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O PESO DOS ANOS


Pequeno ensaio sobre luz e sombras



  
            Ele já vivera muito. Mais que no corpo, sentia na alma o peso dos anos. No corpo o peso não era uma metáfora, ali os anos pesavam sobre as vértebras, comprimindo-as. Movimentos antes banais agora lhe causavam dor; por vezes doía até sem se mover, caso do ciático da perna direita. Ele fazia alongamentos, fortalecia musculatura na academia, porém o resultado era pífio, teve que aprender a conviver com a dor. Evitava passos largos, movimentos bruscos, descia escadas se apoiando no corrimão, andava devagar, mancava. Se a dor era muita, tomava um comprimido. Assim foi vivendo, conformado mas não acostumado; ninguém se acostuma à dor, às vezes até se esquece dela, mas a malvada logo se incumbe de avivar a memória, como tirana que é.

            Com a alma é diferente, não tem comprimido para dores d’alma. Certo que ele as tinha, como todo mundo, mas sua alma guardava também alguns prazeres. Sendo a alma um naco de espírito ou apenas um punhado de descargas elétricas, a verdade é que ela tem, até mais que o corpo físico, uma fantástica capacidade de sentir dor e prazer. Mas até mesmo nessa entidade quase irreal o peso dos anos se faz sentir. Cada um de nós sente o que sua memória guarda, e como a vida nos proporciona sempre mais dor que prazer, é natural que a memória da pessoa idosa guarde em seu baú uma quantidade maior de dor. É o que acontecia com o nosso homem, que já vivera muito.

            Reconheço que neste ponto a amável leitora, pessoa mais otimista que eu, levante uma questão de ordem. Não está provado que a vida tenha mais dor que prazer, nenhum estudo a respeito; pode ser até que aconteça o contrário. Concedo. Concedo e reformulo. Mesmo que a vida traga mais prazer que dor, as dores são intensas e os prazeres, fugazes. Elas se impregnam na alma, enquanto eles são logo esquecidos. As dores são pintura a óleo, enquanto os prazeres são aquarelas; elas ficam sempre vivas e eles, desbotam. Por isto os velhos, que acumulam grande acervo durante tantos anos, costumam ser tristes. Alguns, de mais sorte, perdem a memória.

            Mas isto não acontece com o nosso homem, tem ele a memória aguda. Os acontecimentos do passado estão todos arquivados com esmero, a maior parte carregando alguma dor. Na contabilidade de sua vida não existem partidas dobradas, o passivo é maior que o ativo, a conta de lucros tem mais perdas.

            Ele, que até então estava sentado no banco da praça, levanta-se. Por muito tempo ficara sentado. Pensou. Sofreu. O passado viera lhe assombrar.

            É tardinha, o lusco-fusco da hora mistura luz e sombras. Levantado, dá ele o primeiro passo, inicia uma caminhada. Mas o peso dos anos, o passado, gruda-lhe em todo o corpo, oprime-lhe o peito, dificulta-lhe o respirar. O homem se sacode, balança os braços e faz com que o passado lhe escorra pelo tórax, pelo abdome e, finalmente, pelas pernas abaixo. Mas o danado se lhe aferra aos pés e ali, por mais que o dono os sacuda, deles não larga. Caminha então com desconforto, o passado empós de si, grudado a seus pés. Não demora, porém, ele percebe: o passado se sobrepõe à sombra de seu corpo, que a luz do poente desenha atrás de si. Percebe e, inteligente que é, logo aprende a lição que a luz do sol lhe traz clara: assim como o corpo precisa da sombra para ser real, a alma precisa do passado para ser inteira. Uma alma sem passado é como um corpo sem sombra: não existe.

            Agora mais sábio, o homem caminha.
 
 

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