Mas, vá lá, deixemos que os garotos babem e sonhem com ela, prestemos atenção no que ela faz.
            Colhe vagalumes e os vai guardando no pote de vidro. À medida que a tarde escurece o pote vai acendendo e apagando, mais vagalumes, mais luz, até que o pote se transforma em um luzeiro pulsante, bonito de se ver. Mariínha se dá por satisfeita e vai para casa, atendendo o chamado da mãe para o jantar.
            Depois, já noite fechada, sai à rua e encontra de novo os meninos. Então fazem uma roda na calçada e Mariínha sacode várias vezes o pote, atordoando os vagalumes presos. Em seguida abre a tampa e derruba no cimento os bichinhos entontecidos e, antes que algum deles se recomponha para o voo, raspa o sapato por sobre seus corpos produzindo um facho de luz no chão duro, vereda de luminosidade fantasmagórica, como se tivessem almas os insetos e as alminhas desprendidas brilhassem em seu último alento, espetáculo efêmero de duas dúzias de vidinhas que se vão e que, por um segundo apenas, brilham no escuro da noite antes de ser por ela engolidas.
            Mariúcha sorri deliciada diante de tanta beleza; tem, sem dúvida, um senso estético apurado; quando crescer será uma artista. Tem consciência de que acaba de matar dezenas de vagalumes, mas não tem dó, é o preço da beleza. Faz lembrar o tio carnívoro, amante de churrascos, que, perguntado se não tinha pena do boi, respondeu brincando: quem manda ele ser tão gostoso?
            Esgotada a luz da réstia-mortalha, sobra na calçada um desenho opaco, testemunha muda da transitoriedade da vida e da beleza. Mariúcha lamenta:
            — Que pena! Durou tão pouco...


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