Linda
nasceu como toda criança, parecia um joelho enrugado, mas os pais, como todos
os pais, acharam-na linda e Linda ficou seu nome. Há quem não crê, mas deve ter
sido premonição. A menina logo se livrou das rugas, alisou a pele, curou
brotoejas e se tornou um bebê bonito. Tinha cabelos negros sedosos, quando boa
parte dos nenês são quase calvos exibindo, quando muito, ligeira penugem.
Acompanhando a cor dos cabelos, dois olhos de jabuticaba madura luziam no
rostinho corado e, se é verdade que por eles se vê a alma, surpreendiam a todos
por transmitirem, com tão pouco tempo de vida, uma faísca de consciência acesa.
Se não bastasse tudo isso, era ela o único bebê que algum dia nasceu ou nascerá
no mundo com aquela boca. Nem Leonardo redivivo seria capaz de descrever ou
pintar aquela boca. Não era grande, nem pequena, nem grossa, nem fina, nem
vermelha, nem pálida; fugia dos extremos; era a perfeita boca aristotélica do
justo meio. Se a visse, o esteta dos estetas não quereria tirar dela nenhum
traço e não se atreveria sequer a nela por mais um ponto.
Por si só
aquela perfeição de traços e proporções seria suficiente para cativar as
pessoas, porém o rosto da menina não era imóvel, como uma fotografia, tinha uma
cinemática própria, da qual a boca era a protagonista. Com a expressividade de
uma diva sabia ela demonstrar desejos e aflições, fome e saciedade, dor e gozo
e, quando estava em repouso, até mesmo quando a menina dormia, aquela boca
brejeira tinha trejeitos que preocupariam um observador criterioso. Os pais viam,
mas toldados de amor não enxergavam. Aquele esticar e apertar de lábios, com o
perdão da má palavra, considerando a pouca idade da criança, parecia indicar
sonhos impróprios, laivos de lascívia.
Vade retro,
Satanás! Isto é conclusão que se tire?
Não me
repreenda o leitor metódico, acostumado à moderação e afeito a raciocínios
lógicos. Ensinou-nos aquele filósofo alemão que vivemos no melhor dos mundos
possíveis, mas nem por isso é este um mundo perfeito. Se a referida conclusão
foi chocante, em pelo menos uma cabeça ela nasceu, a de Pedroca, o tio pedófilo
de Lindinha.
Há quem
diga que a pedofilia é um desvio de caráter, outros entendem ser ela uma
doença. Fico eu com esta opinião e quem me levou a ela foi o próprio Pedroca,
que, consciente de suas inclinações pervertidas, não demorou a se sentir
enfeitiçado pela boca da criança, ainda aos três anos. Um desejo incontido rasgou-lhe
as entranhas como se um vulcão interior explodisse. Cada vez que via a sobrinha
uma lava escaldante lhe subia pela garganta, tirava-lhe o fôlego e lhe abrasava
as faces rubicundas. De noite, então, sonhava sugar aquela boca lúbrica e fazer
coisas. Percebendo que não resistiria a tanto desejo, tomou uma atitude
heroica, afastou-se da família, foi para a Argentina.
Não sabe
este narrador o que passou ele por lá, mas deve, por justiça, enaltecer sua
decisão. Afinal, neste mundo não perfeito em que vivemos, tem merecido encômios
gerais a coesão familiar. Se por lá deu ele vazão a seus pendores doentios não
sabemos, e nem nos importa: a Argentina fica longe e os argentinos não são
nossos melhores amigos. A verdade é que, com essa resolução, evitou ele
constrangimento por aqui.
Deste modo
cresceu Lindinha, incólume, longe do perigo familiar. Passou pela escola
maternal, depois infantil e com sete anos já estava praticamente alfabetizada.
A partir desta fase começou a chamar a atenção dos coleguinhas, o que não
acontecia antes, pois, ao contrário do que pensou Freud, a sexualidade infantil
não é tão temprana. Os meninos da mesma idade ou um par de anos maiores se
sentiam atraídos pela boca de Lindinha. Não sabiam direito, é verdade, o porquê
daquela atração, mas reagiam magneticamente como se fossem polos imantados.
Alguém descobrirá um dia que o impulso sexual surge ainda antes da consciência
de sexo.
Seja qual
for a metafísica escolhida a verdade é que aquela boca despertava nos meninos
vontades desconhecidas e, seguramente, mais dia menos dia a menina iria correr
perigo.
Contudo,
ironia de nossa história, o perigo chegou em casa e não pela escola: tio
Pedroca tinha voltado. Alguma, por certo, haveria aprontado na Argentina, pois
percebia-se que voltara às pressas, sem bagagem. Mal ele viu Lindinha, já então
crescidinha, e o vulcão reacendeu. Aquela boca! Ai, Jesus, quem resistiria? O
homem enlouqueceu.
Fez planos.
Contratou um casal de velhos na periferia: usaria a casa e eles cuidariam da
menina. Sequestraria Lindinha na saída da escola. Não contou, porém, com o
imprevisto: tão ansioso estava na ação que não viu o carro quando atravessou a
rua. Teve traumatismo craniano.
A leitora
devota certamente exclamará: Bem feito! O Anjo da Guarda protegeu a criança.
Não a desabono e nem com ela comungo, pois, se na vida já vi muito, ainda não
tomei partido. O certo é que Pedroca ficou paraplégico e Linda passou a cuidar
do enfermo. Ironia perversa.
Um dia, já
grandinha, com mais de treze anos, carnes aflorando sob o tecido leve do
vestido, Lindinha foi abordada por um homem no metrô da Paulista. Não estava
só, tinha a mãe ao lado. O homem explicou ser publicitário e ofereceu à menina
a oportunidade de fazer uma campanha de um batom famoso. A mãe ficou
desconfiada: Não vai ficar pelada? Não, é só foto do rosto. O homem deu um
cartão da agência e insistiu: A senhora vem junto e acompanha tudo.
Depois do
encontro, a mulher ficou matutando: o homem estava bem vestido, tinha cara
séria, estava dentro do metrô da Paulista, deve ser verdade. Se fosse no metrô
de Itaquera ela desconfiava. Com esta demonstração de fina lógica, resolveu
apostar na sorte.
Feitas as
fotos, a moça saiu deslumbrante nas revistas do mês. Daí para frente passou a
ser definitivamente Linda, nunca mais seria Lindinha. Ainda adolescente, nas
páginas coloridas virara mulher. A boca, de um vermelho escandaloso, sobressaía
da foto plana e parecia assumir relevos. Não era boca de menina, era boca de
mulher, fascinante, boca que assumia toda a lascívia prometida desde a
infância.
O batom
famoso nunca vendeu tanto. Esgotaram-se os estoques nas lojas e a fábrica
inaugurou novo turno de produção. Quem era essa mulher? Choveram propostas.
Todos queriam ser donos daquela boca. Não demorou e notícia chegou na Europa e
de lá veio a proposta: Roma queria aquela boca.
E assim
chegamos ao fim da história: Linda está em Roma, Linda e sua boca. Fazem enorme
sucesso.
Eu, de
minha parte, me despeço. À noite pego o voo da Alitália. Também eu quero aquela
boca.
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