Em menina era Margarida. Nascera em
família pobre, de periferia, mas tinha os olhos grandes, queria ver-se longe,
lá nos prédios altos. Sonhava em ser princesa. O corpinho mal nutrido,
sustentado por dois gambitos magros, foi crescendo mais que o prometido e ainda
na adolescência prenunciava a mulher. A transformação em curso ia mudando o
desenho original, os gambitos a virar pernas, os glúteos a se insuflar de
carnes, os peitos a apontarem rijos. Os olhos continuavam os mesmos e o sonho
igual, ser princesa. Na cabeça ainda de menina o desabrochar do ser não
combinava mais com o nome prosaico, Margarida. Urgia fosse ele também
melhorado. E assim surgiu Margareth, com teagá, à moda da realeza. Foi por essa
época que a moça conheceu Marquinho.
Rapaz
crescido, mais de metro e oitenta, morava nos prédios altos. Nascera Marcos,
crescera Marcão entre a criançada, sempre maior que eles e virara Marquinho ao
entrar na equipe de basquete da escola, o mais baixo do time. A vida é uma gangorra.
Há
quem acredite, outros, não; digo aos primeiros: Marquinho, ao ver Margareth,
foi tomado de paixão, como se Eros, menino levado, lhe traspassasse o coração
com a flecha mágica. Aqueles olhos, duas jabuticabas graúdas, e os lábios
carnudos de romã madura, as pernas torneadas e os peitinhos de gazela, o
sorriso de promessas e o jeito de recato, tudo isso somado desmontou quaisquer
resistências do rapaz, se é que as houve. Nessa idade os hormônios pululam.
O
namoro deles transcorreu quente, sob o império dos desejos da carne e assoprado
pelos ventos do calor tropical, mas a entrega dos dois não se deu por igual.
Marquinho mergulhara afoito nas águas revoltas das corredeiras do rio da paixão,
enquanto Margareth nadava na superfície lisa de dum lago plácido. Que sirvam
estas imagens toscas para traduzir o fato comum e rotineiro de que um amava a
outra mais do que a outra amava o um.
É
bem verdade que Margareth quase se desilude de Marquinho quando veio a se
inteirar de sua real condição. Morava ele, sim, em prédio alto, porém em
apartamento modesto, com os pais, e trabalhava como auxiliar em escritório de
contabilidade; nem carro possuía. Estes fatos ordinários talvez expliquem o
pouco entusiasmo que a moça colocava nos folguedos amorosos, enquanto que, da
outra parte, eram eles afogueados de torrenciais aportes de testosterona.
Antes
que uma casta leitora venha a fazer um mau juízo da menina, é justo dizer que
ela conseguia resistir aos desejos candentes do rapaz, não sem algum esforço,
dado que Marquinho era moço bonito e ela própria, não destituída dos impulsos
da idade. Sabe-o, contudo, a dileta leitora que as mulheres, ao contrário dos
homens, que em situações tais perdem a cabeça, possuem elas quase sempre o
controle das rédeas em suas mãos e são capazes de administrar a contento esses
embates amorosos. Em poucos casos limites perdem elas, também, a cabeça.
Se
no caso presente Margareth não perdeu a cabeça, perdeu, sim, a ilusão do
príncipe: retirado o manto de sua alteza, por baixo restou o plebeu. O Príncipe
Marquinho fora rebaixado a sapo. Não se rompeu, contudo, o namoro, continuou
ele firme de um lado, frouxo de outro. Como é desta forma que as paixões se
exacerbam, Marquinho cada vez mais parecia caminhar para a loucura, fazia de um
tudo para agradar a moça, passeios, presentes, vontades.
Assim,
de maneira natural, surgiu um dia a vontade de Margareth: queria pôr silicone
nos seios, achava-os pequenos. Marquinho, que deles gostava tanto, insurgiu-se:
Loucura, vai estragar o que já é perfeito! Não sabia ele, porém, que as
mulheres não dão a mínima importância para as opiniões estéticas dos namorados,
o que vale é o julgamento das amigas; e as amigas aprovaram a ideia. Elas
sempre aprovam.
