Era uma manhã clara, o carro de
Apolo já percorrera um quarto do caminho e sua luz reverberava nas anfractuosas
faces da montanha. Neste fim de mundo ignorado minha busca terminara. Lá estava
ele, gigante sofrido, imponente apesar das eras, belo como soem ser os
visionários, puro como são os de coração generoso. E, no entanto, acorrentado.
Preso em cadeias mágicas, o dorso encostado à rocha nua, o ventre desprotegido
e ferido a gotejar sangue divino. Fiz-lhe a pergunta:
- Por quê, oh sublime titã, por
que foste ajudar o homem?
Não me respondeu. Olhou-me
apenas, e naqueles olhos negros vi brilhar a luz de uma fé imorredoura. Fé em
nós, que não fizemos por merecê-la. Senti-me humilhado e, com vergonha, desviei
o olhar.
Fizera eu pesquisa por décadas,
atravessara meio mundo até estes Cáucasos esquecidos e agora, diante da figura
mítica, sob o peso de seu olhar doce, calava-me, envergonhado de minha espécie.
Pois não fora por nós este gigante acorrentado? Não somos nós a causa de seu
fígado ser diuturnamente bicado pelo adunco abutre? E valeu a pena? Que responda
o homem, esta espécie de alma pequena.
Todos sabem que no começo do
mundo este divino gigante se apiedou de nós, homens, pobres seres a vagar por
paragens inóspitas, desprovidos de defesa, criaturas frágeis à mercê de
predadores vorazes, espécie fadada à extinção. Movido pela misericórdia, ousou
ele roubar dos deuses o fogo sagrado e entregá-lo ao homem. Com este fogo do
conhecimento, fruto da árvore da vida, pôde a espécie não só sobreviver, como
dominar as outras. De posse da ciência divina, criou para si o progresso:
empalmou terras, desvirginou florestas, conquistou oceanos e, na ânsia de
sempre se elevar, acabou por conspurcar o mundo. É por este mundo doente que
empreendi minha viagem.
Volto a encarar o gigante:
- Por quê, Prometeu, por que
foste confiar em nós, seres desprezíveis, que estamos a destruir o mundo que
nos deste, e que nos deste com tanto amor e generosidade? Não estaria Zeus
coberto de razão ao te sentenciar? Não seria teu crime tão hediondo que
justificasse este suplício eterno?
Duas lágrimas escorrem daqueles
olhos negros. Lágrimas e silêncio.
Meu olhar se torna mais duro.
Agora consigo encarar aqueles olhos de luz. Sinto que uma irritação me invade o
ser; afinal, depois de décadas de trabalho árduo e de uma viagem insana,
quando, contra toda expectativa, consigo encontrar esta figura lendária,
mantém-se ela neste mutismo atroz. Não me ignora, vê-me com estes olhos negros,
mas não me responde.
Insisto:
- Por quê, Prometeu, por quê?
Confabulo comigo mesmo: não saberei
eu próprio a resposta? Pois, usando a lógica: sendo nós, homens, criação dos
deuses ou, ao contrário, eles, deuses, por nós inventados, não é sempre a
criatura moldada à imagem e semelhança do criador? Somos nós parecidos com os
deuses ou são os deuses parecidos conosco. Criadores ou criaturas, têm os
deuses os mesmos defeitos do homem: mentem, enganam, são mesquinhos e nada
confiáveis. Que o diga o supremo Zeus, o adúltero; quanta vez traiu a legítima
esposa? E Hera, furibunda, quanta mesquinha vingança? E que dizer da casta e
bela Afrodite, esposa do coxo Hefaísto, artífice magnífico, criador destas
cadeias que ora prendem o titã na rocha, que esculpiu em suas forjas o
invencível escudo de Ares, deus da guerra? Pois não se deitou a linda deusa do
amor com aquele Ares ingrato e com ele teve concurso carnal? Não foi esta mesma
Afrodite que, junto a Hera e Atena, disputou por ser a mais bela? As três
deusas, com o pecado da vaidade em seus corações, não fizeram uso então dos
mais reprováveis meios para conseguir a preferência do príncipe Páris? E não
desaguou essa discórdia tão infantil na mais terrível guerra do mundo antigo?
Enquanto faço estas
confabulações, Prometeu volta a derramar lágrimas; não mais disfarça, agora
chora. Eu, que não resisto a um choro de criança ou de mulher, como posso
resistir ao choro de um gigante? Condoído, arrependido da pressão que lhe venho
impondo, abro a boca para me desculpar e, como se mirasse em um espelho, vejo
que a boca do colosso também se abre:
- Errei, meu caro amigo – ele
balbucia - errei. Não fui digno de tua confiança. Deixei pela metade o serviço
que me propus fazer. Este suplício me foi imposto pelo sucesso de meu trabalho,
por ter conseguido arrebatar aos deuses o fogo sagrado e à humanidade doá-lo; porém,
por injusto que pareça ser, acabou ele por ser devido: incompetente que fui,
sofro um merecido castigo por não ter terminado a tarefa.
- Como assim? Se nos deste o
fogo da ciência, o que mais faltou?
- Faltou, meu amigo, o conteúdo
de um frasco, o remédio divino que curaria o maior mal que aflige a humanidade.
Tivesse eu conseguido arrebatá-lo também e tua raça teria tido outra história,
não teria chafurdado no lamaçal que a levará a destruição. Desgraçadamente, não
consegui meu intento; fracassei. Inepto que fui, sou culpado e mil vezes mereço
o castigo que ora sofro.
- Mas, Prometeu, o que tinha
afinal no frasco? Que remédio milagroso seria esse, capaz de redimir minha
espécie?
O gigante desvia o olhar; mira
o horizonte; no semblante uma nuvem. Hesita. Merecerá o homem a revelação
final? Por fim o amor vence a dúvida:
- O frasco contém o remédio que
cura o orgulho.
Calo-me. Calamo-nos. Um pesado
silêncio nos envolve.
Mais uma vez envergonhado,
retiro-me.
A descida até o pé da montanha é
lenta, meu corpo carrega, além da mochila de sobrevivência, o peso de uma
imensa culpa.
No céu sem nuvens um abutre voa
alto desenhando espirais descendentes.
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