Francisco não é primo do Papa nem
devoto do santo homônimo, prefere o “Padim Ciço”, cabeça chata igual que só.
Nascido em Pernambuco veio menino para São Paulo e hoje é metalúrgico.
Progrediu bastante na vida, mas não tanto quanto um colega conterrâneo que
acabou político. Esforçado sempre foi, e inteligente também, mas a sorte lhe sorriu discreta, enquanto que para o outro ela
gargalhou. Quem há de discernir o trabalho das fiandeiras?
Não foi fácil a infância de
Francisco. De família numerosa, havia muita boca e pouco pão. Ele e os irmãos
comeram aquele que o diabo amassou, e quase sempre nem esse tinha. Mas o
nordestino é antes de tudo um forte, diz o ensino euclidiano, que cai bem em
nossa narrativa e que talvez explique terem os irmãos crescido o devido, apesar
das privações. Mas não muito, que a genética do sertanejo não facilita.
Francisco foi desasnado em escola
pública e depois fez curso de torneiro mecânico no Senai. Arrumou emprego em
uma metalúrgica em São Miguel, desfrutou a solteirice dos anos dourados e,
chegado o momento, alugou uma casinha em Itaquera, arranjou mulher e, depois de
nove meses, filho, sendo feliz por todo esse tempo. Seria-o para sempre se esta
fosse uma história bonita, mas a vida não é bonita, não. As referidas
fiandeiras são mestras em embaralhar os fios do destino. É sua única diversão.
Teceram a crise.
Que começou tímida, na primavera, e
aprofundou-se valente no verão. A situação geral do país degringolou, com inflação
e desemprego altos. Francisco perdeu o seu na entrada do outono, e no princípio
do inverno perdeu a mulher, que fugiu com o vizinho. A desgraceira toda
aconteceu no intervalo de poucos meses, mas para ele foi como se tivesse sido
de supetão, num piscar de olhos.
A substância humana não foi criada
para desgraças, e se a elas foi jogada — culpa da serpente original — sofre
sempre. Quando não sucumbe. Francisco não foi diferente, puxou aos seus, sentiu
o infortúnio como um açoite de ventania, desses que derrubam telhados e quebram
vontades. Mas, de raça forte, seguiu em frente. Aquebrantado, é verdade,
claudicante, porém determinado. Sem emprego e sem salário passou a viver de
bicos: consertos hidráulicos, desentupimento de pias, reparos elétricos, até
passear cachorro de madame. Nada a ver com tornos mecânicos, fazia aquilo que
aparecia. Os caraminguás que assim conseguia mal davam para pôr pão na mesa.
Teve que fazer escolhas: carne para um ou feijão para dois, o aluguel da casa
ou o remédio do menino. Não demorou estavam reduzidos a farinha e rapadura,
como se a vida lhe quisesse rememorar via estômago as agruras da infância quase
esquecida.
Dia após dia saía a procurar
emprego. De segunda a sábado corria as portas de fábrica, sem sucesso, só não o
fazia aos domingos, quando elas se fecham; ia ele então à igreja, rezar para
Padim Ciço.
— Padim, olha que aperreio!
Quando os dias anoiteciam, após mais
uma busca infrutífera, e algum frescor invadia a cidade, sentia-o como um bálsamo
depois de outra tarde quente. Ficara em um passado distante a época em que
fazia frio e a garoa molhava as pessoas.
*
Francisco, na estação da Sé, espera
o metrô para Itaquera. Ensimesmado, deprimido, mal ouve o burburinho ao seu
redor. A plataforma não está cheia, passou o horário de pico, mas ainda assim
tem bastante gente. Volta ele para casa carregando a frustração de mais um dia
de procura inútil. Não há vagas. No sindicato a notícia de novas demissões.
A pouca distância dele um casal
jovem também parece alheio ao movimento das pessoas, ensimesmados, sim, mas não
deprimidos. Olham um para o outro e isto lhes basta, estão enamorados. O amor
tem o condão de propiciar o isolamento dos amantes, ainda que estejam eles
engolfados na multidão. Só têm olhos um para o outro, o resto, coisas e gentes,
são como o ar, existe mas não é notado.
Se atento, Francisco perceberia a
troca de olhares amorosos, o jovem piscando nervoso, ansioso, ela, a piscar
langorosa. De temperamento detalhista — haurido na labuta do torno —
registraria ele que o fechamento das pálpebras é tão rápido nos olhos do homem
como nos da mulher, os dela grandes e negros, os dele miúdos e cinzentos. A
diferença entre ânsia e langor, descobriria então, está no tempo em que as
pálpebras se abrem, mais rápido no homem, e também na duração do intervalo,
mais lento o dela. Ele pisca repetidamente, ela, a espaços, sutis variações
determinantes da percepção dos sentimentos humanos. Seja, porém, por olhos
grandes ou pequenos o ato de piscar é sempre veloz, não consome do tempo senão
um átimo.
Veloz também é o trem que chega e
abre as portas. Nele embarcam as pessoas, o casal junto.
Francisco, absorto, não se dá conta.
O trem parte.
Francisco fica só.
Aos poucos vão chegando novas
pessoas, que Francisco mal percebe.
Eh vida ingrata! Há meses sem
salário, despensa vazia, filho doente, dívida na farmácia, não chegava tudo
isso, tinha que ter também o despejo? Só uma semana para desocupar a casa.
— Meu Deus, para que tanto
sofrimento!
Temente ele é, cumpridor ele é, sem
medo de trabalho. Por que tanto castigo? Sua vida a desmoronar de uma hora para
outra.
Vai assim Francisco afundando em
fossa moral, a depressão puxando-o cada vez mais ao fundo. Num lampejo de volta
à consciência vislumbra a seus pés a fossa real, o caminho do trem, os trilhos
lá embaixo. O brilho metálico das retas paralelas parece hipnotiza-lo. O vão a
seus pés o atrai como se estivesse à beira de um precipício. O barulho de um
novo trem já se faz ouvir e uma lufada de vento se lhe antecipa, acariciando a
face dura do homem com ar fresco. Francisco olha à sua esquerda e vê os faróis
acesos, dois olhos gigantes que não piscam e se avolumam à medida que se
aproximam velozes. Uma adaga de luz o cega e faz piscar seus olhos febris.
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