Marquinho
resistiu o que pôde, coitado; jovem que era não sabia ainda que quando uma
mulher quer deveras alguma coisa, não há no mundo nada que a demova. Terminou
por capitular. A cirurgia, contudo, tinha preço alto e nenhum dos dois possuía
tanto dinheiro. Margareth entristeceu, esfriou o que já era morno, para
desespero do namorado. Ele tinha que fazer alguma coisa. E fez. Tomou
empréstimo no banco, para pagar em longuíssimas prestações.
Cirurgia
feita, seios novos, protuberantes, sutiãs de renda e decotes generosos, tudo
fazia a delícia dos olhos jovens e despertava em olhos velhos a lembrança
daquela atriz italiana com nome de filosofia. Tinha razão Margareth, tivera
razão as amigas, o que era bom ficou melhor. Até mesmo o recalcitrante
Marquinho gostou do resultado, e ficou ainda mais apaixonado, se isto fora
possível.
Ah,
não há bem que sempre dure! Em toda vida há uma tragédia, é só procurar. Na do
rapaz nem é preciso tanta busca: a cirurgia tornou a amada mais apetitosa e não
tardou que olhos lúbricos viessem a tatear os contornos sensuais da nova
figura, olhos para os quais a moça passara antes despercebida, olhos que
pertenciam ao andar mais alto do edifício mais caro. Cesinha, o dono desses
olhos, morador da cobertura, filho de industrial importante, tendo herdado a
importância do pai, conseguia disfarçar com boas roupas o mirrado do corpo.
Quando saía para jogar tênis, o branco imaculado delas fazia um bonito
contraste com o couro vermelho do carro conversível e ninguém lembrava, então,
que ele tinha só um metro e sessenta de altura. Se alguém insistisse em
lembrar, o ronco do motor possante se incumbia de varrer o mau pensamento.
Margareth
não era boba, logo percebeu os olhares gulosos do moço. Qual a mulher que não
percebe? Sendo pessoa de princípios, entrou em conflito moral: Marquinho não
merecia isso, fiel e devotado, fazia-lhe todas as vontades, acabara de
pagar-lhe os seios novos e já começava a falar de casamento. Não tinha, porém,
nenhum carro, que dirá um conversível italiano! Trabalhador ele era, mas o
salário, pouco: pipoca no cinema e hambúrguer no carrinho da praça; Cesinha no
restaurante fino, no clube de bacanas...
Margareth
a verrumar, a broca a abrir buracos na consciência, a abalar princípios
cimentados na infância. O desejo antigo de ser princesa, quase esquecido, não
morrera, ressurgia agora na esteira do cheiro de gasolina do carro de Cesinha.
Se a indecisão atinge até os grandes homens, por que não atingiria a pobre
moça? Se o quase divino César hesitou de transpor o Rubicão, não é justo que
esta simples plebeia titubeie em dar o mau passo? O grande César deu o passo — Alea
jacta est! — varou o ribeirão e conquistou Roma; Cesinha não deu passo algum,
mas mesmo assim conquistou Margareth. A César o que é de César.
Marquinho
perdeu a moça, deprimiu, sofreu, quis morrer, mas na vida real, ao contrário da
literatura, os amantes mal sucedidos quase sempre da morte escapam. O tempo
cura as feridas, mesmo aquelas feitas pela verruma do amor traído. Para
esquecer a amada dedicou-se aos livros, estudou, fez faculdade e agora se forma
contador. Podendo assinar balanços acaba de ser promovido no escritório,
salário aumentado. Como é bom pagador — não atrasou nenhuma prestação do
dinheiro antes tomado — consegue novo empréstimo no banco e compra um carrinho
para passear com a família nos fins de semana. Não tem família ainda, mas ela
está bem encaminhada, namora Clarisse há dois anos, moça franzina, delicada, de
sonhos baixos. Como bom contabilista que o moço é, faz seguro de futuro, nada
de sonhos altos.
Às
vezes se pega sonhando com Margareth, que hoje não é mais Margareth, mudou de
nome, agora é Margô. Trocou o inglês pelo francês, mais chique. Quando tem
esses devaneios o rapaz sorri, balança a cabeça e segreda a seus botões:
—
Que pedaço de mulher!
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